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No mundo do futebol, há um falso senso de virtude que me incomoda profundamente: a ideia de que um diretor de futebol não deve se questionar escalação ou na seleção dos jogadores. É como se um chef de restaurante fosse responsável por comprar os ingredientes, mas não pudesse questionar o cardápio. Estranho, né?

Essa posição é frequentemente vendida como uma grande qualidade, quase uma missão de respeito absoluto à autonomia do treinador. O diretor se limita a contratar o técnico e os jogadores, deixando toda a gestão do elenco para o “novo guru” da área técnica. Parece até um conto de fadas! Mas, na prática, será que isso faz sentido?

Antes de mais nada, claro que o treinador precisa de liberdade para tomar suas decisões, mas isso não pode ser um passaporte para fazer o que bem entende. Ele deve ser questionado, orientado e, por que não, cobrado não só pelos resultados, mas pela forma como os ativos do clube estão sendo utilizados e valorizados. A postura de alguns diretores de futebol parece mais uma estratégia brilhante para se livrar de responsabilidades: contrata-se o treinador, contrata-se os jogadores, e, se a coisa não der certo, demite-se o técnico como se fosse o único culpado. E, na sequência, contratam outro, e lá vamos nós de novo, “zerando” o jogo.

Isso é gestão? Mais parece um jogo de xadrez em que as peças são trocadas sem nenhum plano de longo prazo.

E aqui entra o papel do diretor de futebol. Ele tem, sim, uma responsabilidade nas escolhas que o treinador faz. Não dá para contratar alguém e deixá-lo livre para, de repente, começar a inventar um novo sistema de jogo ou deixar de utilizar jogadores importantes por birra ou cisma (quem não lembra do Emerson Leão?!?!).

Quando o Zubeldía cismou com o Moreira, alguém no clube deveria ter chamado ele de lado e falado: “Olha, a gente entende que ele errou, mas ele é nosso ativo, tem valor. Vamos dar um jeito de colocá-lo para jogar e fazer ele brilhar. Como podemos fazer isso juntos?” Parece óbvio, não? Mas aparentemente, não era uma prioridade do Belmonte.

O São Paulo, que passa por uma crise financeira das boas, pensou que ia vender o Pablo Maia e usar esse dinheiro para equilibrar as contas em 2024, já devia estar no radar do diretor e do técnico preparar um substituto, mas nada (estamos em 2025 e continuamos sem um substituto)! Além disso, o jogador se machucou. O que o clube fez diante disso? Nada, absolutamente nada, a não ser gastar mais 1,5 milhão de dólares no empréstimo de Santiago Longo, que, no fim das contas, já foi devolvido. Ah, e a previsão de venda do Pablo Maia? Continuou no orçamento como se nada tivesse acontecido, claro – depois foi uma surpresa o super déficit apurado no final do ano.

E ainda tem mais: durante esse período, o clube teve cinco treinadores e um único diretor de futebol. Cinco! E jogadores, contratamos e mandamos embora Orejuela, Mendez, Raí Ramos, James, Pato, Felipe Alves, Longo, Rigoni, Bruno Rodrigues, Gabriel Neves, Galloppo e a lista continua… o time parece mais uma roleta de técnicos e jogadores do que um projeto de longo prazo.

Outro momento clássico dessa gestão de futebol: lembram quando o Rogério Ceni decidiu escalar o Pablo em um jogo e isso ativaria um gatilho no contrato do jogador? Isso aconteceu em outubro de 2021, e o Pablo foi dispensado em janeiro de 2022. Por mais importante que o Rogério seja na história do clube, ele não poderia ter esse poder. E técnico nenhum deveria ter. O diretor de futebol deveria ter intervido ali, mas quem se importa com isso quando se está na eterna “roda da fortuna”?

O diretor de futebol é o guardião do plano de longo prazo da equipe!

O treinador deve, sim, ser responsabilizado, mas sabemos que o ciclo de um técnico no futebol é mais curto que amor de carnaval. Faz sentido deixar todas as decisões mais importantes nas mãos de alguém que, provavelmente, vai estar fora do clube no próximo ano? Parece que a resposta é: claro que não. Mas, no São Paulo, tudo pode acontecer!

No início de 2024 o Dorival não decidiu uma lista de saídas enquanto negociava com a seleção?!?!?! Hoje o Nathan poderia ajudar na lateral direita mais que o Igor Vinícius, hein…

E falando de uma referência em cultura futebolística, o Barcelona costuma ser exaltado por ter uma cultura de jogo bem estabelecida e por integrar esse sistema nas categorias de base. Claro, é isso que dá certo lá, mas quem constrói e mantém essa cultura de jogo? Não são os treinadores novos que chegam e tentam impor sua visão, é o clube que tem uma base sólida e uma ideia clara de como quer jogar. Parece mais lógico, né?

Mas, no São Paulo, parece que cada novo técnico chega para reescrever a história, sem muito alinhamento com o que foi feito antes. E não tem ninguém na gestão responsável por garantir que eles não ultrapassem esses limites.

Só para deixar claro, esse texto não é uma defesa ao Zubeldía. Longe disso. Ainda estou com um pé atrás com ele, e o tempo dirá se ele vai conseguir mostrar que é o técnico certo para o clube.

Agora, em relação ao restante da nossa diretoria de futebol, posso garantir: estou com os dois pés atrás. A gestão está mais para uma roleta russa do que para um planejamento estratégico, e é difícil acreditar que, com as escolhas feitas até agora, o clube vai conseguir pensar em um futuro de longo prazo. Estamos em uma constante dança de decisões reativas, e não proativas, como deveria ser.

E, no fim das contas, quem paga o preço disso é o clube e sua torcida, que continuam à espera de uma verdadeira mudança.


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