Ex-São Paulo volta a lamentar passagem pelo clube

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Treinador de futebol em ação, usando uniforme do São Paulo FC, gesticulando em um campo esportivo.

Roger Machado revisitou sua passagem pelo São Paulo e classificou o período como um dos maiores desafios de sua carreira. Em entrevista ao Estadão, o treinador afirmou que chegou ao clube sob forte rejeição e que a experiência o ensinou a ser mais resiliente.

Roger comandou o São Paulo por 16 partidas entre março e maio. Sua contratação ocorreu em um ambiente de resistência, já que parte da torcida era contrária à saída de Hernán Crespo e não aprovava o nome escolhido para substituí-lo.

“Quando citam o São Paulo, a palavra que me vem à mente é ‘desafio’”, afirmou o treinador.

Segundo Roger, ele acreditava que poderia reverter a rejeição inicial por meio do trabalho e conquistar a confiança dos torcedores. A reação, entretanto, foi maior do que esperava.

“Eu genuinamente confiava que pudesse superar a rejeição inicial, com o torcedor conhecendo o profissional e a intenção de buscar ajudar e solucionar os problemas”, declarou.

Pressão da torcida

Roger afirmou que já havia enfrentado rejeição em outros momentos da carreira, inclusive quando assumiu o Internacional, por sua identificação anterior com o Grêmio. Para ele, porém, a dimensão da resistência no São Paulo foi inédita.

O treinador também destacou a diferença entre ser vaiado por torcedores adversários e sofrer rejeição da própria torcida.

“O adversário te vaiando no jogo é uma questão que até te dá ânimo. Agora, o teu torcedor agindo dessa forma torna o ambiente mais instável”, explicou.

A experiência fez Roger concluir que precisaria desenvolver ainda mais a resiliência e aprender a lidar com um ambiente de cobrança ampliado pelas redes sociais.

Comunicação virou aprendizado

O treinador reconheceu que sua forma técnica de se expressar contribuiu para parte da resistência. Roger lamentou ter sido alvo de chacota por utilizar explicações mais detalhadas sobre estratégia, tática e desempenho.

Para ele, após uma derrota, o torcedor muitas vezes deseja primeiro uma demonstração de conexão emocional, e não necessariamente uma análise técnica.

“Na dor da derrota, o torcedor deseja que o profissional se conecte com o seu sentimento, mais do que qualquer explicação teórica, técnica, estratégia, tática”, disse.

Roger afirmou que passou a refletir sobre a necessidade de adaptar sua comunicação sem abandonar suas convicções.

Ele também criticou jornalistas que, em sua avaliação, transformaram seu vocabulário técnico em motivo de deboche e usaram suas declarações para tentar desqualificar seu conhecimento.

Futebol e redes sociais

Na entrevista, Roger Machado avaliou que o futebol reproduz e intensifica comportamentos presentes na sociedade.

“O futebol amplifica e cristaliza o que nós somos como sociedade, com as coisas boas e com as coisas ruins. Essa relação que a gente hoje está vivendo adoece a todos nós, inclusive o torcedor”, afirmou.

O técnico apontou as redes sociais como um dos elementos que ampliaram a exposição e a velocidade das cobranças. Para Roger, a pressão atual exige atenção crescente à saúde mental de jogadores, treinadores, dirigentes e torcedores.

Ele também defendeu uma relação mais equilibrada entre os diferentes setores do futebol, com maior compreensão sobre as responsabilidades e limitações de cada profissional.

Trabalho com jovens

Roger também explicou o planejamento que encontrou ao chegar ao São Paulo. A ideia era manter o desenvolvimento dos jogadores jovens e utilizá-los em partidas específicas da Sul-Americana e do Campeonato Brasileiro.

“Quando eu cheguei ao São Paulo, a ideia era que a gente seguisse trabalhando com os jovens, utilizá-los em alguns momentos ou na Sul-Americana, em alguns jogos do Campeonato Brasileiro para fortalecer aquele grupo”, explicou.

O treinador afirmou que o objetivo era construir uma equipe competitiva ao longo do tempo, em vez de simplesmente montar um elenco para buscar resultados imediatos.

Na visão de Roger, o futebol atual exige planejamento e evolução progressiva. O Campeonato Brasileiro, por ser uma competição longa, demandaria um nível de organização mais consolidado, enquanto as copas poderiam oferecer oportunidades mais imediatas de conquista.

Posições políticas e luta antirracista

Roger Machado acredita que suas posições políticas e sua atuação no combate ao racismo também contribuem para a resistência que enfrenta em parte do futebol.

O treinador afirmou que algumas pessoas esperam que profissionais negros que alcançam espaço de destaque defendam exclusivamente o discurso da meritocracia individual.

“Talvez o que as pessoas gostariam é que o discurso que eu abraçasse fosse o da meritocracia. Afinal de contas, eu consegui vencer a disputa com outros milhares de jovens”, ponderou.

Roger, porém, ressaltou que o futebol pode ser simultaneamente um espaço de inclusão e exclusão. Para ele, o esporte abriu uma das poucas portas de acesso para muitos profissionais, mas continua reproduzindo desigualdades sociais e raciais.

O técnico defendeu ações afirmativas como instrumentos para corrigir desigualdades estruturais.

Futuro da carreira

Sem clube desde a saída do São Paulo, Roger Machado afirmou que pretende voltar a trabalhar ainda em 2026. Ele revelou ter recebido sondagens de equipes do Brasil e do exterior.

O treinador demonstrou interesse em trabalhar fora do país e citou o movimento de profissionais brasileiros em mercados estrangeiros. Também defendeu maior reciprocidade entre a chegada de treinadores estrangeiros ao Brasil e a abertura de oportunidades para brasileiros no exterior.

Roger afirmou que não é contrário à contratação de técnicos estrangeiros, mas acredita que o mercado nacional também precisa ser preservado para permitir o desenvolvimento dos treinadores brasileiros.

O grande sonho profissional, segundo ele, continua sendo comandar a Seleção Brasileira.

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