Se você é São Paulino, você precisa ler este texto e resgatar o que há de mais nobre na história deste clube. E carregar para esta noite, este sentimento, o mais puro e nobre de um verdadeiro Tricolor Paulista. Que hoje seja a virada:

NASCIDO DO INCONFORMISMO

No processo de profissionalização do futebol brasileiro, nasceu o São Paulo FC.  Surgiu após o tradicional Club Athletico Paulistano, contrariado com a irreversível popularização do futebol, encerrar suas atividades na modalidade. A modernidade fez nascer o Tricolor. Anos depois, quase matou o clube.

O “não” do Paulistano ao profissionalismo pôs fim ao mais importante time de futebol (pôs fim ao time, porque o clube existe até hoje) brasileiro até aquele momento, mas também fez surgir – entre sócios, jogadores e torcedores do tradicional clube do Jardim América – um movimento com orientação contrária, que tentava manter viva a tradição futebolística do “Glorioso”.

Esses apaixonados, então, se uniram a dirigentes da Associação Atlética das Palmeiras (clube que enfrentava grave crise financeira) e fundaram, em janeiro de 1930, o São Paulo Futebol Clube – uma novidade no futebol paulista, que estreava ostentando o elenco do Paulistano e estrutura da alvinegra A.A. Palmeiras.

O Tricolor, hoje do Morumbi, nasceu com sede no bairro da Ponte Grande (hoje Ponte das Bandeiras), zona norte da capital, e tendo como estádio a Chácara da Floresta, até então campo da A.A. das Palmeiras.

Na Floresta, viveu dias de muitas vitórias – incluindo o título do Paulista de 1931; dias alegres, porém, sucedidos por sérias dificuldades, quatro anos depois da fundação do clube.

UMA HISTÓRIA COMPLICADA: DIVISÕES E QUASE MORTE DO SPFC

No final de 1934, o aluguel de uma luxuosa sede social, localizada na rua Conselheiro Crispiniano, região central da capital, foi o estopim de um calvário que quase destruiu o São Paulo Futebol Clube.

O contrato do imóvel, apelidado de “Palácio do Trocadero”, rendeu ao clube – de acordo com o livro A História do Futebol no Brasil – 1894-1950, de Thomaz Mazzoni –  uma dívida de 190 contos de réis. Valor alto mas, que, provavelmente, poderia ser quitado sem maiores problemas não fosse a crise administrativa enfrentada pelo clube após a eclosão, meses antes da Copa do Mundo de 1934, de um grave conflito no futebol brasileiro.

O profissionalismo começara a vigorar em 1933 e parecia próximo de se estabelecer (entre os grandes de Rio de Janeiro e São Paulo, só o Botafogo era amador) quando, um ano depois, a disputa voltou à tona.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atualmente CBF), amadora, derrotou a Federação Brasileira de Futebol (FBF), profissional, na briga pelo controle do futebol nacional, criando um imbróglio que dividiu por tabela o futebol de São Paulo.

Apesar de caminhar na direção contrária dos clubes, a CBD tinha o apoio da FIFA e era a única confederação reconhecida pela entidade máxima do futebol. Com a Copa do Mundo batendo às portas, somente “amadores”, portanto, representariam o país no Mundial. Mais que isso, só clubes filiados à CBD poderiam excursionar e realizar amistosos internacionais, fonte importante de renda na época.

Houve grande pressão para que os clubes profissionais liberassem seus atletas convocados para a amadora CBD, o que não foi aceito por muitos dirigentes. Os são-paulinos Armandinho, Luizinho, Waldemar de Brito e Sylvio Hoffmann tiveram que se desligar para disputar a Copa daquele ano, na Itália.

O conflito de bastidores não se resumiu à esfera nacional. Chegou à APEA, a federação estadual, devido à perda de poder da FBF, à qual a APEA era subordinada.

Alinhando-se com a CBD, Palestra Itália e Corinthians se desligaram da APEA (liga profissional) para ingressar na recém-fundada Liga Bandeirante de Futebol (amadora), que logo se transformaria, em 11 de fevereiro de 1935, em Liga Paulista de Futebol (LPF).

