Banner - Coluna do Paulo Martins

H√° algo diferente. Sem d√ļvidas, h√°.

Um estalo. Um estardalha√ßo… Uma revolu√ß√£o! Exagera o escriba. Pois que seja! Porque aonde era habit√°culo do remanso, morada do ‚Äúvai que √© sua que eu n√£o vou‚ÄĚ, hoje reina o brio. O BRIO!

O brio √© sentimento inerente daquele que n√£o aceita perder, daquele que √© indolente com a derrota, que rem√≥i com todas as suas for√ßas cada segundo que antecedeu o erro que lhe custou a vit√≥ria. O brio agu√ßado √© a primeira caracter√≠stica de quem vence. E ter onze briosos em campo √© o componente inicial de qualquer time vencedor. O brio √© o amor-pr√≥prio. √Č amar o que se faz, √© fazer com abnega√ß√£o de monge e disciplina oriental a ponto de n√£o aceitar, de forma alguma, o fracasso.

Rinus Michels não seria capaz de fazer vingar um time com onze craques molestados pelo desdém. Muricy menos ainda. Mas é preciso dizer que, com a saída do treinador, algo mudou. A mudança mexeu no íntimo dos atletas, de alguma forma.

E n√£o foi pouco, meus amigos. N√£o √©. Voc√™s ‚Äď n√≥s todos, a bem da verdade ‚Äď est√£o lembrados. ¬†Algum tempo atr√°s, o fim de jogo era um desfile do pior comp√™ndio j√° feito sobre o desd√©m. Era o festival do ‚Äúvamos segui trabalhando…‚ÄĚ, do ‚Äúda pr√≥xima vez n√£o poderemos dar bobeira…‚ÄĚ, do inquietante ‚Äú√© pensar no pr√≥ximo jogo…‚ÄĚ. Sempre o pr√≥ximo e nunca, jamais, aquele rec√©m terminado. O S√£o Paulo estava aprisionado, ref√©m de uma espera sem fim, algo como perseguir o pote de ouro no fim do arco-√≠ris. A trag√©dia dantesca de um ac√ļmulo sem fim de decep√ß√Ķes!

Ah, meus iguais… E onde havia de estar aquela dor da derrota que r√≥i os ossos, que faz estalar as jun√ß√Ķes mandibulares como se quis√©ssemos arrancar um peda√ßo do mundo com os dentes? Que fim levou? Ningu√©m, daqueles onze de branco, padecia disso. O jogo era, insofismavelmente, um espet√°culo cat√°rtico. Mais: quem se encorajava a assistir √†queles sujeitos em campo, saia dali neur√≥tico, doente. Porque do√≠a como fogo-selvagem. D√≥i como fogo-selvagem!

Meus iguais, voc√™s sabem. O futebol n√£o √© ci√™ncia exata. √Č, talvez, a ci√™ncia humana de maior vi√©s sobrenatural que a hist√≥ria da humanidade j√° viu. Que √© ci√™ncia, n√£o tenho d√ļvidas. Porque prod√≠gios saem dali, daqueles caldeir√Ķes de concreto, como se fossem elixires capazes de atenuar todas desgra√ßas das outras coisas mais importantes. Ora, ent√£o me digam: n√£o √© mais f√°cil tolerar uma desilus√£o amorosa com um t√≠tulo mundial no bolso, rec√©m-conquistado? O contr√°rio tamb√©m se aplica: n√£o se faz insuport√°vel o trajeto para a casa, ainda que a bordo de um superesportivo, depois de uma goleada do rival? O futebol √© uma das maiores inven√ß√Ķes do homem, porque √© a s√≠ntese da vida em turnos de noventa minutos, Reparem: h√° de tudo ali.

Mas voltemos à nossa epopeia.

Semanas atr√°s, cheios de dedos, detratores at√© babavam fazendo cosplay de cavaleiros do apocalipse. O que mais se ouvia, de modo geral, era de que todo o jogo seria praticamente um arroubo suicida daqueles onze. Iam ao encontro da morte em turnos de noventa minutos. Iam para perder. E perdiam. Perdiam o jogo. E junto dele a vergonha. Foi num desses, numa noite daquelas, de meio de semana, que por algum motivo eclodiu algo diferente, que ricocheteou nas paredes dos aposentos do vesti√°rio n√ļmero um do C√≠cero Pompeu de Toledo. E atingiu em cheio a todos. E foi se espalhando, foi ventando por todo o pa√≠s e a qualquer lugar onde houvesse um irm√£o em tr√™s cores, eu imagino. Mas o qu√™, de fato, se espalhou, o escriba n√£o sabe dizer ao certo. S√≥ sabe que √© novo, diferente e eficaz.

