As aventuras de Pi é um filme norte-americano de 2012. Baseado em livro do mesmo nome, mostra a história de um indiano sobrevivente de um naufrágio na companhia de um tigre em acanhado barco salva-vidas. Mas poderia ser sobre a história de Hernanes, o meia do São Paulo que também é conhecido como Profeta.

Al√©m de Pi ser o apelido do jogador desde a inf√Ęncia, como ele contou nesta entrevista ao LANCE!, a primeira ap√≥s sua volta ao pa√≠s, suas passagens flertam com a fic√ß√£o: de t√£o formid√°veis beiram ao inacredit√°vel. Nos sete anos que passou fora do Brasil, quase todos jogando na It√°lia, Hernanes aprendeu a falar italiano, ingl√™s, franc√™s e se comunica em espanhol. Arranha mandarim apesar de s√≥ seis meses na China. Come√ßou a estudar Engenharia civil e pensa em escrever um livro com uma tese ousada. Tudo isso ele contou em bate-papo de mais de uma hora no CT da Barra Funda.

Mas, no fundo, √© parte da realidade de um jogador diferente, obcecado por conhecimento e que conquistou a torcida s√£o-paulina por t√≠tulos (bicampe√£o brasileiro em 2007 e 2008), gols (39) e atua√ß√Ķes hist√≥ricas. Como a do √ļltimo s√°bado, quando fez um dos gols na √©pica virada de 4 a 3 sobre o Botafogo. Resultado que deu novo √Ęnimo ao time, mas n√£o ilude Hernanes. O rebaixamento ainda n√£o est√° espantado. Profeta tamb√©m √© p√©s no ch√£o.

“N√£o (momento ruim passou). V√≠nhamos em um trem bem decadente, mas chegou um ponto em que a curva come√ßou a mudar. Conseguimos parar, agora estamos nos preparando para inverter a curva. Estamos no ponto da curva, √© o momento de come√ßar a pensar que podemos subir”, disse, sobre a fase atual do time.

Subir a curva passa por vencer o Coritiba na pr√≥xima quinta-feira, quando Hernanes voltar√° a atuar no Morumbi ap√≥s quase exatos sete anos. Antes do reencontro que promete ser emocionante, por√©m, o Profeta contou o que mudou desde sua sa√≠da em 2010, de onde vem sua inspira√ß√£o para deixar bigode e cavanhaque, deu detalhes de sua conversa com Rog√©rio Ceni no come√ßo do ano e tra√ßou algumas de suas metas: salvar o Tricolor e chegar √† Copa do Mundo de 2018 na R√ļssia.

Na conversa, Hernanes falou “Aqui √© S√£o Paulo, Piii” em cinco idiomas diferentes. O “Piii”, no caso, foi a sa√≠da encontrada para n√£o falar palavr√£o, Mas acabou virando mais uma das aventuras de Pi, o Profeta que os s√£o-paulinos tanto gostam.

Confira a entrevista:

O que mudou desde 2010, como pessoa e jogador?
Como pessoa… Eu… (Pensando). Posso dizer que, assim… Hoje falo ingl√™s, falo italiano, um pouco de franc√™s, me comunico em espanhol. Primeiramente, √© isso. E era at√© um objetivo meu. Quando cheguei √† It√°lia, eu queria aprender. Sempre gostei de aprender novas l√≠nguas, novos idiomas. Eu membro que alguns japoneses, coreanos, sempre vinham ao CT para fazer um per√≠odo de est√°gio, e eu sempre me interessava por aprender outras l√≠nguas. Ent√£o quando cheguei na It√°lia, fora do pa√≠s, eu pensei, quando eu acabar minha temporada aqui na Europa, quero voltar ao Brasil falando ingl√™s, italiano, franc√™s e alem√£o. O alem√£o n√£o consegui, mas ainda n√£o perdi esse objetivo (risos).

O que aconteceu com o alem√£o?
Num deu tempo. Porque eu me dediquei bastante, por exemplo, ao franc√™s. Ent√£o, para n√£o perder, come√ßar a estudar o alem√£o, e n√£o ter adquirido bem o franc√™s… Eu n√£o sou t√£o bom no franc√™s, mas me comunico tranquilamente. N√£o tive tempo ainda de estudar o alem√£o, mas ainda tenho como objetivo.

