Telê Santana, técnico do São Paulo FC, durante treino no Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi), na Zona Sul da capital paulista.

A chegada de Fernando Diniz ao São Paulo (obra do acaso, importante ressaltar), no momento em que vemos o Flamengo de Jorge Jesus e Santos de Sampaoli, deveria gerar um debate nas principais mesas redondas dos vários programas esportivos do Brasil.

Temos a renovação da imprensa esportiva do Brasil, onde a exceção vira regra, o medo de perder é mais justificável que a ousadia de ganhar.

Éramos o país do futebol! 

Mas, nossos dirigentes e principalmente a nossa imprensa (a maioria, e quem se sentiu ofendido, vestiu a carapuça), não acompanharam a evolução do futebol mundial.

O Brasil, seus dirigentes e a imprensa esportiva precisam se abrir para o mundo.  Precisam deixar a soberba de lado, e olhar o que está acontecendo no mundo do futebol.

A ida de Iniesta e Fernando Torres para jogar no Japão, é algo natural, pois é uma movimentação histórica, e quando nós éramos o país do futebol, ia Cerezo, Careca, Muller, Leonardo.

A vinda de Juanfran e Pablo Marin, já é um novo movimento, talvez o início da abertura.

Mas, é importante ver o movimento contrário.  O que os grandes clubes espanhóis, que normalmente atraem os melhores do mundo, estão agregando ao seu plantel.

Barcelona perde Iniesta, veterano, mas, traz o jovem Artur, e do Japão vai buscar Hiroki Abe, 20 anos.  Sim, um japonês no elenco milionário da Catalunha.

Em Madrid, vemos o Atlético perdendo os veteranos Fernando Torres e Juanfran.  E no movimento contrário, vem os sub-20 João Felix, Lodi, se juntando aos jovens Gimenez, Lemar e Correa.

Já os galácticos do Real Madrid, foram buscar o Japones Takefusa Kubo, e os jovens brasileiros Vinicius Jr., Rodrygo e Militão.

A Europa está vindo com times cada vez mais jovens, espelhado na França campeão da Copa 2018 com uma média de idade baixa.

A Copa do Mundo dita a tendência do mundo do futebol para os próximos 4 anos.

Se isso é verdade, um país fechado, prefere focar os holofotes para o VAR, muito bem implantado na Copa, sem muita polêmica.

Mas, temos que olhar para o Futebol Brasileiro e principalmente para a Seleção Brasileira.

Abaixo, tenho pedaço de um trecho de um estudo sobre futebol, seria isso atual ou de 25 anos atrás?

“A Seleção brasileira de futebol mostrava um estilo de jogo voltado ao Futebol-força, em que se privilegiava a marcação e o vigor físico dos atletas, sem que a criatividade do jogador fosse observada.

O time nacional procurava manter o resultado a qualquer custo, com faltas e pouca ofensividade, negando ao público a condição de assistir um espetáculo de futebol, representado principalmente por gols e jogadas individuais e coletivas.”

Esse é um trecho de uma brilhante dissertação de 1998, feita por LUCIANO VICTOR BARROS MALULY (FIAM/SP), intitulada de “O futebol-arte de Telê Santana no jornalismo esportivo de Armando Nogueira” para que todos entendam, a importância de Fernando Diniz, dar certo no São Paulo, que a torcida tenha paciência com ele,  pois ele será o agente de mudança nesse momento.

Futebol é cíclico, e é preciso de ousadia, para voltar ao ciclo virtuoso, como no começo da década de 90.

 Perceba as semelhanças com o que nos deparamos há 25 anos atrás:

“Durante o ano de 1993, Armando Nogueira deparou-se com dois acontecimentos que iriam marcar o cenário esportivo no Brasil – a participação do selecionado nacional na disputa das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos da América, e a conquista do Bicampeonato Mundial Interclubes pela equipe do São Paulo Futebol Clube, em Tóquio.

A Seleção brasileira de futebol mostrava um estilo de jogo voltado ao Futebol-força, em que se privilegiava a marcação e o vigor físico dos atletas, sem que a criatividade do jogador fosse observada.

O time nacional procurava manter o resultado a qualquer custo, com faltas e pouca ofensividade, negando ao público a condição de assistir um espetáculo de futebol, representado principalmente por gols e jogadas individuais e coletivas.

