Vestiário do São Paulo age por si próprio e jogadores se ajudam com dinheiro por falta de salários
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O vestiário do São Paulo decidiu agir por conta própria diante de um problema que a diretoria não consegue resolver. Reunidas na última quinta-feira, as lideranças do elenco firmaram uma espécie de pacto interno de solidariedade financeira, se colocando à disposição para ajudar, do próprio bolso, companheiros de equipe que estejam passando por dificuldades em razão dos sucessivos atrasos salariais do clube — um problema que, pela primeira vez na atual gestão, já não se limita aos direitos de imagem e chegou também aos valores pagos em carteira de trabalho.
A informação, apurada pelo ge, escancara a dimensão de um problema que vem se acumulando silenciosamente nos bastidores do Morumbis ao longo dos últimos meses e que, agora, obrigou os próprios atletas a tomar uma atitude coletiva diante da falta de respostas concretas da cúpula do clube.
Um problema que já não é só sobre imagem
Até pouco tempo atrás, o atraso nos direitos de imagem — parte da remuneração dos jogadores frequentemente tratada de forma separada do salário-base — já era rotina reconhecida internamente pelo São Paulo. O que muda agora, e o que tornou a situação grave o suficiente para unir o vestiário em torno de um pacto, é que o atraso avançou para a carteira de trabalho: os valores que deveriam ter sido depositados no último dia 8 de setembro simplesmente não caíram nas contas dos atletas, e a diretoria, segundo os próprios líderes do elenco, não apresentou qualquer previsão de pagamento até o momento.
Somado a esse mês em aberto na carteira, o clube segue devendo três meses inteiros de direitos de imagem — junho, julho e agosto —, uma bola de neve financeira que cresce mês a mês sem sinal claro de solução no horizonte imediato.
O acordo de fevereiro que também não está sendo cumprido
A situação fica ainda mais delicada quando se observa o histórico recente: em fevereiro deste ano, já sob a gestão de Harry Massis, o São Paulo havia negociado um parcelamento específico para quitar direitos de imagem atrasados referentes a 2025, dividindo o montante total em dez parcelas mensais. Até agora, porém, apenas cinco dessas parcelas foram efetivamente pagas — ou seja, o próprio compromisso assumido pela diretoria atual para resolver o passivo herdado já está descumprido pela metade.
O contraste que incomoda: bonificação em espécie em meio à crise
O momento ganha um contorno ainda mais delicado quando confrontado com outra informação já divulgada: depois das vitórias sobre o Red Bull Bragantino e o Atlético-MG, a diretoria chegou a pagar aos jogadores uma bonificação extra em espécie, ainda dentro do vestiário do Morumbis — prática conhecida no meio do futebol como “bicho molhado”. Ou seja: mesmo sem conseguir colocar em dia salários básicos e direitos de imagem, o clube encontrou margem para premiar pontualmente o elenco por resultados específicos, um contraste que não passa despercebido por quem acompanha de perto as finanças do Tricolor.
A explicação da diretoria: a “guerra política” como bode expiatório
Segundo fontes ligadas à alta cúpula são-paulina ouvidas pela reportagem, a justificativa apresentada internamente — inclusive na própria conversa que a diretoria teve com os líderes do elenco — atribui a falta de recursos à disputa política que atravessa o Conselho Deliberativo do clube. Na prática, a oposição vem travando a votação do contrato com a Ticketmaster, empresa que assumiria a gestão de ingressos do Morumbis e que já teve seu acordo aprovado pelo Conselho de Administração desde 19 de agosto, mas segue sem data para ser votado pelo colegiado maior.
A proposta em disputa não é pequena: prevê a antecipação de R$ 110 milhões ao São Paulo em até 45 dias após a assinatura, na forma de um empréstimo a ser quitado em cinco anos, com juros de CDI mais 1,99%. É esse dinheiro — represado por uma queda de braço institucional que já dura semanas — que a diretoria aponta como a peça que faltava para destravar o pagamento das dívidas com o elenco.
O que está realmente em jogo
O episódio do pacto entre os jogadores resume, de forma humana e direta, o custo real de uma crise que até aqui vinha sendo discutida principalmente em termos de valores, prazos e disputas de poder entre dirigentes. Agora, é o próprio grupo de atletas — muitos dos quais vêm sustentando a recente reação da equipe dentro de campo, com vitórias importantes no Brasileirão e a briga por vaga nas semifinais da Sul-Americana — que precisa se organizar internamente para lidar com uma instabilidade financeira que, segundo a própria diretoria reconhece, não tem data para terminar.
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