Dormir até um pouco mais tarde, passear com os cães, jogar videogame, treinar, assistir filme ao lado do pai e fazer um joguinho de baralho. Assim está sendo a rotina no isolamento social do meia rio-pretense Igor Gomes, 21 anos, do São Paulo em sua casa, em Rio Preto. Na base do Tricolor desde 2013, o jogador tornou-se realidade e é sondado pelo Real Madrid, que pode desembolsar cerca de R$ 300 milhões para contratá-lo. Os dias de isolamento o reaproximaram dos pais, irmã e avós, mas a falta da rotina do futebol já traz saudades.

Em entrevista ao Diário da Região o jogador falou sobre o momento de crise na saúde mundial, seus sonhos e recorda os momentos marcantes que vinha vivendo com o São Paulo. Está ciente do desejo europeu pelo seu futebol e já até providenciou sua cidadania portuguesa, não descartando uma saída, mas com desejo de deixar sua marca no São Paulo. Fez gol na Libertadores, foi eleito o melhor da partida contra a LDU, na vitória de 3 a 0, no início de março, além de contribuir para boa fase do time de Fernando Diniz, que liderava o Grupo C do Paulistão com 18 pontos.

Diário da Região – Como está sendo esse período de isolamento em Rio Preto?

Igor Gomes – Está sendo difícil ficar sem futebol, apesar de não perder contato com a bola, estou com um personal trainer e dentro de casa fico jogando bola 24 horas por dia. O que sinto mais faz falta é de competir, jogar valendo, torcida no estádio, adversário, ou o treinamento valendo, muito cobrado, sinto falta dessa rotina. Olhando pelo lado bom, fazia muito tempo que não ficava assim com minha família, com minha mãe, meu pai, minha irmã, avós. Era só nas férias.

Diário – Pra manter a forma, o São Paulo ofereceu um programa de treinos?

Igor – Temos um grupo com o preparador físico, que passa o treinamento da semana. O pessoal que ficou em São Paulo treina no CT em diferentes horários, e nós temos a opção de contratar personal e alinhar ao que o preparador pediu, sem deixar a bola de lado. De vez em quando vou na praça do Vivendas, ou então vou na chácara de um amigo meu, tem área legal e no início da quarentena treinei no CT e no estádio do Mirassol. Só posso agradecê-los, abriram as portas pra mim. Só eu treinando lá, me acolheram, toda vez tinha água, álcool em gel, luvas, cuidaram de mim como se fosse jogador deles.

Diário – Mas o Mirassol pode ser o adversário numa retomada do Paulistão numa quartas de final, chegaram a comentar sobre isso?

Igor – Tenho de ser grato aqui fora de campo (risos). Dentro cada um tem de defender o seu, agradeço mesmo mas se Deus quiser e o Paulistão voltar e a gente se enfrentar, que vença o melhor. Pela primeira vez o pessoal vê o São Paulo jogando de uma forma nova e convincente, não só torcedores mas nós mesmos. Todos querem voltar mas sem ansiedade por tudo isso, pois são vidas, não só fora como dentro de campo, não pode colocar isso à frente dos seres humanos.

Diário – Nas redes sociais você até fez um ‘remake’ do gol do Mineiro no título do Mundial de 2005, quando a TV aberta reprisou, dentro de sua sala de estar. Tem lembranças disso, quebrou muita coisa em casa?

Igor – Minha mãe comentou, a ajudante aqui dentro de casa escondia as bolas, ameaçava furar, falava que eu ia derrubar o portão. As plantas que minha mãe tinha em casa derrubei tantas. Ela até falou que sente saudades daquela época. Era muito novo, não me recordo do jogo, mas assisti diversas vezes não só esse como outros. Sempre gostei de ver jogos antigos, não só do São Paulo, mas da Seleção. Gosto de analisar, essa forma que jogavam me atrai bastante.

Diário – Como foi parar com o São Paulo e você em grande fase, fazendo gol na Libertadores, titular?

Igor – Estava sendo muito bom. Começou o ano com convocação, conseguimos classificar o Brasil para as Olimpíadas, voltei jogando no clássico, jogando bem. Pude voltar a ser titular e as coisas estavam acontecendo. Estávamos jogando de maneira muito boa e esse período não vai atrapalhar em nada.

Diário – Você também foi garoto propaganda no lançamento do uniforme do São Paulo nas redes sociais. Teve de ir a São Paulo?

Igor – Só o Pato esteve no lançamento oficial. Até fui questionado nas redes sociais, mas as fotos foram feitas em fevereiro, antes que algo assombrasse a gente, como a Covid.

