“Pessoas” – Crônica sobre Raí, Diego Souza e o São Paulo

No dia seguinte ao jogo contra o Ceará, em abril, pela segunda do Campeonato Brasileiro, Raí teve uma conversa com Diego Souza no centro de treinamentos do São Paulo. O clube estava a caminho de se desfazer de um investimento de dez milhões de reais até o final daquela semana, com a ida de Diego, pouco aproveitado pelo segundo técnico desde que chegou, para o Vasco da Gama. O ídolo são paulino, hoje na função de executivo de futebol, queria compreender o ponto de vista do jogador que contratou, diante de uma decisão complexa em termos profissionais. “O que você pretende fazer com sua carreira?”, perguntou Raí. “Você quer mesmo sair daqui sem ter conseguido jogar?”.

Diego não queria ir embora, mas não estava contente. Não apenas por se sentir excluído dos planos de Diego Aguirre, mas também por não saber o que o técnico e o clube esperavam dele. Apesar da situação desconfortável, ele expressou gratidão a Aguirre por ter comunicado sua decisão de maneira clara, sem discriminá-lo ou expô-lo. “Outro técnico teria me queimado”, comentou. Era evidente que havia um componente de dedicação – ao menos de percepção de dedicação – na visão de Aguirre, que, sondado pelo São Paulo cerca de um mês antes de ser contratado, já observava o time pela televisão e tinha suas impressões. “Nós temos a mesma carcaça”, Diego Souza ouviu de Raí. “Eu sei como é difícil carregar 90 quilos em campo, e com o tempo vai ficando mais difícil…”. A mensagem não poderia ser mais direta.

O comentário sobre a honestidade de Aguirre foi suficiente para mostrar a Raí que a relação poderia ser recuperada desde que houvesse um compromisso. Ele estava determinado a construi-lo, também porque a saída de Diego Souza seria enxergada como uma derrota pessoal. Na terça-feira daquela semana, uma reunião entre Raí e Aguirre colocou todos na mesma página. Avaliando as opções do elenco e o que havia disponível no país, Raí quis saber se o treinador de fato abriria mão de um jogador como Diego Souza. “Não tenho nada contra ele”, explicou Aguirre. “Se ele quiser ficar aqui, eu também quero”, completou, afirmando que gostaria de ver um jogador mais ativo em treinamento. A negociação com o Vasco foi cancelada e, a partir daquele momento, o que se podia classificar como desconfiança (não no sentido puramente negativo do termo) passou a ser um fator de cumplicidade entre os Diegos, que, hoje, compartilham posições de liderança com uma comunicação muito melhor.

A história é uma breve ilustração da atuação de Raí no período em que a perspectiva do time do São Paulo sofreu uma alteração radical. Os depoimentos das pessoas que conhecem o dia a dia no clube contrastam com a discrição do ícone que só tinha a perder quando aceitou seu papel de administrador, sabendo que qualquer erro seria ampliado. Antes da transformação da equipe, um mérito evidentemente coletivo, foi o ambiente no São Paulo que perdeu toxicidade e permitiu a evolução que se observa na temporada. O trabalho de Raí é um lembrete de que o futebol é feito por pessoas, e mais bem feito quando essas pessoas são melhores.

L! – André Kfouri

8 comentários

  1. Craque. Sempre. Pra mim, o maior responsável pela mudança de clima no clube e pelo que ainda virá de bom como resultado disso.

  2. Rai, Kaká, Ceni etc. Não formamos apenas craques em campo, mas pessoas diferenciadas fora dele. Quando não formamos (Rai, Leonardo, Lugano) ajudamos na lapidação.

    Rai merece elogios, sempre.

  3. Esse time do Parana é bizonhamente ruim, um aborto termos perdido pontos pra eles. Esse time da escoria tb é muito abaixo da média.

  4. A gente ganhando do Ceará, uma vitoria da porcada até que não seria ruim, pois a gente mantém a mesma distância da porcada e abre 4 pontos em relação ao Inter.

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