Estudei tamb√©m, um sonho antigo. Eu tamb√©m nunca falei para ningu√©m, mas na It√°lia comecei a estudar engenharia, sempre uma vontade que eu tinha. Uma universidade √† dist√Ęncia. Comecei fazendo um ano, estou no segundo ano. Foi algo tamb√©m que me acrescentou no meu crescimento como pessoa. Futebolisticamente, mudou meu conceito. Porque antes aqui no Brasil, voc√™ pensa que um bom jogador de futebol √© o que tem capacidade para driblar um, dois, de t√©cnicas elevadas. Mas na It√°lia principalmente mudou completamente o meu conceito de um bom jogador. Na It√°lia vi jogador que n√£o sabia dar um drible, mas que era muito √ļtil √† equipe, jogava taticamente, inteligente, aproveitava as outras capacidades para ser bom para a equipe. Ent√£o hoje para mim, para ser um bom jogador, o conceito mudou bastante… Claro, se voc√™ pega um Messi, um Neymar que t√™m capacidade de resolver sozinho, esses n√£o s√£o bons jogadores, s√£o fen√īmenos que aparecem um a cada dez anos. E hoje para mim o conceito de bom jogador √© que joga em dois toques, sabe se posicionar, entender a leitura do jogo, sabe entender o momento do jogo, de acelerar… Essa leitura, esse conceito meu mudou bastante. Foi algo que aprendi l√° fora, de ver o futebol de maneira diferente.

Os idiomas você aprendeu sozinho?
Sim, aprendi sozinho. Aprendi… √Č, n√£o posso falar que √© sozinho. Eu tenho um m√©todo que utilizo. Por exemplo, queria mandar um abra√ßo para meu amigo Ederson (meia do Flamengo). Agora lembrei dele. Ele morou na Fran√ßa, no per√≠odo l√°, e ele me ajudou muito no franc√™s. Companheiro de quarto, eu perguntava: “Ederson, como se diz apaga a luz, como se diz pega isso, apagar isso”, e ele com uma paci√™ncia incr√≠vel, me ajudava muito. Meu cora√ß√£o fica muito dolorido assim com a hist√≥ria dele. Porque √© um cara sensacional, joga muito, e sempre teve muitos problemas f√≠sicos. E sempre superou, nunca desmotivou, e agora mais esse. Fiquei bem sentido, triste por ele. Mas estou na torcida, na esperan√ßa, orando para que ele ven√ßa mais essa.

Ainda est√° fazendo engenharia?
Sim, comecei lá. Continuei estudando na China, com aulas por Skype (Programa que permite conversas em vídeo no celular ou computador). Aqui no Brasil ainda não deu para saber se estou fazendo ainda. Mas tenho o objetivo de continuar a engenharia Civil.

A engenharia te traz algo para o campo também?
Cara, tem a ver. Tem a ver assim. Porque quando voc√™ gosta de engenharia, voc√™ estuda f√≠sica, qu√≠mica, matem√°tica. E estudando f√≠sica, eu tive uma f√≥rmula, me deparei com uma f√≥rmula que foi motivo para mim de uma percep√ß√£o incr√≠vel, que me ajudou a descobrir um caminho. Dar um exemplo para ficar mais simples. Tinha certos tipos de treinamento que eu fazia, na parte f√≠sica isso, e eu me sentia bem. E √†s vezes eu falava para o preparador f√≠sico: “Deixa eu fazer esse tipo de treinamento?”. E ele: “N√£o, n√£o precisa. Aqui estamos no meio de temporada e tal”. E ele dava as teorias dele, mas eu sentia que fazia bem para a mim. Mas por respeito, eu n√£o fazia. E quando eu me deparei com a f√≥rmula de pot√™ncia, que √© igual a for√ßa mais velocidade dividido pelo tempo. E eu sempre quis ser mais forte, veloz. Fazia muito trabalho de velocidade, pique a curta dist√Ęncia e eu sentia que n√£o melhorava. E quando eu fazia o outro tipo de trabalho, eu me sentia melhor. E a√≠ com essa f√≥rmula, eu descobri o porqu√™ de eu sentir aquilo. Porque no futebol, o que conta √© a pot√™ncia. Ou seja, √© o jogador fazer uma dist√Ęncia em menor tempo. Quando menor for o tempo de percorrer aquela dist√Ęncia, mais potente voc√™ √©. S√≥ que a pot√™ncia tem duas vari√°veis, a for√ßa e a velocidade. E velocidade √© algo puramente gen√©tico, ou voc√™ tem a fibra r√°pida ou voc√™ n√£o tem. N√£o adianta, eu posso treinar o que for, que voc√™ vai ganhar muito pouco. Ent√£o ainda bem que existe a for√ßa. Ent√£o eu parei, para focar na for√ßa. Eu fiquei t√£o contente, t√£o importante para mim… Eu estudo a engenharia n√£o foi por causa disso. Porque eu amo as constru√ß√Ķes. Uma coisa que gosto de fazer, que eu gosto. Mas quando eu me deparei com essa coisa que me ajudou com o futebol foi algo bem legal.