O São Paulo Futebol Clube apresentava um estilo relacionado ao Futebol-arte, em que o time buscava realçar o espetáculo a todo instante, explorando a técnica do jogador e do conjunto, mostrando um jogo cheio de gols e com poucas faltas.

Armando Nogueira analisou os fatos realçando um tema eixo baseado na relação entre o Futebol-arte e o Futebol-força no Brasil, ou seja, através da exaltação do jogo como espetáculo, pois se a equipe do São Paulo praticava o Futebol-arte (espetáculo) por que a seleção brasileira praticava o Futebol-força (resultado)?:

1º) O time do São Paulo respeitava a tradição brasileira do Futebol-arte, ao contrário da seleção brasileira;

2º) A estrutura do São Paulo Futebol Clube permitiu implantar junto à equipe um estilo voltado ao Futebol-arte, valorizando assim o espetáculo. Já a falta de planejamento dos dirigentes e da comissão técnica proporcionou um desequilíbrio na seleção nacional. A pressão para a obtenção do resultado ocasionou a implantação do Futebol-força;

3º) A equipe do São Paulo explorava a técnica do jogador e combatia o jogo violento, ao passo que a seleção brasileira praticava o antijogo pela necessidade do resultado.

Neste contexto, o trabalho de Armando Nogueira se formulou através de algumas premissas básicas que auxiliam na compreensão do tema eixo Futebol-arte/Futebol-força (Ver Ronaldo Helal. Passes e Impasses: Futebol e Cultura de Massa no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1997.):

1.      a) O futebol brasileiro é fundamentado pela doutrina do Futebol-arte, tendo o jogo como espetáculo, conduzido pela individualidade e habilidade de seus jogadores, e não pelo Futebol-força, jogo baseado apenas no resultado final da partida, sendo que o atleta talentoso cede lugar ao outro que dispõe somente de vigor físico e tem maior potencial para segurar o placar. No Brasil, o Futebol-força tem sido confundido com um futebol que prima pela violência, por causa da crescente tendência pela busca de resultados.

2.      b) A cobrança pelo resultado auxilia o Futebol-força e descaracteriza o Futebol-arte. O Futebol-força adquiriu espaço no país pela crescente valorização da busca de resultados, influenciada pelos altos investimentos de empresas patrocinadoras e mesmo de empresários, além de dirigentes interessados muito mais no mercado de jogadores que na valorização do futebol como espetáculo popular e de massa. Numa seleção ou clube, o resultado é conseqüência de um trabalho planejado e profissional. A organização do jogo como espetáculo permite aos jogadores e comissão técnica a plena liberdade para exercerem suas profissões.”

Fato é que em 2019, temos o futebol força consolidado no Brasil, tanto em times quanto na seleção!

A “gauchanização” (Felipão, Dunga, Mano, Tite) + “Pragamatismo carioca” (Lazaroni, Parreira e Zagallo), transformaram a cultura do futebol brasileiro.

O Brasil, do talento nato de atacantes como Careca, Romário, Muller, Bebeto, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Adriano Imperador, foi se transformando no Brasil de Aldair, Marcio Santos, Juan, Lucio, Edmilson, Roberto Carlos, Cafú, Marcelo, Dani Alves, Thiago Silva e Miranda.

Ou seja, com a preocupação maior de se defender, o famoso:  “Se não tomarmos gol, os atacantes decidem” de 94 e 2002, não é mais possível pela carência de talentos.

Chegamos no auge do absurdo, quando vemos o técnico Carille, respeitado pela imprensa dar a seguinte declaração perguntando porque optou por Gustavo ao invés de Boselli:  “O Gustavo é melhor na bola aérea DEFENSIVA”

O mais absurdo não é essa declaração honesta e sincera!  É a imprensa deixar isso passar.

Agora quando vem Juan Carlos Osorio aqui, jogando com Lucão e Edson Silva, e toma mais de 1 gol em uma partida, ele é PARDAL!

Estão percebendo onde o futebol brasileiro caminha?

As novas gerações que se encantam com o Ajax, e a “releitura” do Carrossel Holandês.  O Barcelona é a releitura do São Paulo de Tele, misturado com o Carrossel holandês, até pela cultura que eles criaram lá, com Cruyff, Koeman, Cocu, Kluivert, De Boer, Overmars, Davids, e agora o De Jong dessa “Releitura” atual.

