Banner - Coluna do Paulo Martins

As vergonhas se sucedem à ponto de tornarem-se comuns, já nem chocam mais. Nem mais vergonhas são, principalmente para quem não tem brio. E quase nem ferem mais, dado o estado calejado em que nos encontramos. Até o conceito de sofrimento vem sendo alterado em nós, uma reengenharia de sentimentos. Afinal o que é sofrimento para quem não vê a bonança há muito tempo? O resultado disto é o vermelhidão dos assentos nas arquibancadas que chega a doer nos olhos.

E não há espaço para meias palavras: incompetência, inação, procrastinação, remanso, estagnação, omissão, fraqueza, isolamento, falta de noção de realidade, obscuridade, egocentrismo, soberba. A conjunção disso tudo tem feito o São Paulo de hoje.

Leco¬†√© um sujeito honesto, at√© que se prove o contr√°rio, cujo sonho sempre foi presidir o S√£o Paulo. Conseguiu. √Äs duras penas e por caminhos tortuosos, √© verdade, mas conseguiu. Todavia, a que custo? Sonho por sonho, eu queria ser astronauta. Mas, a come√ßar pela miopia que me acometeu na inf√Ęncia, logo percebi que n√£o daria certo. Se n√£o conseguia enxergar um caminh√£o-carreta trezentos¬†metros a minha frente, que dir√° a fenda de reentrada na √≥rbita terrestre h√° quil√īmetros de dist√Ęncia e voando r√°pido como uma bala… Por isso n√£o seria justo querer, a todo custo, colocar a vida de algu√©m em risco para realizar o meu sonho.

Percebem? O ditado ‚Äúquerer n√£o √© poder‚ÄĚ diz muito mais do que mera constata√ß√£o sobre a possibilidade. Requer an√°lise sobre as qualidades imperativas¬†√†¬†assun√ß√£o no posto sonhado. E vai mais al√©m: a capacidade de, na investidura dos poderes inerentes ao cargo e suas respectivas responsabilidades, seguir adiante em bom termo, √† altura das necessidades prementes que o cargo exige. Requer autocr√≠tica antes de come√ßar, sobretudo. Seria melhor n√£o ter come√ßado, mas agora j√° foi, ou melhor, est√° sendo. E desastrosamente, para nossa tristeza.

A ina√ß√£o do presidente fez¬†a verdade ir aos¬†telhados. Lideran√ßa, pulso, comando, assertividade, vis√£o s√£o qualidades que infelizmente n√£o s√£o vendidas na venda do S√™o Z√©raldo, s√£o-paulino sofredor daqui do Condado. Se fosse, juro que compraria e levaria para Leco, como presente de um s√£o paulino que n√£o aguenta mais ver este triste estado de coisas que se instalou no S√£o Paulo e, como um g√Ęnglio putrefato agarrado √† jugular deste gigante vivo, alimenta-se de toda vitalidade da institui√ß√£o, servindo-se dela ao inv√©s de servi-la.

Comandar o time do cora√ß√£o √© miss√£o para poucos e bons; e a omiss√£o no cargo √© uma ren√ļncia t√°cita √†s prerrogativas do posto, o pren√ļncio do desastre. Se na pr√°tica n√£o governa, √© justo valer-se do status concedido pela teoria? E se sim, isto interessa √† quem? Ao S√£o Paulo e a n√≥s, seus torcedores n√£o, seguramente.

As raras a√ß√Ķes, quando tomadas, na verdade s√£o rea√ß√Ķes. Leco s√≥ reage, proatividade zero. Quem s√≥ reage, jamais ser√° vanguarda. Apesar do esfor√ßo, Leco tamb√©m n√£o transmite credibilidade, n√£o passa firmeza no ‚Äúolho no olho‚ÄĚ. Obviamente, n√£o tem sido exitoso.

E se n√£o obt√™m o √™xito, se n√£o passa credibilidade e tampouco firmeza, como haveria de estabelecer uma cadeia de comando capaz de manter a ordem no espa√ßo que vai da mesa de nogueira at√© o gramado? Natural a baixa no moral da tropa. Compreens√≠veis —¬†apesar de¬†inaceit√°veis — as ‚Äúdeser√ß√Ķes de corpo presente‚ÄĚ que temos visto¬†em campo. Est√£o ali, mas na verdade n√£o est√£o, j√° foram faz tempo, salvo exce√ß√Ķes. Mas a culpa n√£o √© de todo dos que jogam. Quem comanda, observa, tem o gatilho para contratar ou n√£o e assina o cheque √© merecedor de maior parcela e deve responder por isso.

E o que dizer dos v√Ęndalos no s√°bado passado? De quem, diabos, partiu a ordem para abrir aqueles port√Ķes? E onde estavam os dirigentes? Em Cotia para inaugura√ß√£o de busto de Juvenal? Ora bolas… O S√£o Paulo exige muito mais preocupa√ß√£o com seu futuro do que com homenagens ao seu glorioso passado ou a quem tenha feito parte dele. Ou n√£o haver√° futuro. Melhor dizendo, haver√°: um futuro daqueles que ningu√©m ir√° se orgulhar de mostrar aos netos.

Ah, sim, Ata√≠de. O sa√≠do que nunca saiu e acabou voltando. Estranho? Parece desprovida de nexo a afirma√ß√£o? Evidente que sim. Do contr√°rio n√£o faria jus √† presen√ßa do dirigente nos quadros do S√£o Paulo, totalmente desconectada da realidade depois de tudo o que fez (ou o que deixou de fazer, n√£o sei ao certo qual seria a afirma√ß√£o apropriada) e por tudo o que fez a institui√ß√£o passar. A presen√ßa de Ata√≠de, pelo conjunto da obra, n√£o tem nexo algum no S√£o Paulo, mas √© o retrato fiel da situa√ß√£o do clube. Ata√≠de, p√≠fio na execu√ß√£o de suas tarefas, com promessas e mais promessas n√£o cumpridas, fez parte da nefasta gest√£o de Aidar e depois de uma situa√ß√£o muito mal contada, foi expulso do clube pelo¬†Conselho de √Čtica.

