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As torcidas de Flamengo, Fluminense, São Paulo e Vasco, cada uma à sua maneira, foram as que cantaram mais alto no Brasileirão de 2024. É o que indica um levantamento inédito do GLOBO, que visitou 13 estádios em seis cidades diferentes nos últimos três meses. Munidos de decibelímetros profissionais calibrados — aparelho que mede os níveis de pressão sonora em um local — , a reportagem se embrenhou nos locais mais barulhentos da arquibancada para mensurar o som de 14 torcidas. A aferição foi feita durante todo o tempo de bola rolando em cada partida. A análise dos resultados obtidos foi dividida em quatro categorias distintas.

Na primeira delas, o campeão foi o São Paulo, e teve até “gol do título”. Foi no Morumbis, logo após o gol da vitória tricolor contra o Athletico, marcado por André Silva, no dia 9/11, que foi registrado o maior pico entre todas as medições nos 14 jogos aferidos. A celebração do gol que deu a vitória no finzinho fez a torcida do São Paulo chegar a 127,7 dB.

— É um ruído próximo a uma turbina de um avião — compara Marco Aurélio de Paula, engenheiro especialista em acústica. —A melhor forma de representar a percepção humana é através do nível de pressão sonora, e para este cenário a gente usa a escala decibel, que faz um comparativo entre a pressão sonora avaliada com a menor pressão que o ser humano é capaz de ouvir —explica o fundador da GRM Acústica, empresa especializada em análise de campo de ruído e vibrações.

Também usando os decibéis, mas tendo como critério a média nos 90 minutos da partida, o Fluminense foi o vencedor. Em média, a torcida tricolor cantou a 99,7 dB durante a vitória por 1 a 0 contra o Athletico, em 22/10, o que, segundo o professor Marco Aurélio de Paula, corresponde ao som de uma “roda de samba com música amplificada”.

Mas é mais tango do que samba: seguindo os critérios preestabelecidos (vejas as regras acima e saiba onde o decibelímetro foi posicionado em cada jogo no site) a medição foi feita próxima à torcida que mais emite som nos jogos de cada time. No Flu, trata-se de uma organizada que tem características parecidas às “barras” argentinas, que cantam durante os 90 minutos. Mesmo que não tenha atingido os maiores picos, a constância levou os tricolores a um resultado que não foi encontrado em outras arquibancadas.

Como a medição foi feita no meio dos torcedores, e não dentro das quatro linhas do jogo, ela reflete os volumes atingidos, em todos os critérios, na arquibancada, e não do som que chega até o campo, que pode ser influenciado pela distância ou arquitetura do estádio, por exemplo. No Maracanã, e sem deixar o canto cair, os tricolores conseguiram uma média de quase 100dB. Mas quase, quando se trata de decibéis, pode não ser o que parece. Pouca diferença pode significar muito mais volume.

— O decibel é uma escala logarítmica, que representa melhor a nossa percepção sonora. Não é linear: quando tivermos 3 dB de diferença entre dois sons, estamos falando no dobro da energia e pressão sonora — ensina o engenheiro.

Superar 100db, portanto, é sair do alto para o muito alto. Ou da roda de samba para uma casa noturna que, com DJ e banda, varia entre 100 e 105 dB. E a torcida que conseguiu cantar por mais tempo acima desse volume foi a do Vasco, na vitória pelo placar mínimo, mas com volume máximo, contra o Cuiabá, em 24/10. Em mais de um terço do tempo de bola rolando, 36 minutos e 15 segundos — com destaque para o 1º tempo —, os vascaínos transformaram São Januário em uma boate barulhenta.

— A torcida tem uma energia muito intensa, as pessoas ali cantando, eventualmente com instrumentos musicais e entoando hinos e gritos, realmente emitem um nível sonoro bem elevado. (Acima de 100 dB) É uma energia considerável e que reflete essa emoção, capaz de carregar uma energia muito importante aos jogadores e todos os participantes em campo, levando a sensações e emoções muito fortes — diz Marco.

Recentemente, o engenheiro fez a medição de um show da banda Tihuana, conhecida pelo som pesado. A média de 116 dB aferida é semelhante à encontrada no levantamento do GLOBO para a torcida que teve o minuto mais barulhento (115,5 dB) entre as 14 pesquisadas: a do Flamengo, na vitória por 4 a 2 contra o Juventude.

Mas o que impressiona na arquibancada rubro-negra é a regularidade: além do “título” no minuto mais alto, o Flamengo teve o 3º maior pico (122,7 dB, em um gol anulado de Gabigol), a 2ª maior média nos 90 minutos (98 dB) e o 2º maior tempo acima dos 100 dB (33 minutos). Ser a única das 14 torcidas a não sair do pódio em nenhum dos quatro critérios ajudou a torcida rubro-negra a, em uma classificação do GLOBO considerando todos os quesitos, ser eleita a torcida que cantou mais alto em 2024, seguida pela do Vasco, em segundo e a do São Paulo, em terceiro. Solta o grito, torcedor. 

REGRAS E CRITÉRIOS

Participaram da pesquisa as torcidas de todos os clubes da Série A em 2024 que aparecem como uma das 20 maiores do Brasil segundo pesquisa Ipec/O GLOBO de 2022.

A medição foi feita respeitando sempre o mesmo critério: o decibelímetro era posicionado no setor da torcida organizada que mais “puxa” o canto nos jogos, à frente da torcida, no lugar mais próximo possível do campo dentro desse setor.

Os jogos foram escolhidos aleatoriamente, entre outubro e dezembro, desde que valessem pela Série A do Brasileirão, no estádio onde a equipe mandante costuma realizar seus jogos, com 90% dos ingressos destinados à torcida local. Partidas muito decisivas foram evitadas, mas todas valiam, para o time da casa, título, luta contra o rebaixamento ou classificação para copas internacionais. Confira as regras completas e o posicionamento em cada partida no link. Por: O GLOBO


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