Quais eram os exercícios?
√Č… N√£o, a√≠ vou ter de parar um pouco (risos). Porque n√£o posso dar o ouro, os tesouros (risos). Foi muito legal essa descoberta dessa f√≥rmula, e at√© penso de escrever um livro depois, com essa f√≥rmula como base para um estilo de vida, do homem potente. Foi t√£o legal, porque eu tinha come√ßado tamb√©m lendo a b√≠blia, algo me chamou a aten√ß√£o, que foi um vers√≠culo que falava do homem potente. E eu, poxa, vou estudar quais s√£o os atributos que fazem de um ser potente. Comecei a estudar sobre isso, pesquisar, ler mais. A√≠, de repente, me deparo com essa f√≥rmula. Ai encaixou perfeitamente.

Você hoje é mais potente do que saiu?
Eu acho, eu acho.

Tem dados que comprovam isso? Est√° melhor?
Por exemplo… Para dizer que sim sem antes comparar os dados, teria de comparar. Mas me sinto. Mas o sentir n√£o quer dizer que os dados comprovem isso.

Tem alguma fórmula para manter essa potência por muito tempo? Porque a idade cobra. E você tem 32 anos.
√Č o que penso. Quero jogar em alto n√≠vel, continuar. E se eu n√£o conseguir mais executar esse tipo de treinamento que falei. Enquanto eu conseguir executar, significa que ainda existe pot√™ncia, for√ßa para me manter potente, bem. Mas vendo o exemplo do Z√© Roberto, claro que geneticamente ele tem algumas qualidades que eu n√£o tenho. Mas ele √© um exemplo de que se pode chegar bem longe. Tempo, ele n√£o… N√£o sei, estou falando assim. Mas me lembro de dores que hoje sinto e n√£o sentia antes. Estava pensando, meu filho est√° com dez anos e tem algumas dores em partes dos corpo. E eu tinha as mesmas e falavam que era da fase do crescimento. Depois essas dores passaram. E eu passei a ter outras dores, e agora √© fase do envelhecimento (risos). Mas √© impressionante como voc√™ pode manter.

Desenvolveu outras técnicas?
Na verdade, eu tentava escrever com o p√© esquerdo, baseado em uma teoria que eu pensava. Se eu conseguir desenvolver a escrita com o p√© esquerdo, a capacidade do meu c√©rebro ser√° incr√≠vel. Porque eu dominando uma t√©cnica como essa… Mas a√≠ depois eu desisti. Porque a√≠ entra o J. Alves (Nota da reda√ß√£o: amigo de Hernanes, ex-treinador da base do S√£o Paulo que procurava aplicar m√©todos cient√≠ficos para fazer o “jogador perfeito”. Faleceu h√° dois anos), que j√° tinha estudado mais do que eu, e falava que as t√©cnicas para o futebol e teu of√≠cio, s√£o espec√≠ficas. Se eu fosse muito bom em escrever com o p√©, n√£o queria dizer que dentro de campo eu seria bom no passe ou no chute de p√© esquerdo. Mas descobri outra coisa. T√©cnicas parecidas voc√™ consegue melhorar.

Por exemplo, eu hoje escrevo com as duas m√£os. Treinei para isso tamb√©m, que eu queria. Uma t√©cnica que desenvolvi. Tanto que meus √ļltimos contratos eu escrevi com a m√£o esquerda.