O São Paulo, em dificuldades e receoso que o momento de divisão pudesse lhe causar ainda mais problemas, se aliou à LPF.

O ingresso na liga amadora, porém, não só não ajudou o clube a sanear suas finanças, como agravou a crise. Um dia depois de vencer o Corinthians, por 3 a 1, em amistoso no Parque São Jorge, o SPFC sofreu golpe quase fatal nos bastidores.

Em 26 de março de 1935, uma segunda-feira, o jornal Folha da Manhã anunciava, em nota: “Uma grande scisão (sic.) no S. Paulo”. Um dia antes fora fundado, por Tricolores descontentes com a filiação do clube à LPF, o Independente Esporte Clube (descrito no jornal como E.C. Independente), que tinha entre seus dirigentes o próprio Arthur Friedenreich (era secretário do clube), que entrara em campo e marcara um dos 3 gols são-paulinos no dia anterior.

“Entendemos que o mal que vitima o São Paulo provém de seu afastamento da Associação Paulista de Esportes Atléticos”, dizia a nota enviada ao jornal, pelos dissidentes são-paulinos.

Aquela seria a primeira dissidência do SPFC. E aquele seria o último jogo do clube em mais de oito meses. Dividido e endividado, o Tricolor optou por ter seu patrimônio absorvido pelo Clube de Regatas Tietê, no final do mês de abril.

Ainda assim, alguns sócios não aceitaram o modo como o processo se deu e acionaram a justiça, que em 23 de abril impugnou a decisão de fundir os dois clubes, em razão de não terem sido ouvidos os sócios são-paulinos, o que contrariaria os estatutos do clube.

Assim, convocou-se uma assembleia geral para definir o destino do Tricolor. De acordo com o artigo 2° do estatuto do clube, porém, apenas os 205 sócios fundadores puderam participar da tal assembleia, os quais ratificaram a deliberação anterior dos diretores do São Paulo F.C que, em 14 de maio de 1935, deixou, temporariamente, de existir. Parecia morto.

Mas o que tem isso a ver com “o caso de amor da torcida com o clube?”, você pode perguntar. Tudo. Tudo a ver.

Em 14 maio de 1935, o São Paulo saiu temporariamente de cena. Foi temporário, mas poderia ter sido para sempre não fossem seus torcedores.

VIA CRÚCIS PELO SÃO PAULO


O mesmo que acontecera com o Paulistano, entre o final de 1929 e começo de 1930, se deu com o São Paulo a partir de maio de 1935. Não obstante o Tricolor estivesse oficialmente extinto, seus torcedores não se resignaram diante do desaparecimento físico do clube. A são-paulinidade, afinal, era latente. Seguia viva

Logo o fato esteve consumado, as tentativas de revivê-lo começaram a pipocar.  Depois do Independente E.C, surgiu a segunda dissidência: o Clube Atlético Estudantes, fundado também por sócios são-paulinos, em maio de 35.

Bem sucedida no começo, a agremiação, que contava com alguns jogadores do São Paulo, ingressou no Campeonato Paulista da APEA já em 1935, alcançando em seu ano de estreia a terceira posição. Independente e Estudantes eram braços são-paulinos, eram tricolores, mas não eram o Tricolor.

As fundações de Estudantes e Independente, porém, não alteraram as intenções de uma parte grande da torcida que fazia questão de ver o clube renascer de fato, como São Paulo. Assim, foi organizado em 4 de junho, o Clube Atlético São Paulo, a continuação do São Paulo F.C. que, de acordo com Thomaz Mazzoni, logo em sua fundação já contava com 253 associados, número que em alguns dias já passaria dos milhares.

A fundação do Clube Atlético São Paulo foi promovida pelo Grêmio Tricolor, o mesmo que mais tarde viraria uma torcida uniformizada e que naqueles difíceis meses de 1935 serviu como resistência política ao que parecia o fim do clube.

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GENEALOGIA DO SÃO PAULO

A esperança de ver o SPFC renascer e o trabalho do Grêmio Tricolor causou comoção forte nos demais torcedores do clube.

