‚ÄúSe tiver a oportunidade de voltar a trabalhar no S√£o Paulo no futuro, em outra gest√£o, volto sem pensar‚ÄĚ. A frase do ingl√™s Michael Beale, ex-auxiliar de Rog√©rio Ceni, resume bem o balan√ßo que ele faz da experi√™ncia que teve no Morumbi. Mas atente-se para a √™nfase de Beale √† conjuntura que o faria retornar ao Tricolor: outra administra√ß√£o. Entenda-se presidente Carlos Augusto de Barro e Silva e seus aliados fora do clube.

O ex-braço direito do Ceni versão técnico conversou com o UOL Esporte em Liverpool, na Inglaterra, para onde retornou após pedir demissão do São Paulo, no fim de junho, quatro dias antes de ver o treinador ser mandado embora com o time afundado na zona rebaixamento do Campeonato Brasileiro.

Na entrevista a seguir, Beale detona o comando do presidente Leco e suas ‚Äúdecis√Ķes amadoras‚ÄĚ, sobretudo na debandada de jogadores, conta bastidores in√©ditos da crise tricolor e revela o real motivo por que decidiu abortar o projeto desafiador no futebol brasileiro.

Experi√™ncia no Brasil foi ‚Äúfant√°stica‚ÄĚ

Foi uma experiência fantástica de futebol, um motivo de orgulho para a minha família, especialmente quando os meus filhos olharem para trás. Sinto saudades das pessoas, dos jogadores. Fiz amizade com diversos atletas, principalmente os mais jovens. Sinto falta da amizade com o Rogério, eu era muito próximo do Pintado também.

Frustração com desmanche determinou saída

Não via planejamento e rumo do clube. No começo da temporada, tínhamos um time jovem, com energia e fome de vitória. E perdemos vários desses atletas com ambição e de energia brilhante para o time. No ano anterior, o São Paulo tinha sido décimo no Campeonato Brasileiro, então não era um time maravilhoso. Claramente tínhamos de reforçar a equipe. Então eu via jogadores saindo, e os que chegavam não era necessariamente aquilo que precisávamos. Eu não queria ser um problema, porque sou uma pessoa positiva. A direção que o clube estava tomando não era a que eu queria.

Problemas com passaporte. SP n√£o soube ajudar

Quando saí, disseram coisas sobre a minha família não ter se adaptado. A verdade é que houve um erro em relação ao visto que iria fazê-los voltar para a Inglaterra e não poder retornar ao Brasil até fevereiro de 2018. Viajei para Foz do Iguaçu por causa do visto, e minha família tinha de ter me acompanhado para dar andamento no processo. Não fui orientado por ninguém. Só fui avisado que eu tinha de viajar, e o visto da minha família foi feito por uma empresa indicada pelo clube. Pelo erro, a minha família teve de ir embora do Brasil. Só poderiam ficar no Brasil 180 dias por ano como estrangeiros, e depois dos primeiros 90 dias teria de ser feito o pedido de ampliação. Esse tipo de erro não pode acontecer em um clube da grandeza e da história do São Paulo. Não quero dizer que as pessoas não eram prestativas, só não sabiam o que fazer. Tive a ajuda de três pessoas no clube: Alexandre Pássaro (advogado), Rogério e Charles (Hembert, supervisor francês). Os três eu já conhecia antes de ir para o São Paulo.

Falta de confiança em Leco e relação com Pintado

Quando comuniquei a minha saída, pediram para eu reconsiderar a minha decisão com o argumento de que não haveria mais mudanças até dezembro. Senti que Leco não me queria no São Paulo. Se um inglês é o problema do São Paulo e, se ele sair, tudo se resolve, é melhor sair. A venda do Thiago (Mendes) foi a gota d’água. Com as saídas, o time foi ficando mais lento. Acho que até a derrota para o Palmeiras, no Paulista, nós tivemos maior posse de bola em todos os jogos. Os adversários nos respeitavam e aguardavam a nossa proposta, mas a velocidade era muito importante para nós. Na primeira parte da temporada, a maioria dos nossos gols saiu em contra-ataque. Quando vendemos o Thiago (Mendes) e analisei a situação, o comportamento do presidente, os rumores da desconfiança com o Pintado…Passou a ser uma situação que não queria mais para mim. Jogadores estavam saindo sem o conhecimento do treinador, e outros chegando sem a aprovação. Você ouve de diretores que não pode confiar em um dos auxiliares (Pintado), vê o Rogério sob pressão e sabe que em alguns dias sua família tem de ir embora por oito meses… Isso é uma loucura!