Inclusive o do S√£o Paulo?
Inclusive o do S√£o Paulo (risos). E eu treinava bastante. Caligrafia, fazia isso. Mas chegou certo ponto que eu n√£o melhorava mais. Para melhorar, tinha de escrever bastante tempo. Mas eu percebi que, uma semana, estava na concentra√ß√£o, toquei viol√£o, toquei bastante. E toca as notas com a m√£o esquerda. E depois, quando fui escrever, estava melhor. A√≠ me veio uma d√ļvida. O J.Alves tinha me falado que uma habilidade n√£o melhorava a outra, mas eu tinha melhorado. Ent√£o pensei que eu tinha de estudar mais, porque ele me confundiu. Mas era uma t√©cnica parecida, porque uso os dedos. Tinha alguma coisa a ver com o movimento.

E essa fissura pelo lado esquerdo fez você fazer algo inédito: um gol de falta com a perna esquerda, depois de fazer um gol com a direita (Nota da redação: No dia 10 de maio de 2015, ele fez os dois gols da vitória da Inter de Milão sobre a Lazio por 2 a 1 pelo Italiano. Ambos de falta, com cada um dos pés).
Foi muito legal. Porque eu na base, no sub-15, fiz um de direita e um de esquerda. Mas no profissional n√£o tinha conseguido fazer isso. E n√£o sei se no futebol brasileiro ou italiano algu√©m tinha feito isso. √Č muito legal. Porque algumas pessoas na hist√≥ria foram ambidestro na m√£o, parece que Napole√£o Bonaparte. Deve ter. Mas algu√©m ambidestro com os p√©s e com as m√£os, s√£o poucos. Quando comecei n√£o pensava nessas coisas, mas hoje acho muito legal.

Quantas tentativas tinha feito até o gol?
Nos treinos sempre bati. Mas nos jogos, eu tinha tentado uma contra a Lazio. E naquele jogo, foi algo legal porque pensei, “ele me conhece, o goleiro da Lazio, e ele n√£o vai desconfiar que vou bater de esquerda”. E eu falei, deixa eu pegar de esquerda que ele n√£o vai esperar. Ent√£o foi tamb√©m uma estrat√©gia que usei e deu certo.

Aqui você batia menos falta por causa do Rogério, né? Não tentou nenhuma, né?
N√£o, aqui n√£o.

E seleção brasileira. Você fechou um ano de contrato, até julho, que vai estar definida a lista. Você tem o plano de disputar a Copa?
Tenho. Tenho um plano, e não é sonho. Porque sonho e algo que a gente sonha, mas planejamento é algo que você quer chegar, tem as etapas, sabe o que tem de fazer para chegar lá. E está tudo traçado, vou executar e depois ver o que acontece. Faz parte do meu planejamento.

Na época do 7 a 1 para a Alemanha comentou-se que haviam indicado você para o Felipão colocar no lugar do Neymar. Soube disso?
Não. Sei que ele testou muitas coisas, eu também fui testado. Não lembro de nada falado, só desse trabalho.

Além da seleção, o que mais estipulou para esse um ano?
S√£o 21 jogos, n√©? Estipulei de ter um segundo semestre espetacular em torno de resultados. N√£o enxerguei nem um ano, enxerguei agosto, setembro, outubro, novembro e alguns dias de dezembro. Quatro meses de resultados, de conseguir o maior n√ļmero de pontos poss√≠veis. Isso que visualizei, que planejei. N√£o tem esse objetivo de lutar por isso, por aquilo. Nem vi ainda a tabela, porque o que importa √© o pr√≥ximo jogo, √© o planejamento.

Mas tem uma particularidade. Pelo calend√°rio brasileiro, as competi√ß√Ķes est√£o decididas mais no segundo semestre. E ano que vem, s√≥ ter√° o Paulista no primeiro semestre. Vai brigar apenas por isso, √© isso? Pensou nisso?
Não pensei, porque como falei meu planejamento foi só quatro meses, não enxerguei o próximo ano. São esses quatro meses. Não consegui ainda visualizar o segundo semestre.

Em 2008, voc√™ chegava falando “bom dia, tricampe√Ķes”. Usou algo agora?
Não, ainda não. Aquele foi algo de inspiração, inspiração mesmo e perceber o momento. Eu sempre fui ligado a isso, de fazer algo que ninguém fez, fazer algum tipo de história. E como vi que a gente estava ali para ganhar o tri brasileiro, percebi que tínhamos de ganhar, não podíamos falhar. Acho que dessa vontade, percepção, que veio isso.

Mas quando começou a falar estava longe, não?
Longe, n√£o… Estava ali, acho que foi o jogo contra a Portuguesa, os 3 a 2 contra a Portuguesa. Foi a partir dal√≠.

