Banner - Coluna do Paulo Martins

A quarta-feira de cinzas é um dia paradoxal. No Brasil, Momo abdica do trono por um ano e o povo começa a se refazer da folia que toma conta do país. No mínimo, celebra-se o descanso prolongado. Uma ode ao arrefecimento, a desaceleração da vida. Mas dentro de campo, geralmente a coisa ferve.

Ainda me refazendo da correria que foi para mim este carnaval (qualquer hora dessas esses dias viram uma cr√īnica, quem sabe…), de repente me lembrei que era dia do primeiro “Majestoso” do ano, este pela Libertadores.

Atarantado por uma virose que quase me fez naufragar no menos nobre dos mares, avisei ao chefe que n√£o teria condi√ß√Ķes de cumprir com o expediente no escrit√≥rio e fiquei em casa. Com uma caneca de caf√© nas m√£os e dois comprimidos de Imosec sobre a mesa, me pus a folhear os jornais do dia. Tenho esse h√°bito desde adolescente. Assino tr√™s jornais di√°rios. O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e o Jornal Agora SP. Eles seriam o meu term√īmetro para o cl√°ssico de logo mais a noite, desanimado que estava para sentar em frente ao computador para apurar melhor as not√≠cias.

Pois bem, vi que Muricy ensaiava uma forma√ß√£o diferente. Os convocados para o banco sinalizavam isso. Me pareceu uma convoca√ß√£o ligeiramente diferente do habitual. Poderiam ser tr√™s zagueiros, poderiam ser seis homens no meio-campo e somente um no ataque… Enfim, op√ß√Ķes. Pensei um pouco e balbuciei: “Oremos! Quem sabe variando um pouco o time encaixa e d√° certo!”. O futebol tem disso.

Entre um trago e outro do meu fumegante amigo de todas as horas, pus-me a pensar em varia√ß√Ķes t√°ticas. Imaginei um time com tr√™s zagueiros e tr√™s atacantes. Depois pensei num time com os mesmos tr√™s zagueiros e dois alas. Fui conjecturando e plantando um a um no meu gramado imagin√°rio… Ent√£o algu√©m do r√°dio (um h√°bito que tenho, deixo muda a TV e ligo o r√°dio para “casar” com a imagem) soprou os onze. Me senti mal. E n√£o eram as dores no abdome que tamb√©m me faziam vergar.

Pois veio o jogo. Eu, por motivos √≥bvios, bastante fragilizado, n√£o estava “no clima”. Culpa minha, n√£o deles. O time entrou em campo. O gramado, mais negro que verde, fervia. Mesmo debilitado, mantive f√© (sempre mantenho) e a confian√ßa adv√©m disto. Durou pouco. A confian√ßa desistiu de mim, foi me abandonando aos poucos, como a areia deixa a metade de cima da ampulheta conforme o tempo passa.

Inexplicavelmente, mais do mesmo. O mesmo time que n√£o funciona, o mesmo abatimento, a mesma apatia, os mesmos gestos √† beira do gramado, as mesmas express√Ķes…

Com dois centro-avantes como homens de frente, o ataque ficou lento. Tite, esperto, avan√ßou a linha da zaga, de modo que ou ficavam em impedimento ou, ap√≥s desvencilhar do primeiro marcador, n√£o tinham pernas para seguir adiante e eram presas f√°ceis para a sobra. A coisa estava t√£o f√°cil que Gil n√£o se contentou em anular somente Kardec e ajudou a matar Ganso, inoperante na partida. Muricy nem parecia surpreendido no banco. Parecia aceitar, parecia jogar para eles, n√£o para n√≥s. “Jogai por n√≥s, por n√≥s… POR N√ďS!”, orava em sil√™ncio.

Porque não há como encarar de outro modo o fato de deslocar um jogador lento e fraco na marcação para acompanhar o rápido e eficaz Elias, que contra o São Paulo, inexplicavelmente, tem um retrospecto incrível e sempre marcando gols da mesma maneira.

