O ano mal começou (se bem que para a torcida, até que o time engrene, parece uma continuação de 2017) e já surge o primeiro ruído na relação entre o técnico do São Paulo e o comando “boleiro” do departamento de futebol. As declarações de Dorival Júnior sobre a chegada de Nenê e Trellez – que não deveriam ter sido feitas publicamente, é bom que se diga, pelo desgaste que geraram – tiveram o claro objetivo de mostrar que ele não se empolgou com as contratações. O efeito colateral da entrevista foi escancarar que ele, Raí e Ricardo Rocha não estão falando a mesma língua. E, se essa tensão que surgiu aumentar, não há dúvida de que a corda arrebentará do lado do treinador – que está longe, muito longe, de ter o prestígio que Raí tem com os torcedores.

A nomeação de Raí para comandar o futebol foi uma tacada de Leco para silenciar a oposição (que o bombardeava por ter entregue o cargo a Vinicius Pinotti, um personagem sem a mínima bagagem para a função) e alegrar a torcida. Em seguida chegou Ricardo Rocha, para ser “o ele entre o campo e Raí”. E agora mais um boleiro sobe no barco: Lugano, outro ídolo inconteste dos torcedores.

Além do viés político, a opção por colocar ex-jogadores no futebol tinha por objetivo dotar o departamento de “gente do ramo”, pessoas com vivência em vestiário e por isso capazes de falar a língua do técnico e dos jogadores, além de entender os problemas que podem ocorrer ali dentro. Mas a desastrada declaração de Dorival depois da derrota para o Corinthians expôs erros dos dois lados.

Comecemos pelo treinador. Quando disse que Nenê e Trellez foram “opções da diretoria”, a tradução é que não foram pedidos por ele. Ao dizer que esperava “outros nomes, para outras funções”, Dorival deixa claro que nenhum dos dois se encaixa na sua ideia de jogo para esta temporada. Por fim, a frase “eles vêm para qualificar o grupo” soa como um aviso de que não pensa neles como titulares, e sim para compor o elenco.

Ele queria um meia com mais dinâmica e velocidade, capaz de encostar nos atacantes mas também de ajudar na recomposição defensiva. Alguém mais parecido com Gustavo Scarpa (ou, para citar um jogador que foi fundamental na luta contra o rebaixamento ano passado: Hernanes) do que com Nenê, que em muitos jogos do Vasco foi usado como segundo atacante, sem responsabilidade de voltar – por não ter gás para fazer com a intensidade que o futebol de hoje exige. O treinador também já esclareceu que o seu “nove” é Diego Souza, para fazer o pivô e segurar os zagueiros na área, e que pelos lados quer jogadores rápidos e que cheguem ao fundo para dar profundidade ao time. Onde encaixar Trellez nesse desenho?

Fica a dúvida sobre o motivo que levou Dorival a falar o que falou após mais uma derrota num clássico, resultado recorrente na trajetória do São Paulo nos últimos anos. Para deixar claro que se o time não vingar a culpa não será sua, já que não teve as peças ideais? Ou para mostrar publicamente o desconforto de ter sido atropelado por Raí e Ricardo Rocha?

Com relação aos novos dirigentes, incorrem logo cedo na prática condenável de trazer jogadores que não foram pedidos pelo técnico. Essa atitude é comum em cartolas à moda antiga, e não se espera que seja repetida por ex-jogadores quando estes integram uma diretoria. Empurrar ao treinador jogadores que não estavam na lista dele é como dizer “o que deu para trazer foi isso, se vira”. E essa não é uma boa maneira de começar um trabalho que pretende fazer do São Paulo novamente um candidato a títulos, deixando para trás o papel de figurante que tem desempenhado ultimamente.

Uma varredura pelas redes sociais mostra que grande parte da torcida também não se empolgou com Nenê e Trellez. Mas, como era de se esperar, esses deram um voto de confiança a Raí – o ídolo que já fez muito mais pelo clube do que Dorival Júnior e que, na visão desse grupo, entende mais de futebol do que o treinador.

Em 1991, uma dividida entre Dorival (à época apenas Júnior) e Raí num clássico provocou a fratura na perna do então volante do Palmeiras. Esta dividida, caso o agora técnico são-paulino não dê jeito logo no time, pode terminar com Raí inteiro e ele na rua.

Dorival se colocou na marca do pênalti ao mostrar insatisfação com Raí