Na Copa das Confedera√ß√Ķes em 2013 tamb√©m teve algo, n√©?
Sim, verdade. Eu entreguei a foto do troféu para cada um. Antes da competição.

Avisou o Felip√£o antes?
Nem avisei, n√£o. Era para visualizar o objetivo.

E na Copa n√£o fez?
Pior que fiz. E n√£o deu certo (risos).

Algo explica aquele 7 a 1?
N√£o, n√£o tem explica√ß√£o. Na vida e no futebol, acontecem coisas aleat√≥rias, e aquilo foi um fato aleat√≥rio que acontece em determinadas ocasi√Ķes. Racionalmente, √© dif√≠cil buscar logicamente alguma explica√ß√£o. N√£o tem. Tivemos duas perdas importantes, que foram Neymar e Thiago Silva, mas n√£o h√° justificativa. Foi algo aleat√≥rio, casual, que acontece de vez em quando.

Aquele resultado reflete a dist√Ęncia do futebol brasileiro para o europeu?
Existe essa dist√Ęncia, mas, se voc√™ pegar os jogadores que estavam atuando, a maior parte veio do futebol europeu. Isso n√£o justifica. √Č fato essa dist√Ęncia do futebol brasileiro, que sempre teve como ponto forte a individualidade. Nos √ļltimos tempos, se pegarmos as Copas entre 1994 e 2006, a Sele√ß√£o tinha muitos jogadores que eram fen√īmenos. Em 2010, j√° teve um pouco menos e, em 2014, tinha o Neymar. Esse nosso ponto forte caiu nos √ļltimos anos. Ent√£o, o Brasil teria que ter se preparado para isso do ponto de vista t√©cnico e t√°tico. Isso √© um fato. Mas aquele resultado n√£o explica esse fato, porque a maioria dos jogadores estava no futebol europeu.

Nessa sua volta, você percebe que o futebol brasileiro mudou?
Eu tenho que ver mais jogos. Eu não via os jogos pela diferença do fuso horário, teria que ficar acordado, e nem tinha TV brasileira na minha casa lá fora. Vi um jogo no Morumbi e participei de outro. Tenho que ver mais para ter algum parecer. Mas a primeira impressão é que se corre mais lá fora. Aqui, se compacta muito bem o jogo na intermediária defensiva. Na Europa, se joga mais alto, a pressão começa já no alto. Então, automaticamente, você tem que correr mais porque, quando o time está atacando, os zagueiros já compactam na frente e, quando o adversário vai sair com a bola, já tem uma barreira em cima. Aqui, o jogo vai, o zagueiro não vai tanto e já começa a recuar um pouco para esperar o adversário na intermediária defensiva. Fica bem difícil o jogo nessa faixa do campo aqui no Brasil.

O S√£o Paulo est√° tentando te trazer desde o fim do ano passado e esteve bem perto de traz√™-lo no in√≠cio deste ano, pelo que voc√™ disse…
Perto, n√£o. Foi a primeira vez em que disse: se der certo, vou. Mas n√£o ficou perto porque chegou a China, fez a proposta e a Juventus j√° tinha acertado tudo. N√£o ficou perto, mas foi a primeira vez em que me dispus a voltar.

Por que essa disposição a voltar?

Porque tenho meus objetivos no futebol. Fui para a Juventus porque queria jogar uma Champions League, que eu n√£o tinha jogado ainda por Lazio e Inter, e queria jogar, n√£o participar. S√≥ que comecei a ficar no banco e percebi que poderia at√© participar, entrando de vez em quando, mas n√£o era esse o meu objetivo. Quando percebi que aquela porta se fechou, que n√£o alcan√ßaria meu objetivo, eu teria que dar uma replanejada, porque, por ali, n√£o daria mais certo. Comecei a querer sair da Juventus e apareceu o S√£o Paulo. Foi incr√≠vel. Em um treinamento, caiu aquela coisa e pensei ‘tenho que sair daqui’. A√≠ recebi um contato do S√£o Paulo.

Quem te ligou?
O Rogério, e foi no mesmo dia. Nós já tínhamos nos falado antes e ele voltou a me contatar naquele dia que eu tinha decidido que queria sair.

