Sabe a barrinha de especial que alguns personagens de jogos de videogame tem? Então, eu acredito que o São Paulo esgotou a sua.

Não que o time não tenha mais condições de crescer, mas na minha opinião a equipe alcançou seu ápice naquela sequência de jogos que a levou à liderança, e manter-se no limite da sua capacidade por muito tempo é algo muito difícil. Neste momento, sem a barrinha de especial, o time perdeu a capacidade de tirar coelhos da cartola e arrancar resultados incríveis em partidas complicadas. Mais do que isso, começou a perder pontos em jogos que a vitória era inegociável. Assim, encaro com bastante naturalidade essa queda de rendimento de um time que, como muito, era cotado para brigar no máximo por Libertadores ao final do Paulistão. E ainda reforço: mesmo assim, o time segue líder e bastante vivo na briga pelo título.

O São Paulo sofreu com alguns problemas no segundo turno. As lesões e suspensões, claro, foram os principais fatores que tornaram a caminhada mais difícil e sofrida. Mas também podemos citar certo cansaço dos jogadores em algumas partidas, a exaustão de um esquema tático que os adversários já aprenderam a neutralizar, o protagonismo de dois veteranos que já não conseguem manter o ritmo 90 minutos todos os jogos e a falta de peças de reposição em posições muito importantes, como o meio de campo dominado por Nenê ou as pontas de Rojas e Éverton.

Na situação atual, contando com todos os fatores citados acima, mas também considerando a disputa cabeça a cabeça com o Inter e a aproximação de Flamengo, Palmeiras e Grêmio (estes dois últimos os mais perigosos na minha opinião), acredito que para seguir na briga pelo Brasileirão o São Paulo deve contar com três pilares:

1 – A retomada da espinha dorsal do time: alguns jogadores, como Reinaldo, Jucilei ou Hudson, Nenê, Diego Souza, Éverton e Rojas se tornaram a grande fortaleza do time. Líderes, jogando muita bola e se revezando em fazer a diferença, estes jogadores foram os maiores responsáveis por levar o tricolor ao topo, juntamente com Aguirre, seu esquema tático e gestão do grupo. Dessa forma, para seguir lutando pelo campeonato, é essencial que o São Paulo consiga fazer esses caras jogarem juntos o maior número de jogos possível.

2 – Variações táticas e mais criatividade: Aguirre tem muitos méritos nessa caminhada rumo ao título. É seguro dizer que sem ele, provavelmente a equipe não estaria lá em cima. Ele uniu um esquema tático eficiente e eficaz, o espírito aguerrido e uma ótima gestão do grupo, transformando os jogadores em um time. Mas agora que alcançou o topo, na tabela e no rendimento, o uruguaio tem que encontrar novas soluções que permitam à equipe reencontrar as vitórias e o bom futebol. Talvez um pouco mais de criatividade, novas peças, um pouco de ousadia… não que falte nada disso, mas neste segundo turno as soluções que Aguirre tentou não surtiram tanto efeito, apesar de ganhar alguns jogos no sofrimento graças às suas alterações. Eu acredito que chegou o momento do técnico encontrar novas caminhos.

3 – Usar a base: aqui vou me estender um pouco mais. Agora é o momento do São Paulo usar a sua base. E isso passa pelo ponto anterior. A velha máxima de que não estamos lá todos os dias acompanhando os treinamentos se faz real aqui, mas a proposta não deixa de ser factível por isso. Recentemente o São Paulo promoveu uma grande renovação da base, num movimento que achei interessantíssimo. Por um lado, o clube emprestou diversos jogadores jovens que faziam parte do elenco há algum tempo e não tinham demonstrado grande futebol para manter-se ali. Por outro, colocou em prática um plano que envolvia a renovação de contrato de ótimos jogadores sub-20 com a efetivação destes no time principal. Dessa forma, Aguirre ganhou nesta última semana três opções que já mostraram muito potencial, e justamente nas posições mais sensíveis do time. Igor Gomes, meia, pode fazer o papel que Nenê faz, com mais velocidade e juventude, e oferecendo mais dinamismo e podendo ocupar uma faixa do campo maior, participando mais ativamente da armação de jogadas. Helinho e Antony, pontas extremamente velozes e dribladores, ambos tem como principal característica partir para cima dos adversários e criar jogadas em velocidade pelos lado do campo. Os três, na teoria, se encaixam perfeitamente no esquema e na proposta atual, dando mais opções para o treinador. Até mesmo Brenner, que em outras oportunidades não foi tão bem, pode ser uma opção de mais mobilidade para jogar como 9.

Obviamente que a base falha, e falha muito. Mas é verdade que muitas vezes ela ajuda, seja com jogadores de nível de seleção capazes de mudar o destino do clube no campeonato, seja com jogadores que compõe elenco e realizam sua funções com competência. Tivemos Lucas Moura, por exemplo, que guiou o tricolor rumo ao título da Sulamericana, sendo inclusive reconhecido por Rogério Ceni. Tivemos David Neres, que ajudou o clube a recuperar-se na luta contra o rebaixamento, resolvendo um jogo perdido fora de casa. E também vimos Luis Araújo, menos decisivo que os outros dois, mas com seu valor para a equipe.

Eu acredito que o primeiro pilar depende de muitos fatores, como a própria sorte, mas tudo indica que nos próximos jogos teremos no máximo um dos jogadores fundamentais fora por partida. O segundo pilar não tenho dúvidas que Aguirre e sua comissão técnica estão trabalhando em cima. Mas para mim, a chave é o terceiro.

Eu gostaria de ver pelo menos um desses garotos já entrando contra o Botafogo. Pode dar errado, assim como Trellez, Carneiro, Everton Felipe e Shaylon já deram errado em outras partidas. Mas se der certo, ganhamos importantes reforços, jogadores com muito potencial em posições importantes e que podem oferecer algo fora do padrão para a equipe. Eles são os caras que podem, se entrarem bem, trazer novas opções de jogadas, variações no esquema, agressividade de líder e força ofensiva.

Na minha opinião, agora é a hora da base. Hora de lançar a garotada e buscar novas ideias. Hora de se reforçar numa fonte que nenhum outro clube no Brasil tem. Hora de encontrar soluções com criatividade e ousadia de campeão. Se der certo, passamos a favoritos. Se não der, seguimos na briga, jogo a jogo, lutando com outras quatro equipes, em um dos campeonatos mais equilibrados da história.

PS.: como torcedor tricolor que sofreu muito nos últimos anos, quero ver o time campeão. Mas entendo que o que o São Paulo está fazendo este ano é algo acima das expectativas. Por isso, eu defendo que é necessário tentar de tudo para vencer. O São Paulo não é o melhor time, nem o elenco mais amplo, nem o time com maior investimento. Por isso acredito que, esgotadas as alternativas de fazer o time render num nível próximo ao auge, não adianta ficar esperando o futebol voltar a ser bom. Como “franco-atirador”, cabe ao tricolor ter ousadia e criatividade. Pode até ganhar o campeonato deixando tudo como está. Mas eu acredito que a maior possibilidade de título passa pelo risco da mudança. E eu estou disposto a apoiar o time até o fim, com ou sem título, caso a equipe mostre que está afim de vencer, jogar com raça e buscar alternativas para se manter no topo, sem se acomodar.

Lucas Kacherian