São Paulo conquistou pela terceira vez a Libertadores da América há quase 15 anos, em 14 de julho de 2005.* Um sonho que a equipe do Morumbi começou a construir dois anos antes, quando conseguiu, enfim, se classificar novamente para a disputa continental após nove edições ausente (de 1995 a 2003).

A vaga para a competição em 2004 veio com o terceiro lugar no Campeonato Brasileiro de 2003 – atrás de Santos, vice, e Cruzeiro, campeão. E se o grupo mudou muito para dali duas temporadas, quem já estava lá e permanceceu foi Milton Cruz.

E em entrevista ao ESPN.com.br, ele, que trabalhou por 22 anos no clube paulista [saiba mais assistindo ao vídeo do topo, em entrevista que Milton Cruz deu à ESPN Brasil em março de 2017, quando era técnico do Náutico], contou bastidores da formação daquele time que derrotou o Athletico-PR na final, montagem que teve sua participação direta.

“Precisávamos mudar a cara do time”

Milton Cruz e Rojas foram treinadores interinos do São Paulo no Brasileiro de 2003.

“O Juvenal Juvêncio [então diretor de futebol] e o Marcelo Portugal Gouvêa [então presidente] disseram que iriam contratar um novo treinador. Eu e Rojas não ficaríamos no cargo.

A gente tinha ganhado aumento e eu queria permanecer no clube. Eu disse que precisávamos mudar a cara do time para a Libertadores. Nosso time não era forte fisicamente e precisávamos de jogadores mais encorpados.

A gente não tinha muito dinheiro e acabou vendendo o Kléber Gladiador para o Dínamo de Kiev. Ele não queria sair, mas nós o convencemos. Esse dinheiro era importante para montarmos o time.

Fomos atrás de jogadores em final de contrato e gastamos pouco. Em 2003, o Goiás tinha feito um segundo turno de Brasileiro muito bom com o Cuca, e eu fiquei de olho nos jogadores deles.

Nós trouxemos Fabão, Grafite e Danilo. O Josué só conseguimos levar depois, porque ele ainda tinha mais um ano de contrato com o Goiás. Veio ainda o Cicinho [que conseguiu a liberação na justiça do Atlético-MG].”

Paulo Bonamigo, Caio Júnior… Cuca

“O Juvenal queria um treinador jovem e sem vícios da profissão. Estávamos em dúvida entre Paulo Bonamigo, Caio Júnior e Cuca. O Carlinhos Neves [preparador físico] era amigo do Cuca e o indicou porque ele já conhecia os jogadores do Goiás que iríamos trazer”, contou Milton Cruz.

Cuca foi o escolhido e levou o São Paulo até às semifinais da Libertadores de 2004, fase em que o time foi eliminado pelo Once Caldas com gol aos 45 minutos do segundo tempo do jogo de volta – vitória por 2 a 1 em Manizales após o 0 a 0 na ida, no Morumbi. O time colombiano foi o campeão ao bater o Boca Juniors na final.

Cuca seguiu, mas acabou demitido em setembro. Emerson Leão assumiu o cargo e classificou o São Paulo para a Libertadores do ano seguinte. Logo após ser campeão do Paulistão de 2005, ele pediu demissão e foi treinar o Vissel Kobe, do Japão.

O time tricolor já havia feito quatro partidas pela fase de grupos da competição continental [duas vitórias e dois empates]. “A diretoria me disse que eu seria o treinador até alguém ser contratado. Nós fomos jogar em Santiago e empatamos com a Universidad de Chile em 1 a 1”, relembrou Milton Cruz, referindo-se à quinta partida pela chave 3.

Ele tem currículo?’

“Quando o Leão saiu, a primeira opção erao Muricy Ramalho, mas ele estava empregado no Internacional. Depois, pensei no Paulo Autuori. Eu o conheci em 2004, quando o São Paulo foi ao Peru jogar contra o Alianza Lima pela Libertadores.

Um dia antes desta partida, fui ver o jogo do Coritiba contra o Sporting Cristal. O Autuori, que era treinador da seleção do Peru, estava lá e fomos apresentados.