O que ele te disse?
Ele perguntou como estava a minha situação, se a minha postura era a mesma de quando tínhamos nos falado anteriormente. Falei que minha postura mudou e que viria se desse certo.

Quanto te motivou ter sido o Rogério que te ligou?
Motivou bastante. √Č muito legal o seu trabalho ser apreciado pelas pessoas, mas, quando √© apreciado por pessoas que voc√™ reputa como de alto gabarito √© motivo de maior inspira√ß√£o, d√° um sentimento de prazer. Saber que um cara como o Rog√©rio, como pessoa e conhecedor de futebol, queria contar comigo foi importante. Eu me senti motivado.

Vocês conversaram depois que ele saiu?
N√£o.

Em seu √ļltimo jogo no Morumbi, em 5 de agosto de 2010, o S√£o Paulo foi eliminado pelo Inter na semifinal da Libertadores e ficou marcada uma imagem sua chorando e abra√ßando o Rog√©rio Ceni no campo. Agora, voc√™ vai voltar a jogar no Morumbi em 3 de agosto, quase sete anos depois exatamente.
Sete anos depois, show de bola. Aquele foi um momento bem marcante. Eu queria muito ganhar a Libertadores. Assisti à final da Libertadores em 2005 no Morumbi, ainda em transição da base para o principal, e vi como o torcedor são-paulino se identifica com a Libertadores. Como não consegui, foi motivo de frustração, e também por estar deixando o São Paulo, clube em que me criei. Para falar a verdade, sempre gostei do São Paulo, é incrível a minha identificação. Mas agora, nessa volta, pensei: poxa, caramba, eu não sabia que gostava tanto assim do São Paulo. Essa volta foi bem legal porque eu não sabia que gostava tanto desse lugar e dessas pessoas. Aquele foi um momento marcante em 2010.

Como você define seu sentimento pelo São Paulo?
Eu me sinto em casa aqui. Eu estava falando com um amigo: sentir-se em casa é se sentir confortável, você poder ser você mesmo, não ter que mostrar nada para ninguém, porque as pessoas te conhecem. Isso pode até ser perigoso, porque você pode se acomodar. Mas me sinto em casa, esse é o sentimento que aflora.

Você imagina como vai se sentir jogando de novo no Morumbi na quinta?
As coisas mudam muito rapidamente no futebol. Voc√™ est√° me escalando, mas ainda n√£o temos a escala√ß√£o oficial para saber. √Č necess√°rio ter cuidado porque as coisas no futebol, como vimos no s√°bado, mudam muito rapidamente, o futebol √© din√Ęmico demais. Se eu entrar em campo, vai ser m√°gico. Espero ver o Morumbi lotado depois da vit√≥ria como foi e esse momento interessante que o grupo est√° vivendo, porque vem de vit√≥ria contra o Vasco, o empate contra o Gr√™mio, que √© uma grande equipe, e a vit√≥ria espetacular de s√°bado. O torcedor vai lotar o Morumbi e tem que lotar para nos dar for√ßa e apoiar. Ser√° mais um momento marcante. Ser√° m√°gico, m√°gico.

Se você pudesse escolher só um jogador que foi campeão brasileiro com você em 2007 e 2008, quem seria?
√Č, essa pergunta √© dif√≠cil… Contrataria o Rog√©rio. J√° que ele quis me contratar (risos).

Por quê?
Porque ele foi um √≠cone em todos os sentidos. Quando eu estava subindo para o profissional, ele foi em um programa de televis√£o e me deu moral. Para mim, foi muito satisfat√≥rio. O Rog√©rio Ceni falando bem de tu… Foi um dos momentos com ele que me marcou.

Pela sua relação bem próxima, pensei que você falaria o Jean.
Pensei nele também. Mas, agora, é meu rival (risos).

Ainda fala com ele?
Sempre mantivemos contato. Ele até brincou que, quando eu chegasse, ele viria ao São Paulo me receber. Somos irmãos, mais do que amigos. Vai ser legal jogar contra ele, nunca fizemos isso. Vai ser legal.

E por que você deixou essa barba?
Sempre gostei muito de cavanhaque e espero muito para deixar crescer, mas nunca crescia. Eu era f√£ do Felipe, ex-jogador do Vasco, que era canhoto e tinha o cavanhaque. P√ī, eu era f√£ dele em todos os sentidos. Sempre quis ter, mas nunca cresceu. Sempre tirei durante a semana de jogo para aparecer bem. Agora, na China, que fiquei um pouco sem jogar, sem aparecer, eu deixei. Na hora que cresceu, falei: olha, ficou bonito.