Mas tudo isso n√£o serviu como alerta √† Leco, que ainda o manteve por perto, pr√≥ximo ao time, gravitando sobre os cargos diretivos. Mas que diabos! Seus anos √† frente do futebol falam por si, e o escriba n√£o vai desgastar o papel discorrendo sobre ele. E n√£o √© que os resultados de sua ‚Äúgest√£o‚ÄĚ no futebol o sustentem no S√£o Paulo. √Č o contr√°rio: deveriam defenestr√°-lo. Poucas linhas, ostracismo. Aqui, dois¬†par√°grafos e olhe l√°. √Č o que merece.

Falemos sobre o √ļltimo da ‚Äúsant√≠ssima trindade‚ÄĚ, Gustavo. Sobrinho de Ra√≠, ‚Äúa lenda‚ÄĚ, era advogado do clube. Em 2013, com a sa√≠da de Adalberto Baptista, o comandante do ‚Äúdia-a-dia‚ÄĚ do clube. Como lastimavelmente n√£o h√° transpar√™ncia nos atos diretivos do tricolor paulista, Gustavo foi demitido ou saiu. Ou os dois. Ou nenhum dos dois! Sabe-se l√° o que houve, na verdade. Leco, sempre ele, o trouxe de volta no in√≠cio de sua gest√£o. E com uma altera√ß√£o importante: viria com sal√°rio duas vezes maior do que quando saiu e mais, o novo acordo contaria com b√īnus em cima do lucro da venda de jogadores, tanto da base quanto do profissional.

Apesar de alguns acertos, como Cueva, o S√£o Paulo viu-se protagonista de negocia√ß√Ķes estranhas, como a de Kieza que veio e se foi sem sequer dizer ‚Äúol√°‚ÄĚ. Esse entra e sai ‚Äď em determinados momentos com jogadores de qualidade duvidosa ‚Äď fez do S√£o Paulo um eterno recome√ßo. E esse costume de ser um time em eterna constru√ß√£o n√£o s√≥ se manteve como ficamos todos com a sensa√ß√£o de que se tornou ainda mais vigoroso, caracter√≠stica que, sen√£o decisivamente, certamente pesou para a sa√≠da de Osorio e tamb√©m de Bauza, os mais promissores para o cargo de treinador que chegaram ao S√£o Paulo nos √ļltimos tempos. Gustavo acabou tendo sucesso naquilo que n√£o quer√≠amos: fazer do meio, um fim, ou seja: compra e venda com finalidade de lucro financeiro.

E o ‚Äúlucro desportivo‚ÄĚ? Se houvesse uma conta no balan√ßo do S√£o Paulo para esta finalidade, certamente estaria negativada, como preju√≠zo acumulado. Nesse aspecto, √© preciso analisar qual √© o objeto, hoje, do S√£o Paulo Futebol Clube. Se n√£o √© mais ter um time que honre as tradi√ß√Ķes, ent√£o que isso seja posto no estatuto do clube e que passe a ser uma entidade com estrita finalidade de lucro financeiro.

A√≠ n√≥s, torcedores, estaremos cientes de que realmente se trata e talvez nos conformemos em¬†comemorar balancetes de verifica√ß√£o, balan√ßos, ficando¬†orgulhosos e colocando na parede p√īsteres dos demonstrativos de muta√ß√Ķes do patrim√īnio l√≠quido, demonstrativos de origens e aplica√ß√Ķes de recursos e etc chancelados pelo S√£o Paulo. ¬†Evidente que a boa administra√ß√£o passa por atitudes conservadoras, prud√™ncia, que ser√£o evidenciados nessas pe√ßas cont√°beis. Entretanto, enquanto clube de futebol for, saibam: a rota est√° errada, o ve√≠culo n√£o √© apropriado, o motorista n√£o serve, o combust√≠vel √© caro e o destino n√£o √© onde n√≥s, torcedores, queremos chegar.

Uma administra√ß√£o de vanguarda passa pela gest√£o de homens probos, s√©rios, austeros, competentes e comprometidos com a causa. Louve-se o fato de o S√£o Paulo n√£o atrasar sal√°rios e, em tese (veremos no balan√ßo do ano que vem), ter diminu√≠do suas d√≠vidas estratosf√©ricas para os padr√Ķes que uma entidade minimamente s√©ria. Mas √© pouco. Ali√°s, isso √© a obriga√ß√£o. E ningu√©m falou que seria f√°cil e tampouco foram obrigados a aceitar a fun√ß√£o.

Em s√≠ntese… Leco, se ama o S√£o Paulo como diz que ama, fa√ßa um favor ao seu clube do cora√ß√£o: renuncie e leve com voc√™ todos esses que voc√™ nomeou. Voc√™ faz parte do per√≠odo mais negro da hist√≥ria do S√£o Paulo, que se iniciou com o golpe de Juvenal Juv√™ncio, n√£o h√° mais como mudar tal coisa. Mas ainda h√° tempo de mostrar hombridade, desprendimento, abnega√ß√£o e amor ao S√£o Paulo. Voc√™, presidente, n√£o √© o ponto de alavancagem em que¬†o clube precisa se apoiar e tomar impulso para sair do buraco. Se tal coisa¬†significar uma interven√ß√£o, que assim seja. Ou ent√£o isso ter√° que ser feito na S√©rie B ou mergulhado nas agruras de uma bancarrota, algo muito pior.

Paulo Martins