Thiago Mendes vendido de surpresa

Est√°vamos em prepara√ß√£o para enfrentar o Flamengo, um grande jogo. Cheguei para o treinamento, e estava acontecendo a coletiva de imprensa do Thiago, com an√ļncio para o mundo, de que ele estava sendo vendido. Eu n√£o estava sabendo de nada‚ĶParei e pensei ‚ÄúN√£o tem como isso dar certo‚ÄĚ.

Nem mesmo o Rogério sabia da negociação?

Não sei, foi ele que me disse sobre a saída do Thiago. Acho que o Rogério também não sabia que ele estava se despedindo naquele dia.

Último papo com Rogério Ceni

Procurei o Rogério imediatamente depois do treino. Expliquei que gostaria de sair pela direção que o clube estava tomando. E que não tinha confiança nesse rumo. Ao mesmo tempo senti que estavam colocando Rogério em uma posição da qual ele não conseguiria sair vitorioso. Meu conselho foi para que ele considerasse o cargo dele também. O Rogério ama demais o São Paulo. Ele defendeu o clube por 25 anos, mas não deram a ele 25 semanas como treinador.

Acusado de frieza no dia a dia

N√£o √© verdade. Ainda falo com o Jardine (t√©cnico do sub- 20), de Cotia, Pintado, Z√© Mario (preparador f√≠sico). Conversei com jogadores recentemente, com os mais jovens, sempre dando conselhos. √Äs vezes as pessoas n√£o s√£o inteligentes. A imprensa acompanha os treinos todos os dias. Tamb√©m d√° para pegar as entrevistas dos atletas quando eu estava l√°. Pintado j√° disse, depois da minha sa√≠da, sobre a minha influ√™ncia nos treinamentos, da falta que passei a fazer. N√≥s √©ramos muito pr√≥ximos, tom√°vamos caf√© da manh√£ e almo√ß√°vamos juntos todos os dias. E ele √© um √≠dolo do clube. Mas entendo porque as pessoas dizem isso. Na noite que comuniquei a minha sa√≠da, deixei claro que gostaria que dissessem que sa√≠ por raz√Ķes pessoais. No S√£o Paulo, existe o problema que muita coisa √© vazada para a imprensa. Comuniquei a minha sa√≠da √†s 16h, e √†s 19h j√° tinham passado mentiras para a imprensa. E n√£o foi o Vinicius (Pinotti, diretor de futebol) que passou as hist√≥rias. Algu√©m acima dele que criou. Fiquei 10 anos no Chelsea, cinco no Liverpool e ningu√©m fala nada negativo sobre mim.

Mal-quisto por Leco

Senti que o presidente não me queria no São Paulo de jeito nenhum. Ouvi que ele não gostava de mim pessoalmente. Não tinha nada contra ele, mas talvez eu estivesse tentando impedir a saída de alguns jogadores e ele achasse que não deveria fazer aquilo. Pelo respeito que tenho pelo Rogério, foi melhor sair. Se eu tivesse ficado mais cinco dias, eu teria recebido muito dinheiro do São Paulo por ser demitido, assim como Rogério e Charles foram depois.

Falta clareza a Leco, que n√£o foi ‚Äúamig√°vel‚ÄĚ

N√£o tive muito contato com o Leco. O que posso dizer √© que ele n√£o foi amig√°vel. Quando n√£o existe clareza no rumo do clube‚Ķ Esse √© o grande erro dele, (falta de) clareza. No S√£o Paulo existem muitos diretores que gerenciam o clube como se fosse um jogo de computador: vende, contrata e pensa que vai funcionar. √Č s√≥ demitir o Ceni e trazer o Dorival que vamos ganhar todos os jogos. A verdade √© que os resultados s√£o exatamente os mesmos. O que posso dizer √© que o Vinicius tentou ajudar. Jacobson (ex-diretor de futebol) era um cara legal, de muito bom trato com os jogadores e de √≥tima gest√£o. A√≠ chegou o Vinicius. Talvez ele n√£o soubesse o tamanho dos problemas e o qu√£o dif√≠cil √© o cargo. Estaria errado se fosse t√£o cr√≠tico, porque venho de uma cultura diferente.