Certa noite, os dirigentes do Clube Atlético São Paulo foram surpreendidos enquanto se reuniam na sede da LPF, na Rua Xavier de Toledo, no centro, por uma legião de são-paulinos, que, inflamados, revelavam o desgosto pelo afastamento do Tricolor dos campos, ao mesmo tempo, porém, que confiavam seus votos de que o São Paulo poderia seguir vivo, por meio de uma refundação.

Assim, às 20 horas de 16 de dezembro de 1935, tendo como presidente Manuel do Carmo Meca e como diretor geral de esportes o tenente Porfírio da Paz, renascia o São Paulo Futebol Clube. Naquele mesmo instante deixavam de existir o Independente Esporte Clube e o Clube Atlético São Paulo. Ou melhor, todos convergiam novamente em SPFC.

Foram oito meses inativos e à beira do desaparecimento. O São Paulo tinha tudo para sumir dissipado em tantas dissidências. Por todo esse período, o são-paulinismo manteve-se em pé graças a seus torcedores. Graças ao Grêmio Tricolor. Por meio de muito esforço e engajamento, mantiveram o clube vivo. Aquele, porém, seria só o começo.

VIVO, MAS POBREO renascido Tricolor, apesar de tradicional e popular, voltou ao mundo, ao contrário do que acontecera nos tempos da Floresta, pobre, sem estádio, nem estrutura. Renascer o São Paulo fora difícil, mas seria, talvez, a parte menos árdua do processo. Não bastava voltar a existir, tinha que voltar a ser forte.

O artigo batizado O novo São Paulo e reconstrução do seu “esquadrão”, publicado no jornal A Gazeta, dias depois do renascimento do Tricolor, traduz as aspirações do clube durante aquele processo de reorganização:

“Não se poderá compreender jamais o São Paulo F.C. se não reaparecer no gramado com uma turma potente, digna do seu nome, do seu passado”, dizia o texto. “Nosso futebol jamais poderá se unificar e reabilitar se não contar novamente com o quadro do São Paulo poderoso como era”.

A convicção de ter ressurgido para ser protagonista, não garantiu à agremiação sucesso em seu recomeço. Somadas à “via-crúcis” de seus seguidores para fazê-lo reviver, vieram todas as dificuldades de montar, sem dinheiro, um time competitivo.

Data: 23 de agosto de 2017Autor: Felipe de Queiroz0 Comentários

“Modinha”, “torcida de final”, de “Libertadores”, “fria”, “distante” …  O são-paulino ao longo dos anos foi classificado – seja por rivais ou simplesmente pelo senso comum – com rótulos negativos, geralmente preconceituosos e com o intuito de diminuir – ou até desqualificar – o sentimento do aficionado pelo clube.

Reza o mantra dos estereótipos: corintianos são fiéis, palmeirenses tem o “sangue quente” italiano – logo seriam mais apaixonados. São-paulinos, por outro lado, seriam, supostamente, esnobes e menos engajados.

Os rivais, por conta de origens mais populares, teriam torcidas mais fortes que a do SPFC, cujos fundadores eram ligados a C.A. Paulistano e A.A das Palmeiras, tradicionais clubes da chamada elite quatrocentona paulista no começo do século 20.

Bem, mas eis que o senso comum nada mais é que isso: uma ideia simples, generalista, de fácil reprodução, pouca profundidade e cheia de imprecisões. E eis que existe muito a se descobrir além das aparências.

Pela falta de profundidade e por trabalharem em função dos interesses de determinado grupo, preconceitos se espalham facilmente. Mas, vez ou outra, caem por terra, como neste Brasileiro de 2017. Numa das temporadas de pior desempenho esportivo da história do São Paulo Futebol Clube, a gente tricolor se coloca como destaque.

Apesar de repetidos erros de planejamento e administração e um desempenho técnico decepcionante na temporada, o SPFC chega a setembro com média de público de 31.120 torcedores (31.380, no Brasileiro), a melhor da história do clube, em 21 partidas disputadas como mandante, justamente em momento de grande dificuldade no torneio nacional e após campanhas frustradas nas outras competições.

