Banner - Coluna do Paulo Martins

Caro Papai Noel Aidar,

Neste ano eu fui um bom menino. Trabalhei muito duro. ‚ÄúSegunda a sexta… Segunda a sexta‚ÄĚ… Coloquei ‚Äúos miudinho‚ÄĚ aqui do escrit√≥rio para marcar os flancos, a sa√≠da de documentos, a entrada de recursos, protocolos… At√© porque os extravios de documentos e dinheiro punem, eu sei. Ent√£o me precavi. Quase n√£o tive tempo para preparar o meu time, mas jogamos ‚Äúquarta e domingo, quarta e domingo‚ÄĚ assim mesmo. S√≥ sei que ‚Äúos cara t√£o no limite, meu‚ÄĚ. Culpa do calend√°rio, certamente, que teve muito pouco feriado em 2014. Mas quanto a isso, nada pode ser feito, diferentemente daquele imposto pela CBF, assunto que trataremos adiante, na minha lista de pedidos. Sei que fiz o que pude, com as armas que tive. E sofri, de um jeito e tamb√©m do outro. Mas tive momentos bons,¬†justi√ßa seja feita. Inesquec√≠veis! Dos quais sou grato, claro.

Estou escrevendo isso, caro Papai Noel Aidar, para dizer que fa√ßo jus √†s prerrogativas de um torcedor que sofre e que, portanto, anseia por um pouco de alegria. N√£o √© nada demais, basta que voc√™ fa√ßa o seu trabalho corretamente. E fazer corretamente, no mundo da bola, n√£o quer dizer que seja infal√≠vel, que d√™ 100% de certeza de t√≠tulo. √Č claro que queremos ser campe√Ķes, mas h√° o imponder√°vel, de modo que garantir vit√≥rias √© correr atr√°s do pote de ouro no fim do arco-√≠ris.

Sabe, Papai Noel Aidar, o S√£o Paulo √© grande. L√≥gico que¬†o Sr. deve saber. Mas n√£o √© grande somente pelos t√≠tulos que conquistou. √Č grande pela nobreza e car√°ter de seus dirigentes, pela fidalguia no trato com os advers√°rios, pela grandeza de seus jogadores, pelo alto valor de seu capital intelectual dispon√≠vel na seara de pessoas que o cercam; pela solidez e grandiosidade de seu patrim√īnio, pela austeridade de seu modus operandi administrativo, pela vanguarda de suas a√ß√Ķes, por sua voca√ß√£o vencedora e, por fim, pelo paradoxo da imensid√£o do que √© intang√≠vel — neste caso me refiro √† f√©!

O que escrevo aqui √© Hist√≥ria, caro Papai Noel Aidar. N√£o √© ran√ßo, tampouco mania de grandeza ou soberba. De modo que, nessa cartinha, gostaria que prestasse bastante aten√ß√£o no par√°grafo acima. Sem falsa mod√©stia ‚Äď apenas convic√ß√£o de torcedor ‚Äď creio que nosso diferencial come√ßa fora de campo e s√≥ ent√£o se imp√Ķe dentro das quatro linhas.

E então, como fui um bom menino, vou descambar a pedir uma porção de coisas. Se prepare, porque eu vou lhe usar!

Considerando que o primeiro requisito para exercer o cargo o Sr. j√° tenha, afinal me passa a impress√£o de ser um sujeito nobre, de car√°ter, pe√ßo fidalguia no trato com os advers√°rios. A rivalidade faz parte do jogo, mas olhar tudo por este vi√©s √© como caminhar¬†sobre o fio da navalha. Basta um escorreg√£o e tudo estar√° em risco. √Č preciso ter respeito pela hist√≥ria dos outros e em muitos momentos isso faltou, n√£o √©? Acho que tens consci√™ncia disto. Ent√£o vieram pol√™micas, palavras duras e desrespeitosas de todas as partes… Plantada estava a¬†desuni√£o, que nos impede a todos, de lutar por um ‚Äúmundo do futebol‚ÄĚ melhor. Porque enquanto voc√™s, diretores de clubes, se engalfinham, gente l√° em cima se regozija. O plano deles segue firme: dividem para vencer e voc√™s, divididos, brigam para perder, quando deveria ser “estarem juntos para ganhar”. Como torcedor, n√£o acho legal essa acidez no trato com o advers√°rio. Tenho a impress√£o de que muita gente, a maioria, n√£o gosta. Ent√£o, por gentileza, seja GENTIL com os advers√°rios. Seja fidalgo.

Isso, certamente trar√° benef√≠cios para mudar aquilo que parece imut√°vel: o futebol brasileiro. Sendo fidalgo, angaria-se apoio. Nesse caso, dos clubes. As federa√ß√Ķes s√£o os clubes. Se os clubes, em bloco, pressionarem, ent√£o ter√£o nas m√£os as r√©deas de seus destinos. Da√≠ ser√° “um pulo” para bater √† porta de quem deveria cuidar do futebol brasileiro, solicitando mudan√ßas. Um ponta-p√© inicial formid√°vel seria a mudan√ßa no calend√°rio. Mas, simplifique. J√° tem gente lutando por isso. Converse com o pessoal do Bom Senso Futebol Clube. Sei que h√° arestas entre eles e os clubes. Sua tarefa ent√£o, caro Papai Noel Aidar, √© dissuadi-los a deixar de lado essas diferen√ßas e dar import√Ęncia para o que √© maior, algo que melhore para todos, para que encampem, juntos, a briga por um calend√°rio mais justo. √Č o come√ßo de tudo. Compet√™ncia n√£o lhe falta. Por isso, reitero: seja fidalgo!