√Č estranho at√©. Sobrenatural. Porque aquela cancha pisada pelos onze tricolores era terra arrasada, √°rida, quase inf√©rtil. A√≠ me lembro da f√©. E a f√© faz dessas coisas. A f√© faz brotar flores no paralelep√≠pedo, √© capaz de fazer surgir lavouras em l√°pides de concreto. A f√© derrete o chumbo do c√©u! E tem muito de f√© nisso tudo, mais, muito mais do que imagina a v√£ filosofia das pranchetas, que tamb√©m tem seus m√©ritos nisso que √© novo.

E nos contagiou a todos.

Aos poucos, um a um, os degraus foram sem enchendo. Era gente no concreto e ao redor dele. Gente em casa. Gente no trabalho. Todos em comunh√£o. Era a festa sem raz√£o de ser e com toda raz√£o do mundo (v√° entender!). Era a nau sobre rodas carregando os nossos naquele o mar de gente. Gente nossa! Mar de gente vermelha, preta, branca, rica, pobre, baixa, alta… Mar de iguais, na democracia mais perfeita do mundo. No mundo mais perfeito poss√≠vel. √Č fato, todos n√≥s sentimos que havia algo de diferente, naquela noite de quarta-feira.

Havia tudo armado para a trag√©dia. Absolutamente tudo! As prepara√ß√Ķes para a estocada final haviam sido rigorosamente feitas. O advers√°rio tinha sua for√ßa reconhecida e queria de todos os meios eliminar o maior vencedor brasileiro de todos os tempos. Muitos dos nossos detratores acima citados o havia posto num pedestal, como se n√£o pertencesse mais √† realidade latino-americana, como se fizessem por merecer disputar outras contendas no al√©m-mar, como seres de uma casta diferenciada. Viriam com tudo o que tinham, para eliminar o S√£o Paulo.

Pois bem, o brio… O BRIO! Do goleiro ao √ļltimo homem de frente. Foi t√£o intenso que jogamos s√≥s. At√© porque n√£o havia mais espa√ßo em campo. Defend√≠amos e atac√°vamos em un√≠ssono: time e torcida. O gramado abarcava milh√Ķes e n√£o causava estranheza que o advers√°rio n√£o tivesse espa√ßo para jogar. S√≥ havia um time em campo, o mais brioso, o mais feroz, o mais querido. Duelaram em todos os lances, disputaram todas as bolas. Deram tudo, sofreram… Quando n√£o era poss√≠vel alcan√ßar o advers√°rio, partiam por amor √† causa perdida, acreditavam que era poss√≠vel.

Foi. A coisa, como um todo, encaixou.

Aquele levante, emblemático, pode ter trazido a lição definitiva: a compreensão de que, sem sofrimento, nada prosperará.

E dali em diante, o rumo parece ter mudado. O comando, mais discreto e assertivo, trabalha calado, mostrando o caminho das pedras, instruindo por situa√ß√Ķes reais, aplic√°veis, usando sem d√≥ a m√°xima de que todo veneno tem seu rem√©dio apropriado. Por certo, tais atitudes oferecem aos comandados o conforto do previs√≠vel, de saber o que os espera, de haver incorporado √† sua natureza ‚Äď ainda que em t√£o pouco tempo ‚Äď um repert√≥rio capaz de faz√™-lo apto √†s situa√ß√Ķes que se apresentam.

A bem da verdade, se n√£o quiser ler o texto todo novamente, leia somente o √ļltimo par√°grafo. Pode estar ali boa parte dos motivos do renascimento. Mas leia tamb√©m o t√≠tulo.

Nada seria desse time sem o brio. Como prescreve, emblematicamente, a carta de São Paulo aos Coríntios: sem amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.

S.P.F.B.C. ‚Äď S√£o Paulo Brio Futebol Clube!

Por: Paulo Martins