A ida de são-paulinos em massa ao Morumbi – tanto no Brasileiro, na tentativa de salvar o clube da segunda divisão, quanto em outras competições (São Paulo teve maior média no Paulista) – é a grande história tricolor da temporada. Uma das principais do esporte nacional em 2017. Um fenômeno raro, que não se explica apenas por conta da situação dramática.

Casos de times grandes envolvidos na briga pela “sobrevivência” se repetem ano a ano. Poucas torcidas, porém, tiveram comportamento parecido com a do Tricolor. Na cidade de São Paulo, nenhuma outra.

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Morumbi lotado, em partida do Brasileiro de 2017: Luis Moura/Wpp/Gazeta Press

No ano do primeiro rebaixamento do Palmeiras, em 2002, 12.110 palestrinos compareceram em média aos jogos do clube. Em 2012, quando caiu pela segunda vez, eram 11.983. Em 2014, quando ficou próximo da queda também, a melhor média do time da Água Branca: 19.755. Em 2007, temporada do rebaixamento do Corinthians para a série B, o time de Parque São Jorge jogava para 18.956 pagantes.

A parceria entre torcida e clube derruba – ou pelo menos relativiza – alguns dos mitos que perseguem os são-paulinos.

Houve também, verdade seja dita, temporadas em que a massa foi menos participativa, como de tempos em tempos ocorre com todos os clubes grandes, sem que esses sejam taxados de “modinha”, “torcida de final”, de “Libertadores” etc.

Fica a impressão de que, aconteça o que acontecer e como acontecer, o senso comum tende a vencer. É grande a chance da torcida que vai ao campo apoiar o time que briga pela sobrevivência voltar, em algum momento, a ser a “que só vai na boa”. E o clube, apesar de tão popular, voltar a ser tratado como “time da elite”.

A TORCIDA UNIFORMIZADA: REVOLUÇÃO NAS ARQUIBANCADAS NOS ANOS 40
Não fazia muito tempo que o estado de São Paulo havia sido derrotado pela União na chamada Revolução Constitucionalista. Getúlio governava o país com mão de ferro, mas a capital paulista, apesar de “inimiga do Governo Federal” vivia um ciclo irretocável de prosperidade.

Era – ou pelo menos era o que se alardeava na época – a cidade que mais crescia no mundo e o futebol paulista, enfraquecido anos antes por uma crise administrativa (a ser abordada futuramente neste texto), surfava na mesma onda.

Em abril de 1940, com a inauguração do Pacaembu, se iniciou uma era de ouro nos campos da cidade, com multidões tomando conta dos jogos como nunca se vira; um ano antes, nasceu a primeira torcida organizada do Brasil, que teria no Estádio Municipal seu palco maior.

Em 1939, jovens torcedores – liderados por Raymundo Paes de Almeida, futuramente um importante dirigente do SPFC – transformaram o Grêmio Tricolor – entidade fundada em 9 de fevereiro de 1935, com o objetivo de integrar grupos de sócios e promover o clube –  em Grêmio Sampaulino, grupo responsável pela festa nas arquibancadas. Uma torcida uniformizada que estabeleceu os alicerces de um novo estilo de se apoiar equipes de futebol, a primeira “organizada”, uma mania que que se espalharia pelo Brasil.

Anos mais tarde, o Grêmio Sampaulino mudaria novamente de nome. Se transformaria em TUSP (Torcida Uniformizada do São Paulo), a mais relevante organizada tricolor até o surgimento da Independente, em 1972.

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Pacaembu lotado na estreia de Leônidas da Silva, em 1942; maior público da história do estádio (Foto: Esporte Ilustrado)

POPULAR… MUITO ANTES DE TELÊ
O São Paulo, diz também o senso comum, se tornou time de massa a partir dos anos 90, com as conquistas numerosas da era Telê Santana. Registros em jornais e relatos antigos, porém, mostram que, já nos primeiros anos, o clube arrastava multidões pela capital paulista. Eram muitas e impressionantes as festas – geralmente promovidas pelo Grêmio Sampaulino – naqueles anos, dentro e fora dos Estádios.

