Amigos, era dia dos pais numa ensolarada manhã de domingo. O Morumbi, um abraço gigante de concreto apoiando o São Paulo contra o Cruzeiro, pelo nacional. Àquela altura do campeonato, a única certeza que tínhamos era a incerteza diante de uma situação que poderia ser o começo do fim, e tudo ficou cinza quando o ser que não tem nome nem alma, e que leva o apito no canto da boca seca, anotou pênalti aos mineiros.

“Amaldiçoado seja deus, nós vamos cair”, disse ao meu pai, naquele momento um natimorto que, olhar rútilo e suas mãos pequenas guardadas nos bolsos, me encarava com vergonha. “Que inferno é este em que estamos vivendo? Quero acordar ou morrer de uma vez”, me falou, ou falaram por ali, enquanto me agachava na arquibancada com medo de encarar a bola na cal.

Foi por entre frestas e pernas que vi a bola bater na trave e se afastar para um canto, da mesmo forma como eu queria fazer – sair dali, me esconder num costado escuro do estádio e apenas chorar. “Temos de ter fé, e isto foi um sinal, filho, de que o pior já passou”, falou meu pai, lágrimas nos olhos, uma gota de suor em cada poro da testa.

E de fato era um sinal. Na sequência vimos Hernanes, de falta, abrir o marcador. Sofremos com dois empates até o 3 x 2 final que nos tirou da sarjeta definitivamente.

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O tempo sempre cumpre o seu papel e as engrenagens movem a história para frente. Com Aguirre vimos o São Paulo evoluir da condição de ser que baba nas calças para um escrete que, tal qual um tanque no campo de batalha, defende e ataca as linhas rivais. Avançamos ao longo do nacional, fomos derrubando um por um, e aqui estamos na primeira posição na metade do campeonato.

Amigos, quero dizer aos senhores que hoje temos condições de olhar para o horizonte e sonhar com um futuro onde a alegria seja mais presente do que o revés.

Se o gol do Hernanes, naquela manhã contra o Cruzeiro, representou o fim do sofrimento, a partida desta noite, contra o Paraná, no returno do Brasileiro, deve ser o ponto de partida de uma nova história, cujo enredo seja composto por capítulos de dor e sangue, só que, desta vez, rumo à glória.

Aqui, uma verdade inapelável: será em Curitiba, na fria e vampiresca Curitiba, de onde voltaremos com os três pontos e abriremos distância dos concorrentes que nos perseguem como agiotas armados. O quadro paranista, o espartano Paraná que amarga a lanterna do campeonato, nada poderá fazer para conter o ímpeto do plantel tricolor que, definitivamente, tem alma e ganas de campeão.

Apesar do discurso pacífico, e da aparência de lavrador que se assusta com a câmera, o microfone e a pergunta, o jogador tricolor que hoje se planta diante dos adversários é movido pela loucura e pela malícia que, na dose correta, configuram combustível necessário para burlar o marcador.

É esperado um ferrolho da Vila Capanema e o cenário não poderia ser outro em função do momento agônico vivido pelo clube da casa. Estão sem vencer há cinco jogos e, no último, no último minuto, viram um valioso empate escapar pelos dedos. Um golpe que macula a alma e leva tempo para a cicatriz se fechar por completo. Não bastasse a ferida que a macula o espírito, há o corpo cansado – pelearam 51 minutos e toda uma vida na derrota para o inter, no final de semana.

De forma que o escrete precisa entrar em campo com o mesmo ímpeto que nos levou à vitória contra o Colón, em Santa Fe. Na ocasião, soubemos sofrer e, sobretudo, ter paciência para seguir buscando oportunidades de gol no arco de um time que apenas ousou defender-se. Enfrentaremos o mesmo cenário esta noite, e que a experiência do confronto copeiro nos sirva para obter a vitória no campeonato nacional.

ESPNFC

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