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A suada vitória contra o Ceará foi agridoce para o São Paulo, que perdeu Éverton, seu melhor jogador, por lesão. De lá para cá, apenas uma vitória e desempenhos ruins que culminaram com a perda da liderança neste domingo, no empate para o Bota. Seria coincidência ou o São Paulo depende de Éverton?

A pergunta martela a cabeça dos tricolores e não é uma simples coincidência: existe sim um decréscimo em qualidade que não encontra substituto no elenco. Mas não é só isso. A queda de desempenho do time também revela algumas lacunas no modelo de jogo que Diego Aguirre pensa ao time e que usavam muito da característica de intensidade que Everton tem.

São Paulo no returno

Paraná 1 a 1 São Paulo Empate
São Paulo 1 a 0 Ceará (lesão de Everton) Vitória
São Paulo 1 a 1 Fluminense Empate
Atlético-MG 1 a 0 São Paulo Derrota
São Paulo 1 a 0 Bahia Vitória
Santos 0 a 0 São Paulo Empate
São Paulo 1 a 1 América-MG Empate
Botafogo 2 a 2 São Paulo Empate

O São Paulo chegou à liderança com um futebol baseado em transições e jogadas de área. O que isso significa? Que o time atacava com mais qualidade ao primeiro se defender e esperar o adversário. Tinha uma postura muito intensa ao se defender, com encaixes mais longos e próximos do rival. Quando recuperava a bola, o ataque era direto: triangulação pelos lados e cruzamentos procurando a entrada de jogadores para finalizar. Sem muita troca de passe: combina com o lateral e joga para a área! Esse modelo potencializou Everton, Rojas e Diego Souza, que tinham várias oportunidades de finalizar a gol, além de Nenê, que pôde jogar como um verdadeiro articulador. Esse gol contra o Botafogo no primeiro turno mostra bem esse ataque direto com inversão de lado.

Everton sempre foi um jogador de velocidade, não de um jogo mais posicional. Fisicamente não é tão forte para receber a bola com o adversário já colocado para marcá-lo. Ele se dá bem quando corre, passa e acelera. Ocupa bem os espaços na área e sabe dar passes e cruzamentos quando está correndo. Essas características individuais casam muito com a inversão de lado que Diego Aguirre coloca como principal ideia de ataque e também com o contra-ataque: Everton começou a fazer muitos gols nas rápidas transições que Diego Souza e Nenê puxava, como seu gol contra o Botafogo, no primeiro turno:

O papel do modelo de jogo é identificar as características do jogador e casá-las com o time. É uma relação de interdependência: o jogador depende do coletivo para funcionar, e o coletivo depende dele para dar certo. Diego Souza é um exemplo: ele nunca foi um cara paradão na área, e gosta de recuar para participar da articulação de jogadas. Quando faz isso, deixa um espaço vazio que Everton ocupava muito bem. Muitos gols do São Paulo no primeiro turno saíram assim, nessa jogada básica, mas letal.

Defesa sem intensidade, ataque sem criatividade: a saída de Everton mudou todo o time

Diego Aguirre precisava minimizar riscos quando perdeu esse jogador chave. Escolheu no elenco o cara mais parecido com os atributos descritos acima: gosta de correr e acelerar, dá passes em velocidade e entra na área para finalizar. Reinaldo, o escolhido, não foi exatamente mal. Everton Felipe, ceará e substituto mais parecido com o titular, também não foi. O que aconteceu foi que o coletivo do São Paulo mudou. Do ataque a defesa, a saída de uma peça muda toda a forma da engrenagem funcionar.

Começando pela defesa. Lembra que o São Paulo gostava de se defender com encaixes? Everton tinha um papel fundamental nesse sistema: pressionava o lateral ou o volante e raramente deixava essa jogada acontecer. Era intenso nesse papel, e contribuía para roubar a bola e acelerar ao gol. Reinaldo não é tão intenso, o que muda com todo o coletivo. O gol do Botafogo nasceu justamente da falta de pressão do lado esquerdo: Reinaldo deixa Carli conduzir com conforto e emendar uma ligação direta para o ataque.

Se o São Paulo gosta de marcar com encaixes, uma bola alta significa que o zagueiro tem que sair do seu lugar e ir acompanhar quem recebe o passe onde ele for. Por isso é importante que o pelotão de frente faça seu máximo para não deixar o adversário jogar. Veja como Anderson Martins executa esse encaixe e acompanha o botafoguense que recebe a bola…e abre uma verdadeira cratera na defesa. Não dá pra individualizar erros nessa jogada: o gol começa na falta de pressão de Reinaldo, na posição dos volantes que não fecham a área, no zagueiro que não corta a jogada…é sistêmico, como tudo no futebol.

No ataque, o São Paulo também mudou. Os gols secaram. A saída de Everton tirou da equipe sua melhor jogada: aquela inversão e chegada rápida na área. Sem isso, o time precisou pensar novas formas de ccriar jogadas. Não é simples como parece, porque se tem um ponto forte e isso dá certo, o mais natural é apostar nessa forma de criar jogadas. Nos últimos jogos, o Tricolor joga de forma mais posicional, ou seja, postado no ataque, com movimentações coordenadas para abrir espaço. Os adversários, mais recuados, oferecem menos espaços, e o São Paulo no ataque virou um verdadeiro parto: toca, toca e toca, e só Diego Souza dá continuidade a uma finalização. Na imagem você vê como o time ocupa pouco a área.

É claro que a função do técnico é pensar e corrigir isso, mas não é tão simples e fácil assim. A palavra chave aqui é sistêmico: não basta arrumar uma coisa, é preciso pensar no todo e como a saída de uma só peça afeta toda uma engrenagem. Nesse sentido, Diego Aguirre se mantém firme a sua ideia de jogo e procura quem possa manter o treinado desde março. A boa notícia é que Everton volta contra o Palmeiras, na “final antecipada” desse acirrado Brasileirão.

GE