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Torcedores recepcionam e carregam nas costas Leônidas da Silva, em 1942; multidão era de 10 mil pessoas

A mais lembrada até hoje: a recepção a Leônidas. Sobre os ombros de torcedores (foram mais de 10 mil a recepcioná-lo), o jogador mais famoso do Brasil na época foi carregado pela massa da Estação do Norte, no bairro do Brás, até a rua Dom José de Barros, região do Largo do Paissandu, centro de São Paulo. Um percurso de 3.8 km, que, de acordo com o google maps (voltemos a 2017), se percorre em 45 minutos a pé.

Desfiles com carros alegóricos pelo centro de São Paulo, mosaicos (sim, mosaicos já nos anos 40), bandeiras e passeatas faziam parte do pacote.

Em 1943, em comemoração ao título do Campeonato Paulista, aficionados pararam a cidade, e, iluminados por castiçais e acompanhados por carros alegóricos, marcharam pelas ruas do centro velho. Em 1946, na conquista da Taça dos Invictos (troféu oferecido pela Gazeta Esportiva ao clube dono da maior invencibilidade no campeonato paulista), repetiram a dose.

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Torcedores celebram vitória do São Paulo, no Campeonato Paulista de 1943 (Foto: Reprodução/Gazeta Esportiva)

A história da torcida uniformizada tricolor em seus primórdios merece uma reportagem à parte. Foi gigante, sim, mas não foi dela a maior prova de amor de são-paulinos a seu clube. Esta aconteceu antes e nunca foi superada.

Um período complexo e também confuso que, quando compreendido, redefine padrões e dogmas aos quais o SPFC tem sido associado. É a história do Clube da Fé – popular e pobre -, não do Soberano.

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Pacaembu lotado na decisão do Paulista de 1943, entre São Paulo e Palmeiras; à direita, mosaico da torcida tricolor

NASCIDO DO INCONFORMISMONo processo de profissionalização do futebol brasileiro, nasceu o São Paulo FC.  Surgiu após o tradicional Club Athletico Paulistano, contrariado com a irreversível popularização do futebol, encerrar suas atividades na modalidade. A modernidade fez nascer o Tricolor. Anos depois, quase matou o clube.

O “não” do Paulistano ao profissionalismo pôs fim ao mais importante time de futebol (pôs fim ao time, porque o clube existe até hoje) brasileiro até aquele momento, mas também fez surgir – entre sócios, jogadores e torcedores do tradicional clube do Jardim América – um movimento com orientação contrária, que tentava manter viva a tradição futebolística do “Glorioso”.

Esses apaixonados, então, se uniram a dirigentes da Associação Atlética das Palmeiras (clube que enfrentava grave crise financeira) e fundaram, em janeiro de 1930, o São Paulo Futebol Clube – uma novidade no futebol paulista, que estreava ostentando o elenco do Paulistano e estrutura da alvinegra A.A. Palmeiras.

O Tricolor, hoje do Morumbi, nasceu com sede no bairro da Ponte Grande (hoje Ponte das Bandeiras), zona norte da capital, e tendo como estádio a Chácara da Floresta, até então campo da A.A. das Palmeiras.

Na Floresta, viveu dias de muitas vitórias – incluindo o título do Paulista de 1931; dias alegres, porém, sucedidos por sérias dificuldades, quatro anos depois da fundação do clube.

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“A Fiel torcida do mais querido”, segundo palavras da Gazeta Esportiva, homenageia ídolos futebolísticos do passado

UMA HISTÓRIA COMPLICADA: DIVISÕES E QUASE MORTENo final de 1934, o aluguel de uma luxuosa sede social, localizada na rua Conselheiro Crispiniano, região central da capital, foi o estopim de um calvário que quase destruiu o São Paulo Futebol Clube.

O contrato do imóvel, apelidado de “Palácio do Trocadero”, rendeu ao clube – de acordo com o livro A História do Futebol no Brasil – 1894-1950, de Thomaz Mazzoni –  uma dívida de 190 contos de réis. Valor alto mas, que, provavelmente, poderia ser quitado sem maiores problemas não fosse a crise administrativa enfrentada pelo clube após a eclosão, meses antes da Copa do Mundo de 1934, de um grave conflito no futebol brasileiro.

