Ilhas de temperamento em um mar de indiferença

Não surpreende que o São Paulo mostre fragilidade em jogos importantes e clássicos quentes. Foi a escolha de quem contrata. O perfil do elenco não permite nada de muito diferente. Em janeiro, o presidente Carlos Miguel Aidar declarou que “agora sou eu quem cobra Muricy. O Muricy não me cobra mais”. Aidar acreditava em uma equipe completa. Na saída do Allianz Parque após a derrota desta quarta por 3×0, o diretor Ataíde Gil Guerreiro se declarou excessivamente irritado e afirmou que vai cobrar severamente o grupo e a comissão técnica.

O próprio Muricy já não esconde mais as olheiras. Semana passada, contra o San Lorenzo, tirou Ganso aos 43 do segundo tempo. Para mim, de forma maliciosa, quis expor o jogador às vaias. Noventa segundos depois o gol da vitória saiu e a pauta não entrou nos vestiários. Uma semana depois Ganso voltou a mostrar completa indiferença com o ofício, desta vez tratando como normal a derrota sem brios para um rival. Ganso, de potencial imenso, é um dos monumentos à frieza passiva que o Tricolor cultiva e desfila.

Tolói e Dória, dois garotos ingênuos e vaidosos, provavelmente não darão ao São Paulo a Libertadores que o Lugano garantiu uma década atrás. O Pato se explica sozinho. Luis Fabiano pesa no orçamento e no dia-a-dia. O elenco é caro, não tem recebido em dia, e o Rogério Ceni, que poderia ter dito “parei por aqui, entrego minhas luvas e deixo meu time classificado para a Libertadores”, tem de lidar com um dos ambientes mais desalmados que ele já viu no clube. O goleiro, que não é um santo, é um vencedor. Este São Paulo não dá qualquer sinal de que também será.

E neste cenário de descrença mútua entre as esferas diretiva, técnica e futebolística, é a torcida do São Paulo a única boa notícia. Vai pouco ao Morumbi no campeonato paulista, foi afastada do estádio na Libertadores, mas está questionando, se organizando para ter voz contra o destratamento a que é submetida nos campos econômicos e comportamentais, liderando o que é, talvez, hoje, o único movimento de real esforço coletivo por algo a favor do São Paulo.

Rogério Ceni é uma ilha. Muricy é outra ilha. A torcida está ilhada. Cada vez mais ícones e menos efetivos. A direção montou o time mais caro possível, e errou vergonhosamente na escolha do perfil de seus atletas. E não vejo ninguém capaz de ser a ponte que liga tantas ilhas.

por: Leandro Iamin
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