Diário – Ainda dá tempo de conquistar um título pelo São Paulo antes de ir para fora?

Igor – Estou bem confiante. Tinha falado aos amigos que enquanto estiver jogando aqui, alguma coisa vou garantir para o torcedor tricolor, nem que seja muita vontade. É um objetivo pra mim.

Diário – Sevilla fez proposta e Real Madrid o monitora. Europa é sonho distante ou realidade próxima?

Igor – Não gosto nem de pensar se é sonho distante ou realidade próxima, mantenho a cabeça no São Paulo. Lógico que não tem como não ouvir os rumores, o pessoal fala, chega ao meu stafe e gosto de ficar sabendo, a gente trabalha às claras. Ciente, mas a cabeça é a mesma, já falei que quero fazer história no São Paulo, me tornar ídolo no meu clube do meu coração. Não sei se vai acontecer amanhã, qual a necessidade do clube e a minha necessidade, não sei o que Deus prepara, mas vou vivendo a cada dia sem ansiedade. E o que for melhor, o clube que Deus preparar, estou preparado e vou aproveitar da melhor maneira.

Diário – Já está aprimorando o espanhol, e quanto à cidadania europeia e o passaporte português?

Igor – Eu já gasto um pouquinho no espanhol, fazer feio acho que não vou (risos). Passaporte faz parte do processo, isso facilita bastante, estava ao nosso alcance e resolvemos agarrar. Estava nos tramites finais, mas devido à Covid tudo parou e não tem data definida de quando vai sair. Acredito que em breve vou estar com o passaporte em mãos.

Diário – Como está sendo conviver com grandes ídolos do São Paulo como Lugano, Raí, e do futebol mundial, como Daniel Alves?

Igor – Pra mim é uma honra, me sinto privilegiado de estar perto dessas pessoas. Daniel Alves, Hernanes, Alexandre Pato, jogadores consagrados com nome feito na Europa e Seleção e são pessoas simples. Isso acaba me convencendo que você não deve mudar, independente do nosso estágio, nossa personalidade e quem nós somos. Não só os caras em campo, mas de fora como o Raí, Lugano, o Pitta na base, conversam muito comigo dando dicas a todo momento.

Diário – Você ajudou o Brasil a garantir vaga em Tóquio, veio o adiamento da Olimpíada. Você espera ser convocado para 2021?

Igor – Passa muito pelo que se apresenta no clube. Sempre é uma honra defender a Seleção, cada oportunidade que ter vou agarrar, dar meu melhor. É o sonho de qualquer garoto representar o Brasil numa Olimpíada ou Copa do Mundo. Se um dia papai do céu honrar tudo que venho fazendo, vou agradecer. Mas se não der nessa, vou seguir, tenho idade para uma próxima.

Diário – E como está sendo a rotina em casa?

Igor – Não acordo muito tarde, no máximo umas 8 horas ou 8h30. De manhã procuro sair com os cachorros, às vezes caminhar com minha mãe e meu pai, jogo videogame, depois almoço e dou uma descansada. No final da tarde treino todos os dias e de noite janto e de vez em quando jogo baralho com meu pai ou fico assistindo filmes até um pouco mais tarde. Assim se diverte no que é possível e vai levando a quarentena.

Diário – É craque no baralho ou perna de pau?

Igor – O baralho tá no sangue da família, é bem cultural na minha família. Jogo tranca com meu pai, mas jogo poker, truco, baralho… é uma coisa que gosto e acho muito legal.

Diário – No videogame já está faltando jogo?

Igor – Não tem bastante jogo aqui, muito futebol no Fifa e Fortnite.

Diário – Recentemente ajudou o pessoal do Movimento pelo Esporte Rio-pretense doando camisa autografada. Este é um momento de união?

Igor – Quem tem um pouco a mais deve ajudar quem está precisando. O Alex [Rocha] meu treinador [em tempos de base] entrou em contato se poderia ajudar e não pensei duas vezes. O esporte em Rio Preto é muito bem visto, a gente sabe que a cidade é uma fábrica de talentos não só no futebol e pude ajudar dessa maneira, nesse momento, fico feliz em ajudar. Também já fiz ajuda ao pessoal do HB no enfrentamento à Covid.

Diário – A gente vive um momento de polarização política, qual é um posicionamento seu como cidadão sobre essa briga em um período delicado de pandemia?

Igor – Prefiro não opinar sobre esse lado político, hoje a gente vive e somos pessoas extremistas. Se apoio um ou outro as pessoas vão me julgar, passar a não gostar de mim por apoiar esse ou aquele. Claro que tenho, como todo adulto deve ter uma posição, mas prefiro guardar pra mim.

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