“Eu achava que não ia dar mais” : a história do torcedor com oxigênio que viralizou no Morumbi

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Uma foto tirada durante a vitória do São Paulo por 2 a 1 sobre o Red Bull Bragantino, no último sábado (29), viralizou nas redes sociais e emocionou torcedores tricolores. Nela, Roberto, de 82 anos, aparece nas arquibancadas do Morumbi acompanhado de um cilindro de oxigênio. Por trás da imagem, uma história de mais de seis décadas de amor pelo clube — e de uma luta recente pela própria vida que quase impediu esse reencontro.

Uma paixão que começou “desde sempre”

Roberto não sabe precisar quando passou a torcer pelo São Paulo. Para ele, o sentimento sempre existiu, herdado do pai são-paulino e de um tio que o levava aos jogos ainda na juventude. Sua primeira ida ao Morumbi aconteceu em uma data histórica: 2 de outubro de 1960, dia da inauguração parcial do estádio, quando o Tricolor venceu o Sporting, de Portugal, por 1 a 0, com gol de Peixinho. Ele tinha 16 anos.

“Era um terço do estádio, era só cimento. Não tinha cadeira, não tinha nada. Mas foi um dia feliz naquela época, como foi sábado agora também”, relembrou, em entrevista à Band.

Desde então, acompanhou o clube por diferentes palcos — Pacaembu, Rua Javari, Parque Antarctica — e viveu momentos históricos, incluindo as duas Libertadores que mais o marcaram, sob o comando de Telê Santana, um dos nomes que guarda com mais carinho na memória do clube.

Uma sequência de crises de saúde

A necessidade de usar oxigênio começou depois de uma série de problemas de saúde ao longo dos últimos anos. Cerca de sete ou oito anos atrás, Roberto sofreu um infarto e, durante a internação, a família descobriu que ele tinha apenas cerca de um terço da capacidade pulmonar. Ele se recuperou com fisioterapia e voltou à rotina, incluindo o trabalho na rotisseria da família em São Bernardo do Campo.

O quadro voltou a se agravar no fim de 2024: em novembro, veio o diagnóstico de câncer de próstata; no fim de dezembro, uma internação por suboclusão intestinal, que pressionou o estômago e piorou ainda mais a condição pulmonar. Nos primeiros dias de janeiro, o quadro se tornou crítico, e os médicos comunicaram à família que não havia mais condições para novos procedimentos invasivos. Em 10 de janeiro, Roberto entrou em cuidados paliativos.

Pouco depois, veio uma reação que surpreendeu até a equipe médica: ele acordou, sentou-se em uma poltrona do hospital e passou a ouvir música no Spotify. “O pessoal no hospital fala que ele é um Highlander, porque é inacreditável a força que ele tem”, contou a filha. Dias depois, no entanto, Roberto sofreu três AVCs, que deixaram sequelas no lado esquerdo do corpo e o levaram a uma nova etapa de fisioterapia e recuperação.

A vida com oxigênio 24 horas

Hoje, Roberto usa um concentrador de oxigênio permanentemente, inclusive no banho, e dorme com máscara conectada ao aparelho. Apesar das limitações de mobilidade, houve avanços: ele voltou a ficar em pé e a dar pequenos passos com auxílio, sempre acompanhado do equipamento. Segundo a filha, a lucidez nunca foi afetada — “o médico fala que o corpo e a cabeça não se conversam, porque ele é extremamente lúcido”. Desde junho, não precisou mais ser internado.

“Não dá para deixar para o mês que vem”

Os últimos anos mudaram a forma como a família enxerga o tempo e as oportunidades. Foi nesse contexto que surgiu a chance de Roberto voltar ao Morumbi, acompanhado da esposa e dos netos Maria e Luide — ambos são-paulinos por influência direta do avô. Segundo a filha, a resposta dele foi imediata: “Quando? Para ontem. Estou pronto.”

A ida ao estádio exigiu planejamento, já que sair de casa ainda é tarefa difícil para Roberto. No Morumbi, ele contou com apoio de funcionários do clube para se deslocar até o setor onde assistiria à partida — lugares cedidos por um amigo de longa data, também são-paulino.

O avô que passa a paixão adiante

Décadas depois de ser levado aos jogos pelo próprio tio, Roberto viveu a experiência inversa: apresentar o Morumbi a uma nova geração da família. “Acho que significou mais por causa dos meus netos. Fiquei muito feliz de poder levá-los ao estádio”, disse. A noite ainda terminou com vitória do São Paulo: “Passamos um pouco de sufoco, mas ganhamos”, brincou.

O cilindro que, para ele, representa força — não fragilidade

O detalhe que chamou atenção na foto viral foi justamente o cilindro de oxigênio. Para Roberto, porém, o equipamento carrega um significado oposto ao que muitos podem imaginar: “Espero que eles não vejam no cilindro um momento negativo. Muito pelo contrário, ele é muito positivo, porque sem ele eu não estaria falando com você agora.”

A repercussão e o que ela representou

Roberto não esperava a repercussão que a imagem ganhou, e recebeu uma onda de mensagens de carinho de torcedores. “Não esperava tudo isso. Me deixou muito feliz esse reconhecimento (…) Dá mais ânimo para viver mais um pouco, né?”, disse.

Entre todas as frases da entrevista, uma resume o peso daquela noite: “Eu achava que não ia dar mais tempo. Mas deu.” Deu tempo de voltar ao estádio que viu nascer, ao lado da família, para ver o time vencer mais uma vez — 66 anos depois de sua primeira visita ao Morumbi.


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