O profissionalismo começara a vigorar em 1933 e parecia próximo de se estabelecer (entre os grandes de Rio de Janeiro e São Paulo, só o Botafogo era amador) quando, um ano depois, a disputa voltou à tona.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atualmente CBF), amadora, derrotou a Federação Brasileira de Futebol (FBF), profissional, na briga pelo controle do futebol nacional, criando um imbróglio que dividiu por tabela o futebol de São Paulo.

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Registro de Friedenraich em ação pelo SPFC (Foto: autor desconhecido)

Apesar de caminhar na direção contrária dos clubes, a CBD tinha o apoio da FIFA e era a única confederação reconhecida pela entidade máxima do futebol. Com a Copa do Mundo batendo às portas, somente “amadores”, portanto, representariam o país no Mundial. Mais que isso, só clubes filiados à CBD poderiam excursionar e realizar amistosos internacionais, fonte importante de renda na época.

Houve grande pressão para que os clubes profissionais liberassem seus atletas convocados para a amadora CBD, o que não foi aceito por muitos dirigentes. Os são-paulinos Armandinho, Luizinho, Waldemar de Brito e Sylvio Hoffmann tiveram que se desligar para disputar a Copa daquele ano, na Itália.

O conflito de bastidores não se resumiu à esfera nacional. Chegou à APEA, a federação estadual, devido à perda de poder da FBF, à qual a APEA era subordinada.

Alinhando-se com a CBD, Palestra Itália e Corinthians se desligaram da APEA (liga profissional) para ingressar na recém-fundada Liga Bandeirante de Futebol (amadora), que logo se transformaria, em 11 de fevereiro de 1935, em Liga Paulista de Futebol (LPF).

O São Paulo, em dificuldades e receoso que o momento de divisão pudesse lhe causar ainda mais problemas, se aliou à LPF.

O ingresso na liga amadora, porém, não só não ajudou o clube a sanear suas finanças, como agravou a crise. Um dia depois de vencer o Corinthians, por 3 a 1, em amistoso no Parque São Jorge, o SPFC sofreu golpe quase fatal nos bastidores.

Em 26 de março de 1935, uma segunda-feira, o jornal Folha da Manhã anunciava, em nota: “Uma grande scisão (sic.) no S. Paulo”. Um dia antes fora fundado, por Tricolores descontentes com a filiação do clube à LPF, o Independente Esporte Clube (descrito no jornal como E.C. Independente), que tinha entre seus dirigentes o próprio Arthur Friedenreich (era secretário do clube), que entrara em campo e marcara um dos 3 gols são-paulinos no dia anterior.

“Entendemos que o mal que vitima o São Paulo provém de seu afastamento da Associação Paulista de Esportes Atléticos”, dizia a nota enviada ao jornal, pelos dissidentes são-paulinos.

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Aquela seria a primeira dissidência do SPFC. E aquele seria o último jogo do clube em mais de oito meses. Dividido e endividado, o Tricolor optou por ter seu patrimônio absorvido pelo Clube de Regatas Tietê, no final do mês de abril.

Ainda assim, alguns sócios não aceitaram o modo como o processo se deu e acionaram a justiça, que em 23 de abril impugnou a decisão de fundir os dois clubes, em razão de não terem sido ouvidos os sócios são-paulinos, o que contrariaria os estatutos do clube.

Assim, convocou-se uma assembleia geral para definir o destino do Tricolor. De acordo com o artigo 2° do estatuto do clube, porém, apenas os 205 sócios fundadores puderam participar da tal assembleia, os quais ratificaram a deliberação anterior dos diretores do São Paulo F.C que, em 14 de maio de 1935, deixou, temporariamente, de existir. Parecia morto.

Mas o que tem isso a ver com “o caso de amor da torcida com o clube?”, você pode perguntar. Tudo. Tudo a ver.

Em 14 maio de 1935, o São Paulo saiu temporariamente de cena. Foi temporário, mas poderia ter sido para sempre não fossem seus torcedores.

