Há um ditado no futebol brasileiro que diz “craque se forma em casa”. Entre os maiores clubes brasileiros, o São Paulo pode se gabar de que o ditado é seguido à risca pelos lados do Morumbi. Caso o Tricolor conquiste, dez anos depois, sua segunda Copa Sul-Americana, mais uma vez a campanha ficará marcada pelo uso dos atletas da base. A prova de fogo é contra o Independiente del Valle, do Equador, dia 1° de outubro, em Córdoba, na Argentina.

Não é algo inédito no Tricolor. O clube ficou marcado na história por dois times campeões que foram formados basicamente por revelações. Em 1985, Muller, Sidney e Silas eram o eixo central para abastecer o astro Careca, no esquema montado pelo técnico Cilinho. Ganharam o Paulistão daquele ano. E ainda colaboraram para a conquista de mais um Estadual, em 1987, e do Brasileirão de 1986. 

Menos de dez anos depois, Telê Santana já havia levado o São Paulo à sua glória máxima quando o massacrante calendário do futebol brasileiro fez com que ele delegasse ao então auxiliar Muricy Ramalho a oportunidade de comandar a equipe reserva em competições secundárias. Nascia o ‘Expressinho’, que ganhou uma Copa Conmebol em 1994. No elenco, turbinado pelas promessas das categorias de base, nomes como Pavão, Bordon, Juninho, Fabiano e… Rogério Ceni.

O hoje técnico são-paulino, sempre que perguntado, exalta as suas origens na base do clube. Mais do que um mero discurso de Ceni para aprofundar o sentimento de pertencimento junto ao grupo, ele de fato colocou as crias de Cotia para jogar. Seja por necessidade financeira (o clube deve R$ 700 milhões), seja por necessidades impostas pelo elenco curto (chegou a ter 12 atletas contundidos de uma vez).

O centro de treinamento de Cotia, cidade da Grande São Paulo, é posto à prova mais uma vez e está dando conta do recado, devido às revelações criadas lá. Dos 40 atletas utilizados até agora pelo clube no torneio continental, 20 vieram da base são-paulina. Em médias proporcionais, é uma das maiores do clube em uma competição.

E com uma particularidade. Ceni se tornou neste ano o treinador que mais promoveu jogadores da base na história tricolor. Foram 18 ao todo, 11 apenas nesta sua segunda passagem como técnico

Na Sul-Americana, em específico, as crias de Cotia renderam momentos especiais. Como nos últimos jogos da fase de grupos, quando muitos dos jovens fizeram a sua estreia com a camisa são-paulina.

Mas certamente foi o duelo de volta das oitavas de final contra a Universidad Católica, do Chile, em pleno Morumbi, que marcou muitos deles. Especificamente dois: o meia Rodriguinho não só estreou como jogador profissional na goleada por 4 a 1, em julho, como marcou seu primeiro gol. Feito atingido somente por outros seis atletas na história tricolor. O lateral-direito Moreira também anotou o seu primeiro tento pelo clube.

No ano em que consegue cerca de R$ 140 milhões nos caixas, através do mecanismo de solidariedade da Fifa pela negociação de suas revelações entre clubes europeus, o São Paulo confirma seu tino de clube formador e pode conquistar mais um título internacional, com o empenho de suas crias. A começar pelo treinador.

AS CRIAS DE COTIA NA SUL-AMERICANA

Quem jogou:

Rodrigo Nestor – 8 jogos/2 gols
Igor Gomes – 7 jogos/1 gol
Talles Costa – 7 jogos/1 gol
Pablo Maia – 7 jogos
Diego Costa – 6 jogos
Luan – 5 jogos
Wellington – 5 jogos
Luizão – 5 jogos
Juan – 5 jogos
Jonas Toró – 4 jogos*
Marquinhos – 3 jogos/1 gol*
Moreira – 2 jogos/1 gol
Thiago Couto – 2 jogos
Gabriel Sara – 2 jogos*
Caio Matheus – 1 jogo/1 gol
Rodriguinho – 1 jogo/ 1 gol
Lucas Beraldo – 1 jogo
Léo Silva – 1 jogo
Maioli – 1 jogo
Palmberg – 1 jogo

*Deixaram o clube

Os técnicos que mais lançaram jogadores no elenco profissional:

Rogério Ceni
2022: 11 (Thiago Couto; Moreira, Luizão, Beraldo e Patryck; Léo Silva, Pablo, Palmberg e Rodriguinho; Maioli e Caio)
2017: 7 (Araruna, Brenner, Eder Militão, Foguete, Júnior. Tavares, Léo Natel, Shaylon)
Total: 18

Vicente Feola
1949: 7 (De Camilo, Dino, Fescina, Máximo, Nejo, Próspero e Saltore)
1956: 7 (Dudu, Ferrari, Graciano, Joe, Mairiporã, Roberto Frojuello e Sídney)
Total: 14

Joreca – 1943: 8 (Alfredo, Antoninho, Caramuru, Fernando, Hélio S., Leopoldo, Savério e Yeso)

Telê Santana – 1991: 8 (Andrey, Cláudio Moura, Eraldo, Gilmar, Maurício, Pavão, Sérgio Baresi e Sídnei)

Bella Guttmann – 1957: 7 (Costa, Diamantino, Osvaldo, Salvador, Silva, Waldemar e Zé Cássio)

Cilinho – 1986: 7 (Betinho, Cícero, Lange, Manu, Marcelo, Ronaldão e Wagner Lopes)

Mário Juliato – 1979: 7 (Buca, Fernando, Gonçalo, Itamar, Luiz Carlos, Marquinhos e Nelsinho)

Muricy Ramalho – 2008: 7 (Mazola, Oscar, Pablo, Rafael, Roni, Vítor Junior e Wellington)

Ney Franco – 2013: 7 (Adelino, Allan, Diego, Leonardo, Lucas Evangelista, Régis e Tiago)

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