Ficamos conversando durante o jogo e depois da partida ele me pagou um jantar. Perguntei se ele não queria voltar ao Brasil e pude conhecer as ideias dele.

Assim que o Leão saiu, eu comentei com o Juvenal sobre o Autuori, que tinha vencido a Libertadores pelo Cruzeiro [em 1997] e o Brasileiro pelo Botafogo [em 1995].

O Juvenal me perguntou: ‘Ele tem currículo?’ Eu disse que tinha. Peguei umas informações do Paulo e coloquei numa folha. De noite, eu coloquei o currículo por baixo da porta do quarto dele [Juvenal] no hotel [risos].

Na sexta-feira seguinte, o Juvenal me chamou no CT e perguntou sobre o Autuori. Respondi que tinha mandado o currículo. O Juvenal tinha deixado o papel dentro da agenda dele [mais risos]. Fui até o carro do Juvenal pegar com o motorista.

À noite, o Juvenal me ligou dizendo que tinha pegado informações do Autuori e que eles iriam conversar. Nisso, o Autuori chegou, vencemos o Strongest [da Bolívia, por 3 a 0, no último duelo da fase de grupos] e nos classificamos para o mata-mata.

Do ABC e da Itália

Em julho de 2004, o São Paulo apresentou o zagueiro Alex Bruno.

“A gente jogava com três zagueiros, e o Alex Bruno fazia essa função bem no Santo André, que também atuava assim. Achamos que ele ia se encaixar bem e o contratamos logo depois que ganhou a Copa do Brasil de 2004 [em cima do Flamengo em pleno o Moracanã].”

Em setembro do mesmo ano, quem chegou foi o lateral-esquerdo Júnior, ex-Palmeiras, pentacampeão mundial com a seleção brasileira em 2002 e que estava no Siena, da Itália.

“Um amigo me contou que o Júnior queria sair da Itália e voltar ao Brasil. Liguei para ele de madrugada pelo horário do Brasil por causa do fuso-horário para começar as conversas”, contou Milton Cruz.

Negócio quietinho

Entre os titulares, Luizão chegou somente em janeiro de 2005 [vindo do Botafogo]. O volante Mineiro também só chegou no começo daquela temporada.

“O Mineiro era destaque no São Caetano e ficaria livre só em 2005. Seis meses antes do final do contrato dele, a gente passou a conversar. Marcamos um encontro na casa da irmã do João Paulo de Jesus Lopes, que mora perto do Morumbi. Foi escondido porque ele morria de medo de que descobrissem [risos].”

Cereja do bolo

“Quando o Grafite machucou, a gente foi atrás de um atacante. O Oscar, ex-zagueiro do São Paulo, me disse que o Amoroso estava em Campinas naquele dia. Liguei e conversamos. Depois, ele se acertou com o Juvenal.

Lembro que, na mesma semana, o pessoal foi até à Espanha e acertou a rescisão dele do Málaga. Ele chegou na segunda e já entrou na quarta contra o River [Plate], pelo primeiro jogo da semifinal da Libertadores. Ele jogou demais e foi fundamental também no título.”

Dos titulares da final, o goleiro Rogério Ceni já estava no clube desde 1990 e o zagueiro Lugano tinha sido contratado em 2002 pelo presidente Marcelo Portugal Gouvêa. Dos demais, todos vieram após o terceiro lugar naquele Brasileiro de 2003.

E o resto é história.

O São Paulo passou pelo rival Palmeiras nas oitavas de final, superou o Tigres-MEX nas quartas, venceu as duas partidas da semifinal contra o River Plate e, após empate na ida, no Beira-Rio [casa do Internacional porque a Arena da Baixada não tinha as condições previstas e exigidas pelo regulamento da Conmebol], goleou o Athetico-PR no Morumbi por 4 a 0 e levantou sua terceira taça da Libertadores.

*Esta reportagem é a terceira de uma série de conteúdos especiais que o ESPN.com.br publicará até 14 de julho sobre a conquista da Libertadores pelo São Paulo em 2005.

ESPN