Rusgas com Pinotti

Pinotti era um funcion√°rio do departamento de marketing que conheci quando fui ao Brasil em novembro. √ďtima pessoa, fala ingl√™s fluentemente, ent√£o nossa comunica√ß√£o era frequente. Ele apoiou o Rog√©rio, mas tamb√©m trabalha pela pr√≥pria carreira, o que √© natural. S√≥ que ele questionou o legado de homem que jogou 25 anos pelo clube, com mais de 1250 partidas. Um cara que sempre quis vencer e n√£o falou mal uma vez sequer desde que saiu do clube. Rog√©rio poderia falar muita coisa, mais do que qualquer um. Ele n√£o vai fazer isso, porque ama o clube. Quando sa√≠, disse para o Vinicius que as pessoas estavam usando o Rog√©rio, e o √ļnico que sairia perdendo daquela situa√ß√£o seria o Rog√©rio.

O principal culpado pela fase m√° fase

No Brasil, quando o time n√£o joga bem, √© culpa do t√©cnico. Foi o que aconteceu com o Rog√©rio. Mas se o planejamento n√£o √© bom, quem voc√™ troca? Se o Ceni tivesse assumido o melhor time do pa√≠s, com o melhor elenco, tudo bem. Mas ele pegou o d√©cimo do √ļltimo Brasileiro. Al√©m disso, sa√≠ram David Neres, Luis Ara√ļjo, Lyanco, Thiago Mendes, Maicon. Esses jogadores n√£o podem sair do jeito que aconteceu, e o elenco n√£o era o mais forte da hist√≥ria do S√£o Paulo. Quantos desses jogadores estariam nos times vencedores que teve o Ceni como capit√£o? Todo mundo poderia ter feito melhor, mas as constantes mudan√ßas n√£o ajudam. E quem decide no S√£o Paulo √© o presidente.

‚ÄúVoc√™ olha para quem chega, era melhor ter mantido quem estava‚ÄĚ

Eu n√£o fazia parte disso e era uma das √ļltimas pessoas a saber. O S√£o Paulo est√° numa situa√ß√£o de vender qualquer jogador que tenha proposta. √Č uma pena. √Č o √ļnico clube no Brasil que s√≥ vende, vende, vende‚ĶE quando voc√™ olha para quem chega, seria melhor ter mantido quem estava. A √ļnica coisa que soube √© que, se vend√™ssemos Neres e Lyanco, n√£o ter√≠amos de negociar mais ningu√©m durante o ano. Outra coisa sobre planejamento: quantos jogadores pertencem ao S√£o Paulo? Quantos v√£o estar l√° no pr√≥ximo ano? Quantos est√£o l√° por empr√©stimo? Jucilei, Hernanes‚ĶMetade do time! Isso n√£o funciona a longo prazo. Sinto que em Cotia tem talento suficiente para o clube n√£o precisar contratar alguns dos jogadores que chegaram.

√ćdolo usado no jogo pol√≠tico

O Leco precisava ganhar a eleição (em abril). Quem melhor do que o Rogério para ser contratado como treinador? Dê às pessoas aquilo que elas querem. Depois, não dê ao treinador os jogadores no momento que ele quer, em janeiro, para montar o time para a temporada, mas contrate no tempo certo para ser eleito. Para mim, tudo foi muito bem planejado pelo Leco.

Beale reclama do tratamento a Lugano e Luc√£o

Lugano √© um nome gigante na hist√≥ria do clube. Um excelente profissional. A hist√≥ria da renova√ß√£o dele foi intermin√°vel. Vai renovar? N√£o vai renovar? Eles tiveram um ano para resolver isso e n√£o mostraram nenhuma responsabilidade. Falta de respeito com um √≠dolo. A√≠ voc√™ tem um garoto talentoso, o Luc√£o, capit√£o do Brasil sub-20, valorizado na Europa. Ele vai l√° e comete um erro e n√£o √© tratado pelo clube da maneira que merece. O cuidado √© necess√°rio nessas horas, porque os companheiros veem tudo isso. Enquanto o Luc√£o ainda estava no clube, deram o n√ļmero dele para um jogador que foi contratado (Arboleda). Se voc√™ trata um jogador que cresceu no clube desse jeito, o que isso retrata da sua gest√£o? Quem comanda o clube tem de ter valores, honestidade, integridade. E o clube √© gigante, olha o que a torcida est√° fazendo em um momento t√£o ruim.

Cotia serve para o S√£o Paulo ou para fazer dinheiro?

√Č o maior ativo do S√£o Paulo e a melhor categoria de base do Brasil. H√° √≥timos jogadores. Mas √≥timos jogadores para o S√£o Paulo ou para os diretores fazerem dinheiro? Esse dinheiro das vendas est√° realmente sendo direcionado para pagar a d√≠vida? Para mim n√£o est√° claro.

