Um início de carreira promissor. Figurinha carimbada em convocações das Seleções Brasileiras de base, Walce deu todos os passos necessários para se tornar um dos principais jovens talentos do País. Mas, quis o destino que sua caminhada fosse interrompida em janeiro de 2020, justamente vestindo a Amarelinha, em um jogo-treino preparatório para Torneio Pré-Olímpico sub-23, contra o Boa Vista, na Granja  Comary.

Walce rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo na ocasião e teve de ser submetido a uma cirurgia. O tempo de recuperação estimado era de seis a oito meses, mas o calvário do jovem zagueiro duraria muito mais tempo.

Em outubro de 2020, quando estava em fase final de recuperação, Walce foi submetido a uma segunda cirurgia após um exame de imagem indicar que o ligamento ainda não havia se regenerado. E, como se não bastasse, em junho de 2021, novamente quando estava em contagem regressiva para voltar aos gramados, foi à mesa de cirurgia pela terceira vez devido a uma insuficiência no enxerto do joelho.

“Considerando tudo o que eu passei, acredito muito que são raras as pessoas que suportariam o que eu suportei”

Já são quase três anos sem disputar uma partida de futebol. Atualmente, Walce vem participando dos treinos com o restante do elenco no CT da Barra Funda, mas não deve entrar em campo oficialmente em 2022. A espera é longa, mas o zagueiro anseia pelo futuro próximo em que, enfim, deverá voltar aos gramados.

Forjado na dor

A carreira de jogador de futebol vai muito além da fama e dinheiro que uma minoria consegue obter. Quem chega até essa prateleira tem que passar por provações, abrir mão de muita coisa e ser, sobretudo, resiliente. Só que, para não desistir de seu sonho, Walce foi obrigado a elevar sua resiliência para um outro nível.

“Diante do meu processo, infelizmente as pessoas, os familiares, o staff do clube, ninguém pode sentir sua dor. Por mais que estejam ali te ajudando, ninguém sente o que você sente. Dentro desse processo, aprendi a ser forte, ser mais resiliente. O Walce de antes da lesão é diferente do Walce de hoje. Se algo me fazia parar, hoje dificilmente vai me fazer parar. A única dor que pode me abalar é a morte da minha mãe. Fora isso, vou atropelar todos os obstáculos”.

As adversidades trouxeram ensinamentos que talvez Walce levaria uma vida para compreender. O zagueiro se habituou com o sucesso cedo. Destaque na base, promoção precoce ao time profissional, convocações para Seleções Brasileiras de base, expectativa de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio. De repente, tudo desmoronou.

“Diante das dores, dos processos, das horas que passei tratando e que pareciam que nunca iam acabar, aprendi que a dor ensina a ser forte, entender que na vida as coisas não são como a gente imagina, como a gente quer. Consegui aprender tudo isso e hoje me tornei um homem com muito mais força interior. Não vai ser qualquer coisa que vai fazer eu parar, eu reclamar. Consigo enxergar a vida de forma mais leve, agradecer por andar, caminhar”.

A fé como instrumento

Boa parte da recuperação de Walce aconteceu durante o auge da pandemia de covid-19. Distante dos profissionais do CT da Barra Funda e de seus companheiros, o zagueiro trabalhou à distância e se apegou à família e à fé para não deixar a peteca cair.

“De coração, eu, Walce, suportei a dor, mas não porque eu sou forte. Eu sempre digo isso para as pessoas. Foi porque acredito que Deus tem um proposito na minha vida. Falo isso com clareza, porque diante de muitos momentos que sofri e tinha que ser forte, eu sempre me frustrava dentro do processo. A dor sempre me vencia. Comecei a tomar rumos diferentes na minha forma de pensar. Comecei a pedir a Deus, comecei a ser mais humilde perante a mim mesmo, entender que sozinho eu não conseguiria”.

Apesar da fé inabalável, Walce admitiu que viveu períodos de desconfiança e medo. Mas, foram nesses momentos que sua crença o manteve firme e focado no objetivo.

“Quando entendi que precisava de uma força maior, que é Deus, obtive sucesso. Se hoje estou aqui falando para você que as coisas voltaram ao normal, estou treinando, me sentindo mais confiante, é claro que às vezes perdemos a confiança durante o processo, mas, se hoje estou sonhando novamente, é porque Deus me deu força e mostrou que, de fato, nós, seres humanos, somos incapazes de sair de uma situação difícil sem a ajuda dele”.

Gazeta Esportiva