Roseilson Amaro da Silva, 46, é um dos tantos são-paulinos de sua geração que se acostumou a ver o clube conquistando títulos importantes na década de 1980 e, principalmente, na de 1990, com o time comandado por Telê Santana levantando duas vezes as taças da Libertadores e do Mundial de Clubes.

Mas Roseilson viu todo esse período glorioso do São Paulo apenas pela televisão. Apesar de morador da capital paulista, o motorista nunca havia pisado em um estádio de futebol. Até que, no último mês de abril, foi obrigado a conhecer o Pacaembu.

Estádio do Pacaembu virou hospital de campanha no combate à pandemia da Covid-19
Estádio do Pacaembu virou hospital de campanha no combate à pandemia da Covid-19 – Eduardo Anizelli – 27.mar.2020/Folhapress

Ele fazia a barba no banheiro de sua casa quando passou a sentir muito cansaço e quase desmaiou. Convivendo há alguns dias com tosse e febre, além da falta de apetite, a iminência do desmaio foi a senha definitiva para ir ao hospital. De acordo com o médico que lhe atendeu, Roseilson tinha pneumonia, mas também suspeita de Covid-19.

Depois de duas noites internado em um hospital de Perus, zona norteda cidade de São Paulo, ele foi transferido de ambulância para o estádio do Pacaembu. Lá, no Paulo Machado de Carvalho, recebeu a confirmação de que havia sido infectado com o novo coronavírus.

“Eu estava na Ala S, que era de suspeita. Depois fui para a Ala D, de confirmação. Foi quando eu passei muito mal, minha saturação [de oxigênio] caiu bastante e colocaram um aparelho em mim para abrir o pulmão e me ajudar a respirar. Eu achei que não iria sobreviver. Fiquei com muito medo”, diz Roseilson, que também é diabético, em entrevista à Folha.

O são-paulino conta que foi muito bem atendido no hospital de campanha do Pacaembu, que está em funcionamento desde 1º de abril, com 520 profissionais de saúde trabalhando no local e capacidade para pouco mais de 200 pacientes.

A tenda de 6.300 m² que abriga a unidade hospitalar foi montada em apenas dez dias e toma toda a área do campo. O acesso das ambulâncias se dá pelo gol do Tobogã.

Até a construção do Morumbi, parcialmente inaugurado em 1960, o Paulo Machado de Carvalho era a casa dos grandes jogos do São Paulo. Foi no gramado do estádio municipal, onde atualmente estão instaladas macas e estruturas tubulares, que jogadores como Leônidas da Silva, Antonio Sastre e Zizinho conquistaram títulos paulistas e o carinho eterno dos torcedores tricolores nas décadas de 1940 e 1950.

Hoje, aos 80 anos, o complexo esportivo foi concedido à iniciativa privada.

Após nove dias internado no Pacaembu, Roseilson ganhou alta e foi para casa rever a esposa e os dois filhos, todos corintianos.

“Castigo, né”, brinca o motorista, que diz ter colecionado ao longo da vida uma série de edições da revista Placar com reportagens e pôsteres de alguns dos seus principais ídolos, como Silas, Palhinha e Rogério Ceni. “O Rogério não tem comparação, ele fez história como jogador. Pena que não deu certo como técnico.”

Roseilson afirma, porém, que toda essa coleção de revistas sumiu do dia para a noite. “Deve ter sido a minha esposa. Corintiana…”

Em razão do seu trabalho, ele, que está desempregado há dois anos e vem fazendo bicos para se manter, conta que passou diversas vezes em frente ao Pacaembu e ao Morumbi durante o serviço. Por não gostar de aglomerações –ou “muvuca”, como diz–, sempre evitou ir aos jogos.

Mesmo com essa preocupação, o pai não proibiu os filhos de frequentarem arquibancadas. O mais velho, Diego, 16, já foi a Itaquera ver o Corinthians com um amigo da família. Apesar de corintiano como o irmão, Vinicius, o mais novo, 10, curiosamente foi levado por um vizinho para assistir ao São Paulo no Morumbi.

“O futebol é bom, todo brasileiro gosta. E no Pacaembu, que tem muita história e não é pouca, o que estão fazendo com o hospital hoje é bacana”, diz.

As últimas semanas foram de recuperação para ele, que ainda sente um pouco de cansaço quando faz algum esforço. Seu tio, José Lourenço dos Santos, 67, já não teve a mesma sorte. Diagnosticado com Covid-19, também chegou a ser internado em Perus, mas morreu vítima da doença.

Enquanto se recupera, Roseilson reflete sobre os dias delicados que enfrentou no hospital e a importância de tomar todos os cuidados até que a pandemia esteja controlada.

Quando puder retornar à normalidade, o motorista de 46 anos tem um desejo a cumprir.

“O dia em que eu estiver bem, quando nossa vida voltar ao normal, eu quero ir a um estádio. E no Pacaembu, só que não como um doente. Eu entrei lá péssimo e saí com outra vida”, completa o são-paulino.

Folha de São Paulo

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