Fair play de Rodrigo Caio

Eu estava na Inglaterra fazendo meu curso Pro Licence da UEFA quando a hist√≥ria se tornou p√ļblica. O Rodrigo √© um excelente profissional. Ele se comportou da maneira que achou que fosse a melhor. O time estava frustrado no intervalo por estar perdendo de 2 a 0 em um jogo que n√£o merec√≠amos estar atr√°s. Era uma semifinal contra o nosso maior rival, ent√£o muita coisa estava acontecendo ao mesmo tempo. Nem eu sabia, antes do jogo, que o J√ī estava pendurado, e tamb√©m n√£o sabia quando cheguei ao vesti√°rio. S√≥ falamos cinco minutos naquele intervalo. O Rog√©rio perguntou se o Rodrigo sabia da quest√£o do cart√£o, e o Rodrigo disse que n√£o. Continuamos nosso trabalho normalmente. O caso n√£o merecia todo esse drama. O que acontece √© que vim para a Inglaterra para o curso, e quando voltei para o Brasil, o ambiente no clube estava diferente, era de press√£o.

Encontro com Rogério pós-demissão

Almo√ßamos logo depois que ele foi demitido, na mesma semana. Fomos a um restaurante perto da casa dele, conversamos sobre aprendizados para o futuro, porque podemos voltar a trabalhar juntos. Obviamente que ele estava triste. O S√£o Paulo √© a vida dele. Ele poderia muito bem ter jogado por um grande clube da Europa para ganhar mais dinheiro, mas decidiu ser leal com o clube onde morou quando era mais jovem. Ele ama tanto o clube quanto os torcedores. Mas as pessoas n√£o sabem que o Rog√©rio tem uma personalidade brilhante, com √≥timo senso de humor. Todos os dias n√≥s faz√≠amos piada e d√°vamos risadas. Ele gostava de fazer churrasco, cantar no karaok√™, tocar viol√£o. √Č mentira quando as pessoas dizem que brigamos ou que eu n√£o acreditei na dire√ß√£o em que ele estava levando o time.

Patamar de Ceni entre os técnicos brasileiros

Se voc√™ compar√°-lo com os outros, n√£o √© verdade que foi um fracasso. Acredito que um dia ele vai voltar para o S√£o Paulo. Ele tem o profissionalismo e a compet√™ncia para ser o presidente. √Č complicado ele ter de ser o treinador, o diretor‚Ķele fazia o trabalho de 20 pessoas!

Futuro com Dorival

Ainda tenho f√© que ele possa encaixar uma sequ√™ncia de vit√≥rias para tirar o S√£o Paulo de baixo da tabela. Mas talvez esteja sofrendo com o lado pol√≠tico do clube. Se eu fosse diretor, daria tr√™s anos de contrato para o Dorival e deixaria ele fazer o trabalho. Sabe por qu√™? Porque ele √© o profissional. Quando est√°vamos no S√£o Paulo, os profissionais corrigiam as decis√Ķes dos amadores. Todos os dias. Este √© o resumo da minha passagem no S√£o Paulo: os profissionais tentando corrigir o que os amadores faziam.

Brincadeiras sobre o Mundial de 2005

Falei com algumas pessoas no clube e, por eu ter trabalhado no Liverpool, era uma piada pronta para os torcedores que me abordavam (risos). Apesar de na Europa não ter o mesmo valor atribuído na América do Sul, é um grande feito. Ah, e o Rogério me deu a miniatura que retrata a defesa dele na falta do (Steven) Gerrard.

Nova geração salta aos olhos

O melhor jogador que vi no Brasil, em termos de juventude, foi o Douglas, que foi para o Manchester City (e est√° emprestado ao Girona-ESP, clube parceiro dos ingleses). Lembro de estar assistindo a alguns jogos dele pela TV e pensar ‚ÄúUau! Esse cara √© muito, mas muito bom!‚ÄĚ. Thiago Maia e Thiago Mendes tamb√©m me impressionaram. Sei que parte da torcida do S√£o Paulo n√£o gostava do Thiago Mendes, mas se Marcelo Bielsa gosta de um jogador, √© porque ele √© bom. No S√£o Paulo, Lucas Fernandes joga com os dois p√©s e √© um talento excepcional. Teve alguns problemas por retornar de les√£o, mas ele tem n√≠vel para jogar no Liverpool e no Chelsea. Da base, eu amo Igor Gomes, cl√°ssico camisa 10 que sabe explorar os espa√ßos com toques de extrema classe.

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