Parece que Arthur do São Paulo teve uma entorse leve no tornozelo. A torcida ouviu “leve” e relaxou. A ciência mostra que essa palavra esconde armadilhas. Vou explicar o que é uma entorse de tornozelo, quanto tempo fica fora e por que entorse leve não é coisa pra tratar com leveza.

Jogador de futebol em treinamento, com uma bola flutuando perto de sua cabeça, vestindo uniforme amarelo e preto do time São Paulo FC.

Parece que Arthur do São Paulo teve uma entorse leve no tornozelo. A torcida ouviu “leve” e relaxou. A ciência mostra que essa palavra esconde armadilhas. Vou explicar o que é uma entorse de tornozelo, quanto tempo fica fora e por que entorse leve não é coisa pra tratar com leveza.

Estamos na torcida para que Arthur volte logo. Mas o trabalho de verdade não termina quando a dor passa. Termina quando o tornozelo recupera força simétrica, propriocepção, controle motor e capacidade de aterrissar sem compensação. Quem encerra a reabilitação na ausência de dor está construindo a próxima lesão.

A entorse de tornozelo é a lesão mais comum em atletas. Responde por 16 a 40% de todas as lesões esportivas. 85% das entorses afetam os ligamentos laterais. Em 65% dos casos, o ligamento lesionado é o talofibular anterior (ATFL). Halabchi & Hassabi, World J Orthop, 2020

Existem 3 graus de entorse lateral:

GRAU I (leve): pouco edema, sem dor à palpação, perda mínima de movimento, sem instabilidade

GRAU II (moderada): hemorragia, dor, edema entre 0,5 e 2cm, teste de gaveta anterior positivo

GRAU III (grave): edema grande, instabilidade clara, incapacidade de apoiar peso Tomara que o Arthur tenha sido grau I

No futebol, a entorse acontece em 3 cenários:

Aterrissagem no pé do adversário

Mudança brusca de direção com pé fixo

Dividida com contato lateral Atletas com história prévia de entorse e sobrepeso têm 19 vezes mais chance de uma nova entorse não-contato. McHugh, Tyler et al., Am J Sports Med, 2005

A maioria das entorses NÃO precisa de raio-X. As Regras de Ottawa validadas por meta-análise com 15.581 pacientes:

Dor óssea no maléolo medial ou lateral

Incapacidade de dar 4 passos imediatamente após a lesão Sensibilidade próxima de 100% para detectar fraturas. Reduz radiografias desnecessárias em 30 a 40%. Bachmann et al., BMJ

Aqui está o dado que ninguém fala: 40 a 50% dos pacientes que tiveram entorse de tornozelo ficam com sintomas residuais persistentes. Recidiva é altíssima sem reabilitação adequada. Brace e treino neuromuscular nos 12 meses seguintes reduzem em 50 a 70% o risco de uma nova entorse.

Estamos na torcida para que Arthur volte logo. Mas o trabalho de verdade não termina quando a dor passa. Termina quando o tornozelo recupera força simétrica, propriocepção, controle motor e capacidade de aterrissar sem compensação. Quem encerra a reabilitação na ausência de dor

O reflexo de “imobilizar o tornozelo” para entorse leve está ULTRAPASSADO pela ciência. Revisão sistemática de 16 ensaios randomizados: Brace semi-rígido é superior à imobilização rígida em grau I e II Imobilização longa deve ser EVITADA Grau III tolera no máximo 10 dias de imobilização Petersen et al., Arch Orthop Trauma Surg, 2013


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