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Texto de Alexandre Giesbrecht

primeira denúncia de suborno num Choque-Rei aconteceu há mais de oitenta anos. Foi no jogo que deu ao Palestra Itália o título do Campeonato Paulista de 1940, numa vitória por 4 a 1 sobre o São Paulo, que não tinha mais chances de ser campeão — o único clube que poderia impedir a volta olímpica palestrina era a Portuguesa, que dependia de uma derrota do rival e ainda precisaria vencer seus dois jogos restantes, para forçar um desempate.

Na véspera da partida, a imprensa noticiou o caso, sem mencionar nomes, mas o Alviverde emitiu uma nota oficial, dizendo-se “completamente alheio ao que se refere ao caso de suborno dos jogadores do São Paulo, em que está envolvido lamentavelmente o jogador Sidney Pinheiro”. Supostamente a mando do diretor Hygino Pellegrini, o médio palestrino (que fizera somente três jogos pela equipe no torneio e já tinha defendido o Tricolor entre 1936 e 1938) ofereceu de dois a três contos de réis, um valor considerável, ao atacante Paulo, do Tricolor.

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A proposta teria sido feita numa visita de Sidney à casa de Paulo, que tinha ido lá para encontrar a esposa e o filho, sob licença do clube, pois estava em regime de concentração para a partida. “Paulo, que possivelmente já sabia de algo e estava preparado para não perder esta oportunidade de combate aos subornadores, retrucou, então, que precisava de uma garantia, pois somente a palavra de seu proponente não bastava”, descreveu a Folha da Manhã, na edição publicada no dia do jogo. “Sem mais rodeios, Sidney adiantou ao jogador do São Paulo que ali fora a mando do senhor Hygino Pellegrini, diretor esportivo do Palestra, que servia como fiador da quantia prometida.”

O atacante ainda teria sido questionado sobre outros jogadores são-paulinos que poderiam estar dispostos a facilitar as coisas, sugerindo os nomes de Felipelli, Lola, Mendes e Remo. “Vou ver se encontro Remo, Lola e Mendes, que me interessam”, teria respondido Sidney. “Quanto a Felipelli, não é necessário, pois já está conversado.” De posse dessas informações, Paulo procurou os diretores do Tricolor Décio Pacheco Pedroso e José de Godoy, que imediatamente foram atrás do capitão Sylvio de Magalhães Padilha, da Diretoria de Esportes, a atual Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo.

Horas depois, diante de diversas testemunhas, Padilha já tinha obtido a confissão de Sidney, “que, ante as provas esmagadoras que lhe foram apresentadas, não teve dúvida em afirmar a veracidade dos fatos e confirmar que assim procedera a mando do diretor de esportes alviverde”, prosseguiu a Folha. Inicialmente, o jogador palestrino havia tentado negar, mas as seguidas contradições em que foi caindo tornaram o esforço inútil. Além de Felipelli, ele também disse ter feito entendimentos com a dupla de zaga tricolor, formada pelo uruguaio Herculano Squarza e pelo argentino Teófilo Juarez. Os dois negaram veementemente a acusação: “Não tivemos entendimento com quem quer que seja e jamais concordamos em participar dessas transações imorais.”

Apesar do grande destaque dado pela Folha ao caso, outros jornais praticamente o ignoraram, como o Diário Popular, que publicou apenas um breve texto, dois dias após a partida: “Na semana passada, os jornais noticiaram, com escândalo, uma tentativa de suborno dos jogadores do São Paulo. A responsabilidade foi atribuída a um importante clube de colônia desta capital, tendo sido citado o nome de um de seus diretores como o mandante e orientador do ‘negócio’. Nada disso nos parece estranho no infeliz futebol bandeirante.” O texto prosseguiu falando de um caso mais antigo de suborno, em 1932 — que coincidentemente também teve um dirigente do Palestra Itália como protagonista, mas num duelo contra o Corinthians — , antes de manifestar apoio a Padilha para “sanar o meio”. Já o Correio Paulistano só foi mencionar o assunto, ainda mais brevemente, após mais três dias, e isso depois de ter dedicado uma coluna de Salathiel Campos à “febre do suborno”… no futebol argentino!

No final daquela semana, a Liga de Futebol do Estado de São Paulo determinou a eliminação de Sidney e deixou o caso “em suspenso, aguardando possíveis novos elementos que surjam com a sindicância que está sendo procedida, [bem] como o inquérito policial em andamento”. Pellegrini não foi sequer citado, a não ser como testemunha ouvida, e não foi possível encontrar nenhum novo desdobramento nos jornais da época. Em 1942, o cartola se tornaria o primeiro presidente do clube após a mudança de nome para Palmeiras, ficando no cargo até 1945 e, mais tarde, reassumindo entre 1947 e 1949. Ele morreria em 28 de junho de 1960, aos sessenta anos, como vice-presidente, mas já tinha ocupado uma diretoria na Federação Paulista de Futebol e até sido vereador.

Todos os sete jogadores do São Paulo citados entraram em campo naquele domingo, mas só Lola e Remo tiveram longa carreira no Tricolor, respectivamente até 1944 e 1951. Paulo e Mendes ainda jogariam a temporada de 1941, mas entrando em campo com muito menos frequência: depois de ter sido o atleta são-paulino com mais jogos em 1940 (41), Paulo atuaria somente catorze vezes na temporada seguinte, enquanto as participações de Mendes diminuiriam de 34 para dezoito. Ambos deixariam o clube no início de 1942. Squarza, por outro lado, jogaria 22 vezes em 1941, cinco a mais que na temporada anterior, mas também sairia nas primeiras semanas de 1942, rumo à Portuguesa Santista. Felipelli e Juarez não tiveram o mesmo destino: eles ainda chegaram a atuar nas duas partidas restantes pelo Paulistão de 1940, mas depois não voltariam a vestir a camisa tricolor.

https://jogosdosaopaulo.com.br/o-caso-de-suborno-no-choque-rei-que-decidiu-o-paulist%C3%A3o-de-1940-198e32d1c10a


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