Fale mais dessa inspiração no Felipe (Ex lateral-esquerdo de Vasco, Flamengo, Palmeiras, entre outros).
Mais do que tudo, além de ser craque, ele tinha um estilo só dele. Muito estilo, muito estilo.

No s√°bado, foi emblem√°tico voc√™ falando ‘Aqui √© S√£o Paulo, pi’, para n√£o falar um palavr√£o.
E meu apelido de inf√Ęncia √© Pi. Meu pai que colocou esse apelido. Eu e meus irm√£os temos apelidos que n√£o t√™m explica√ß√£o.

E tem o filme ‘Aventuras de Pi’. J√° viu?
Não, mas eu estava lendo o livro até um tempo atrás. Parei na metade. Estava na parte em que teve tragédia no mar e ele estava sozinho no barco com o tigre.

Onde o São Paulo vai chegar neste Campeonato Brasileiro? Você tem como objetivo deixar o time na Libertadores?
No momento que est√°vamos vivendo, n√£o d√° para falar disso. Voc√™ precisa ter uma l√≥gica para planejar as coisas, sen√£o vira sonho, que √© um neg√≥cio meio ut√≥pico. Planejamento √© algo mais concreto que voc√™ vai para execu√ß√£o imediatamente. Meu planejamento era jogo ap√≥s jogo, ganhando resultados, sem olhar a tabela. Neste momento, ainda n√£o sei onde vamos chegar. Mas quero ganhar o maior n√ļmero de pontos poss√≠vel.

Você acha que o momento ruim já passou?
Não. Vínhamos em um trem bem decadente, mas chegou um ponto em que a curva começou a mudar. Conseguimos parar, agora estamos nos preparando para inverter a curva. Estamos no ponto da curva, é o momento de começar a pensar que podemos subir.

Você temeu vir para um clube que pode ser rebaixado?
Eu temi. Quando vi o S√£o Paulo na zona de rebaixamento, at√© falei para o Aloisio, que jogou aqui e estava jogando comigo: ‘N√£o, o S√£o Paulo n√£o pode cair, est√° louco’. Alguns dias depois, apareceu um novo contato e a primeira coisa que pensei foi na minha hist√≥ria, que √© t√£o bonita. Se eu viesse e ca√≠sse, poderia manchar. Eu estava em um momento bem complicado pessoalmente, porque as portas se fecharam para mim e eu buscava a reviravolta. Amigos meus estavam preocupados que eu n√£o jogava, mas avisei que estava treinando e me preparando para jogar. Mas uma coisa √© planejar e outra √© fazer. A√≠ o S√£o Paulo me chama. Pensei: ‘p√ī, eu que estou precisando de ajuda, por que o S√£o Paulo vai querer minha ajuda’. Temi por isso. Pensei: ‘vou l√° e, de repente, ca√≠mos juntos, mancha a minha hist√≥ria’.Mas minha esposa falou: ‘o S√£o Paulo est√° precisando de tu’. Ent√£o, aquilo me fez abra√ßar isso. Se cairmos juntos, caiu, ferrou. Mas, depois que voltei √° consci√™ncia de tudo que estava me preparando para fazer, percebi que era uma oportunidade fant√°stica que eu precisava. O S√£o Paulo me ajudou quando eu precisava. Foi um encontro das coisas.

O que você pode dizer às pessoas que duvidam de você, que dizem que você não joga há dois anos e foi parar na China?
Nada. Foi um jogo s√≥, n√£o quer dizer nada. S√≥ que n√£o √© assim, que n√£o jogo h√° dois anos. Na Inter, tive uma passagem legal. A Juventus me comprou por isso, n√£o foi l√° comprar um jogador e s√≥. No final da temporada 2014/15, eu estava em um momento muito bom na Inter e vivi um bom momento na Juventus. Nesses √ļltimos seis meses, realmente joguei muito pouco. Mas √© assim mesmo. Se voc√™ passar em uma obra, o que acontece: primeiro, fecham, isolam, n√£o deixam ningu√©m ver o que est√£o fazendo, como era o meu momento sozinho, isolado na China, em processo de constru√ß√£o. Agora √© continuar construindo, um tijolo de cada vez. Para fazer um pr√©dio.

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