Papai Noel Aidar, sou sabedor da realidade do futebol brasileiro. O momento econ√īmico √© ruim e por uma s√©rie de circunst√Ęncias que nada t√™m a ver com a bola, mas isso √© outro assunto. Contudo, pe√ßo um esfor√ßo a mais para com o time. Quero dizer: seja criterioso para contratar. Se est√° sem inspira√ß√£o, seja humilde e volte seus olhos para os caminhos trilhados por Marcelo Portugal Gouveia. Viu s√≥? Nem precisa ir muito longe nos livros hist√≥ricos. A palavra de ordem √© potencial. Dentro de campo, √≥bvio. Precisamos de um zagueiro que seja, al√©m de craque na posi√ß√£o, um l√≠der. Um bom primeiro volante tamb√©m n√£o faria mal. E um bom meia de liga√ß√£o para dividir o fardo com Ganso seria o ideal. Sei que √© dif√≠cil, mas n√£o custa pedir. Lembro que nos idos de 1987, minha fam√≠lia vivia um aperto de dar d√≥ e mesmo assim o seu colega Noel, o gen√©rico, me mandou uma Monark preta lindona. Ent√£o n√£o custa tentar. E olhar com carinho para as categorias de base, para que garimpem aquele que realmente sabe jogar mais bola, n√£o necessariamente o mais alto, o mais forte…

Espero, caro Papai Noel Aidar, que o Sr. faça no clube as reformas que acha necessário, por convicção de que será melhor para o São Paulo. Que utilize critérios técnicos e não políticos para preencher cargos. Como falei, historicamente, há muita gente boa gravitando em torno do Morumbi. Basta olhar com cuidado, tendo como premissa o bem da entidade como um todo, mas fundamentalmente o futebol, que é o que de fato mantém o clube em pé.

Quero tamb√©m, caro Papai Noel Aidar, um cuidado especial com o patrim√īnio do clube, sobretudo a parte financeira. O S√£o Paulo sempre foi um clube s√≥lido, mesmo nos tempos de maior aperto financeiro, como na constru√ß√£o do gigante sacrossanto de concreto. Pelo que temos visto nos √ļltimos tempos, as d√≠vidas t√™m aumentado exponencialmente. Preocupa, tamb√©m, alguns adiantamentos de receitas feitos. N√£o vou mencionar este ou aquele presidente. Falo da institui√ß√£o. E tenho consci√™ncia que administrar muitas vezes √© aplacar o frio com cobertor pequeno, hora os p√©s ficam de fora, hora a cabe√ßa… Mas pense na continuidade, n√£o s√≥ na sua gest√£o. At√© porque, essa coisa de pensar s√≥ no hoje tem deixado ‚Äúterra arrasada‚ÄĚ por onde passa. Ser criativo, achar solu√ß√Ķes, ver oportunidade onde a maioria v√™ problemas. Ser vanguarda, em suma.

Ah, sim… Continuando: voca√ß√£o vencedora. Sabe o que √© isso? √Č entrar em cada disputa para vencer. √Č se preparar para o topo e manter-se nele. √Č n√£o ter como objetivo somente ‚Äúparticipar‚ÄĚ. √Č correr no Brasileir√£o para ganhar, n√£o s√≥ pela Libertadores. √Č disputar a Libertadores querendo com todas as for√ßas rasgar o “mapa mundi”¬†com os p√©s para cravar a bandeira de tr√™s cores naquele solo que bem conhecemos, coisa que, invictos, fizemos tr√™s vezes. At√© porque, n√£o se ganha o mundo em casa.

Por fim, a imensid√£o do intang√≠vel: a f√©! N√£o subestime a f√© que gira em torno deste clube. √Č ela que sustenta aquele¬†concreto que abarca todos os nossos sonhos. Portanto, use-a a seu favor! N√£o seja c√©tico: creia! Fa√ßa o seu trabalho com discri√ß√£o, seja assertivo, tome todas as precau√ß√Ķes ao planejar e decida sempre em favor do clube, execute com precis√£o. A colheita s√≥ ocorre depois do plantio, mas n√£o somente por isso. Durante todo o processo o homem do campo teve f√© de que choveria no lugar certo, na hora certa e na quantidade certa, compreende? E ent√£o tenha f√© naquilo que fez e far√°. Acredite! Por mais intang√≠vel que pare√ßa, a f√© √© o componente que liga, uns nos outros, todos os outros fatores que produzem o sucesso. N√≥s, torcedores, sempre acreditamos. Sempre acreditaremos!

E, se n√£o for pedir demais, avise o seu colega gen√©rico que tamb√©m quero aquilo tudo de sempre: alegria, sa√ļde e paz. Para mim e para o mundo todo! E que ele n√£o se esque√ßa da minha Caloi!

Um forte abraço, caro Papai Noel Aidar.