O destino me fez setorista do São Paulo pelo LANCE! na mesma época em que Fernando Diniz se tornou técnico do clube. Confesso que não imaginei que isso aconteceria algum dia, mas digo que é uma experiência bastante enriquecedora em diversos aspectos. O principal é o pé atrás que sempre tive com o trabalho dele, o que engloba a aversão que sinto pelos seus fãs incondicionais, os quais chamo de “Dinizetes”. O objetivo aqui é contar como é possível aprender a gostar do “estilo Diniz”, sem se tornar um cego fanático.

Vale outra confissão para explicar o primeiro parágrafo. Muito da desconfiança que (ainda) tenho em relação aos times de Diniz está atrelada ao mundo fantástico que criam em torno dele. A impressão é que em nenhum momento se pode falar mal do desempenho nos jogos, nem perdendo de goleada, ou para uma equipe muito menor. Essa blindagem chega a ser cega, simplesmente para tentar provar que a narrativa desse grupo é a verdadeira, mesmo com a realidade esfregada na cara de cada um após resultados inexplicáveis.

A busca pelo equilíbrio é que deveria ser o foco, ou seja, se ganhou, ele não passa a ser o “Pep Guardiola” brasileiro, e se perdeu ele não será o pior técnico do mundo, mas terá de ser cobrado como qualquer outro treinador que sofra uma derrota. Essa equação é tão simples, porém nossos “especialistas” em futebol ideal não conseguem entender, muito menos passar isso para público que eles querem catequizar. Ninguém pode estar imune a levar críticas, seria um conceito parcial, o que é impossível aceitar no jornalismo.

E eu mesmo precisava retomar alguns conceitos jornalísticos para mudar a minha postura em relação aos trabalhos de Fernando Diniz. A impressão que eu sempre tive foi de um estilo de futebol exótico, que só daria certo em determinados clubes (menores), por ser demasiadamente ousado diante de um calendário apertado e uma cultura moedora de técnicos. Por esse caráter experimental a desconfiança imperou na passagem pelo Athletico-PR e pelo Fluminense. Nunca torci contra o profissional, mas confesso ter torcido contra seus fãs.

Nunca neguei que os conceitos eram interessantes, gostava de ver o Audax jogar, com aquela ciranda de jogadores que pareciam não ter posição e que assombravam os gigantes paulistas, chegando a uma final estadual em que o Santos precisou suar sangue para conquistar. No entanto o pé atrás falou mais alto e eu, sem nunca ter acompanhado de perto um trabalho de Diniz, me enchi de preconceitos, me recusei a tentar entender mais, ou seja, me ceguei diante de uma irritação não pelo treinador, mas pelos seus admiradores. Estava errado.

Desde o fim de setembro de 2019, contudo, o “setorismo” me deu a oportunidade de ver de perto o trabalho, os processos e os métodos de Diniz, além da maneira com que procura se fazer entender, com que conversa com seus atletas no treino, ou faz cobranças. Quando você vê tudo isso, não dá para não reconhecer que há algo de muito diferente ali. Até mesmo foi um alívio saber que ele rechaça absolutamente todo o endeusamento que seus fãs tentam impor na discussão. Ao contrário deles, o comandante são-paulino tem noção do que precisa ser feito.

– Hoje tudo se resume ao tático, à superficialidade do jogo. É linha de quatro, bloco baixo, bloco médio… As pessoas aprendem meia dúzia de termos específicos, que vão mudando conforme as publicações a respeito do futebol vão saindo, e vamos perdendo o coração do futebol. As pessoas são o coração do futebol – disse Diniz ao meu parceiro de núcleo Fellipe Lucena, em entrevista ao LANCE!, no início deste ano.

Não posso dizer que agora confio 100% no sucesso de sua trajetória no São Paulo, pois acredito que os resultados até aqui são insuficientes para formular qualquer conceito, mas é certo que a minha impressão em relação ao trabalho dele como treinador mudou quase que por completo. Temo pela empolgação que cerca o clube no desejo de voltar a conquistar títulos, talvez o maior adversário de Diniz nesse processo seja justamente o local em que trabalha atualmente, aquele que lhe deu mais condições e material humano de aplicar seus métodos.

Obs.1: Ainda acharei babaca qualquer um que citar a frase “silêncio, joga o time de Fernando Diniz”

Obs.2: As opiniões do texto acima pertencem somente ao autor

POR ALEXANDRE GUARIGLIA

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