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O mesmo que acontecera com o Paulistano, entre o final de 1929 e começo de 1930, se deu com o São Paulo a partir de maio de 1935. Não obstante o Tricolor estivesse oficialmente extinto, seus torcedores não se resignaram diante do desaparecimento físico do clube. A são-paulinidade, afinal, era latente. Seguia viva

Logo o fato esteve consumado, as tentativas de revivê-lo começaram a pipocar.  Depois do Independente E.C, surgiu a segunda dissidência: o Clube Atlético Estudantes, fundado também por sócios são-paulinos, em maio de 35.

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Reunião de refundação do São Paulo F.C., em 16 de dezembro de 1935 (Foto: SPFC)

Bem sucedida no começo, a agremiação, que contava com alguns jogadores do São Paulo, ingressou no Campeonato Paulista da APEA já em 1935, alcançando em seu ano de estreia a terceira posição. Independente e Estudantes eram braços são-paulinos, eram tricolores, mas não eram o Tricolor.

As fundações de Estudantes e Independente, porém, não alteraram as intenções de uma parte grande da torcida que fazia questão de ver o clube renascer de fato, como São Paulo. Assim, foi organizado em 4 de junho, o Clube Atlético São Paulo, a continuação do São Paulo F.C. que, de acordo com Thomaz Mazzoni, logo em sua fundação já contava com 253 associados, número que em alguns dias já passaria dos milhares.

A fundação do Clube Atlético São Paulo foi promovida pelo Grêmio Tricolor, o mesmo que mais tarde viraria uma torcida uniformizada e que naqueles difíceis meses de 1935 serviu como resistência política ao que parecia o fim do clube.

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A genealogia do São Paulo F.C. (Foto: Reprodução/site oficial)

A esperança de ver o SPFC renascer e o trabalho do Grêmio Tricolor causou comoção forte nos demais torcedores do clube.

Certa noite, os dirigentes do Clube Atlético São Paulo foram surpreendidos enquanto se reuniam na sede da LPF, na Rua Xavier de Toledo, no centro, por uma legião de são-paulinos, que, inflamados, revelavam o desgosto pelo afastamento do Tricolor dos campos, ao mesmo tempo, porém, que confiavam seus votos de que o São Paulo poderia seguir vivo, por meio de uma refundação.

Assim, às 20 horas de 16 de dezembro de 1935, tendo como presidente Manuel do Carmo Meca e como diretor geral de esportes o tenente Porfírio da Paz, renascia o São Paulo Futebol Clube. Naquele mesmo instante deixavam de existir o Independente Esporte Clube e o Clube Atlético São Paulo. Ou melhor, todos convergiam novamente em SPFC.

Foram oito meses inativos e à beira do desaparecimento. O São Paulo tinha tudo para sumir dissipado em tantas dissidências. Por todo esse período, o são-paulinismo manteve-se em pé graças a seus torcedores. Graças ao Grêmio Tricolor. Por meio de muito esforço e engajamento, mantiveram o clube vivo. Aquele, porém, seria só o começo.

VIVO, MAS POBRE

O renascido Tricolor, apesar de tradicional e popular, voltou ao mundo, ao contrário do que acontecera nos tempos da Floresta, pobre, sem estádio, nem estrutura. Renascer o São Paulo fora difícil, mas seria, talvez, a parte menos árdua do processo. Não bastava voltar a existir, tinha que voltar a ser forte.

O artigo batizado O novo São Paulo e reconstrução do seu “esquadrão”, publicado no jornal A Gazeta, dias depois do renascimento do Tricolor, traduz as aspirações do clube durante aquele processo de reorganização:

“Não se poderá compreender jamais o São Paulo F.C. se não reaparecer no gramado com uma turma potente, digna do seu nome, do seu passado”, dizia o texto. “Nosso futebol jamais poderá se unificar e reabilitar se não contar novamente com o quadro do São Paulo poderoso como era”.

A convicção de ter ressurgido para ser protagonista, não garantiu à agremiação sucesso em seu recomeço. Somadas à “via-crúcis” de seus seguidores para fazê-lo reviver, vieram todas as dificuldades de montar, sem dinheiro, um time competitivo.