Essa nova geração não sabe que Guardiola (City) e Pochettino (Spurs), um derrotado na final do mundial de 92 e outro na Libertadores para o São Paulo de Tele Santana, jogam mais parecido com aquele time bi-campeão do mundo, do que o próprio São Paulo!

Guardiola começa todos os seus treinos com uma roda de bobinho para calibrar o passe e controlar a ansiedade!  Quem joga bobinho, sabe que esse é o nome, pois é a roda quem engana quem está no meio e não o contrário.  Ou seja, quem espera a ação, são os que estão na roda e não os que estão dentro.

E sabe de onde ele tirou isso?  Em um desses torneios na Espanha, em que goleamos o Barcelona por 4×0, durante o intervalo, Guardiola ficou observando a brincadeira dos reservas.  E ficou impressionado com o controle da ansiedade, e como era difícil errarem um passe.

Foi preciso que dois estrangeiros conseguissem dar certo logo de cara, com futebol ofensivo, para que começássemos a abrir a cabeça. 

Nunca as estatísticas ajudaram tanto, para que todos os brasileiros comecem a olhar o futebol de outra forma.

O Flamengo com o melhor ataque, tem 51 gols, o Gremio tem 39 gols, o Santos que ano passado tinha Rodrygo, Gabigol e B. Henrique tem 36 gols, Athletico Paranaense 35 gols.

A exceção a essa regra é o Palmeiras com 39 gols.  Isso mostra como isso virou regra, pois já tem sua exceção.  Mas, diferente da imprensa esportiva de hoje, vamos nos basear na regra e não na exceção.

Existia a teoria do tricampeonato brasileiro do São Paulo, que time que toma menos gol, ganha ponto corrido!  E isso é verdade desde que você tenha uma média de gols marcados superior a 2 gols!  Assim mesmo que o time tome um gol, e isso mesmo treinando, motivando o jogador, vai acontecer pois são seres humanos, você vence a partida.  E Ninguém se lembrará da falha.

São Paulo e Corinthians tem as melhores defesa do campeonato, com 16 e 15 gols sofridos.  Mas, fizeram 25 e 27 gols!  Sabe o que isso quer dizer com números?  Que são os times que mais empatam:  10 vezes cada, em 24 rodadas!

Qual o sentido do futebol assim?  De marcar pouco, sofrer pouco gol, e empatar muito?

Que reflexão temos que fazer?

E para finalizar, sei que os adeptos a antítese e encontrar exceção na regra, irão dizer:  Mas, Diniz empatou duas em zero a zero.

Nenhum técnico do mundo, em 3 semanas, com um ataque que o que tem mais tempo de casa é Pablo que fez pré-temporada na Florida.

Antony no começo do ano, jogava a Copinha. – Seleção agora

Toró estava na seleção sub-20 – Machucado agora

Pato chegou depois do Paulista. – Machucado contra Flamengo

Raniel idem – Não pode jogar em Salvador.

Everton machucado, Rojas não volta desde o ano passado!

E o meio campo que cria as jogadas?

Igor Gomes, Luan, estavam na seleção sub-20 começo do ano.

Tche Tche, Vitor Bueno conseguiram pegar a parada da Copa.

Dani Alves esta disputando a Copa América, e agora está na seleção.

Futebol virou ciência, probabilidade, não é mais “Feijão com Arroz”, “Fechar a Casinha”, “Malandragem”.  Isso só existe na imprensa e nos dirigentes do futebol brasileiro, que ainda tem a soberba de achar que só nós entendemos de futebol.

Diniz não pode ser culpado por essa remontagem de elenco pós queda Libertadores, com um time jogando para não tomar gols, e tendo que mudar isso para sobrevivência do São Paulo entre os grandes do país, sendo protagonista, ficando com a bola e correndo sim risco de contra-ataque!

O jogador com mais tempo de casa, Hudson, foi campeão justamente quando foi emprestado ao Cruzeiro.

Podemos ter uma média de 1,5 gols sofridos, se tivermos uma média de 2,2 feitos, que venceremos mais.

Agora jogar para fazer um gol e não tomar, é muito mais “OUSADO”!  Pois clubes pequenos, todos sabem JOGAM POR UMA BOLA!!!

Ernani Takahashi

Twitter: @airnani