O tricolor, modorrento, tocava de lado como se tivesse vencendo. Um dom√≠nio que n√£o era dom√≠nio, era engodo. Sem inspira√ß√£o, sem jogadas ensaiadas, sem velocidade, sem dribles… “Terra arrasada”, pensava eu, analista. “Exagero meu, acho”, me corrigia, torcedor, mentalmente. O analista estava mais pr√≥ximo da verdade.

Um dos nossos maiores destaques, que poderia causar mais danos ao advers√°rio, relegado a conter o avan√ßo do lateral-direito deles. Essa parece ser a mentalidade: impedir o advers√°rio de jogar ao inv√©s de fazer o pr√≥prio time jogar. O problema √© que, quase sempre, s√≥ vence quem joga. Quem s√≥ anula, no m√°ximo n√£o perde. No m√°ximo…

Eu queria substituir o conte√ļdo do copo. Caf√© por Whisky. O tempo passava e nem ao menos um m√≠sero chute a gol sequer. Um!

Pois veio o segundo tempo e o segundo gol, em jogada irregular. E justo dele, Jadson, que foi de gra√ßa e joga, enquanto que a contrapartida, por motivos contratuais — e se n√£o fosse por isso seria por inexpli√°vel convic√ß√£o “birr√≠stica” do treinador — cria limbo fora de campo.

Do outro lado, jogadas pelos lados do campo, infiltra√ß√Ķes pelo meio, movimenta√ß√£o… Tudo isso em dois meses. Dois, n√£o dezoito. DOIS! E me vem √† mente uma oportunidade em que Muricy, ao ser perguntado por um rep√≥rter sobre o fato de Tite ter ido se atualizar fora do pa√≠s, desdenhou da situa√ß√£o.

Pois √©… Pois √©!!!

Ent√£o, meio b√™bado de sono, fraco pela doen√ßa e desapontado pelo resultado do apito final — por√©m sereno, visto que venceu quem jogou melhor –, compreendi que o fato de o tricolor fazer √°gua em cl√°ssicos, principalmente nas m√£os deste comandante, diz respeito √† total neglig√™ncia deste no preparo psicol√≥gico, mental dos jogadores. Frescura para o treinador, que entende como motivacional apenas “receber em dia” e trabalhar num lugar estruturado, √© uma das chaves para desequilibrar um confronto parelho, tipicamente um cl√°ssico. Tratar bem com comida boa (receber em dia) e boas instala√ß√Ķes √© algo muito eficaz para criar gado, por exemplo. E o of√≠cio do gado, em regras gerais, √© ir ao abate.

Muricy parou no tempo. Ou o futebol que ronda sua mente pertence ao passado ou n√£o tem condi√ß√Ķes de aplicar o que pensa aos seus comandados. E faz tempo. Aquele vexame com o Santos fez cair o v√©u da noiva, mas ao que parece, manteve as escamas nos olhos de alguns, principalmente de quem contrata.

Entre um trago e outro, notei que foi Muricy quem deu um n√≥ t√°tico… No S√£o Paulo! O tricolor n√£o sabe o que fazer em campo. O advers√°rio, inferior, tem um treinador que o faz jogar pr√≥ximo do seu limite o tempo todo. O S√£o Paulo, superior, tem um treinador que n√£o consegue transformar o que tem em um time. D√° pena v√™-lo, esva√≠do e fragilizado, a beira do campo.

Agora, c√° entre n√≥s, Muricy: aquela hist√≥ria de alterar o time para o jogo, de convocar para o jogo jogadores que sinalizavam mudan√ßa t√°tica no time era um blefe para causar d√ļvida em Tite? Se for, me perdoe, mas voc√™ deveria ter a hombridade e a dignidade de pedir para sair. Porque s√≥ blefa que n√£o tem boas cartas nas m√£os. N√£o √©, nem de longe, o seu caso.