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“São Paulo, o Time da Fé”: Charge de A Gazeta Esportiva, em 1943 (Foto: Reprodução)

Se, dois anos antes, o São Paulo Futebol Clube ostentava o maior e mais importante estádio da cidade, a Chácara da Floresta, e um palacete como sede social, em 1936, o clube não tinha patrimônio.

Sem estádio, o São Paulo foi itinerante naqueles dias. Começou o Campeonato Paulista daquele ano jogando no Parque Antártica, hoje Aliianz Parque; depois, ainda em 1936, passou mandar suas partidas no campo da Companhia Antártica, hoje extinto estádio Antônio Alonzo, na Rua da Mooca.

Sem um palacete ou qualquer coisa que se assemelhasse levemente a uma sede social de um “clube de respeito”, o SPFC fez sua moradia num porão na praça Carlos Gomes, número 38, alugado, com dinheiro de vaquinha entre os sócios do clube.

O esquadrão de aço, de Friedenreich, Luizinho e Waldemar também era passado. O time foi feito às pressas e de maneira precária, a base de uma peneira mambembe, feita basicamente nos campos de várzea de São Paulo.

O Tricolor terminou o campeonato estadual, somados os dois turnos da competição, com a quarta pior pontuação entre os onze participantes. Thomas Mazzoni escreveu sobre o assunto naquela que seria uma de suas mais célebres colunas.

No texto, publicado 21 de julho de 1937, o cronista pela primeira vez se refere ao São Paulo como Clube da Fé, cunhando o apelido que até hoje acompanha o clube vermelho, preto e branco.

 “Se o novo São Paulo veio ao mundo da bola sem os haveres, fama e prestígio dos seus antepassados, trouxe a maior das riquezas: a fé no seu destino, o amor ao seu hoje. Somente a fé poderia levar o Tricolor a nascer como um clube varziano qualquer e tornar-se logo uma organização no caminho reto do progresso do futebol superior. O clube da fé, como merece chamado o atual São Paulo F.C., está se encarregando de”.

Pouco a pouco, a base de paciência e esperança o São Paulo, pelas mãos de seus aficionados, cumpriu o objetivo de voltar a ser forte. Em 1937, deixou o porão na Praça Carlos Gomes e se mudou para uma sede menos humilde, rua São Bento.

No mesmo ano, o clube incorporou o Estudantes Paulista que, por sua vez era fruto da União de dois outros clubes: o CA Paulista e Clube e o Clube Atlético Estudantes, este o segundo dissidente são-paulino. Finalmente, passados dois anos, o SPFC estava unido completamente. E fortalecido, finalmente.

Pela força de seus apaixonados, em 2017, o São Paulo tenta encontrar dias melhores, apesar da incompetência de seus dirigentes. Assim como aconteceu, de 1934 a 1937, os três anos mais difíceis da história do clube.

Mais de 80 anos separam histórias diferentes, mas com semelhanças. A principal delas: o clube não deixou de viver da Fé.

Frederico Antonio Germano Menzen foi um dos homens que dedicaram a juventude para fazer do SPFC um clube à altura dos maiores do Brasil. Foi o presidente nos anos em 1936 a 1937.

Quase 60 anos depois de deixar a presidência, já com mais de 90 anos e próximo do fim da vida, Menzen deu, no estádio do Morumbi, uma de suas últimas declarações públicas. Lembrou, emocionado, sua história no clube.

As palavras, registradas na ata do conselho deliberativo, em 20 de março de 1996, resumem a importância de Menzen e de todos os são-paulinos – sejam dirigentes ou torcedores – para o clube.

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“Hoje, chego ao Morumbi, subo até as tribunas, olho lá de cima aquela imensidão totalmente vazia e digo para mim em voz alta, quase com vontade de gritar, valeu a pena. E de vez em quando choro”.

O São Paulo sempre foi sua torcida. Seja em 1930, 1935 ou hoje.

Independentemente do que façam seus dirigentes.

Nós somos o São Paulo Futebol Clube!

Nós somos o Clube da Fé!

Texto Original: Felipe de Queiroz

Texto Adaptado: Alexandre Zanquetta