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Andar com Fé

Não tem sido fácil.

Um flagelo em campo, sob as três listras, que corre, luta, que se esvai. Outro flagelo fora, de terno e gravata, que age (?) nos bastidores e que se não fosse o imponderável parte integrante do esporte, selaria por completo o destino tricolor. E há ainda um terceiro flagelo, o que parece se regozijar com o momento, que faz uso do espaço que tem para escrever sobre o tricolor “com um sorriso no canto do teclado”. Deixemos este terceiro para escanteio, por enquanto, até porque não vale muito a pena… E falemos do imponderável.

Sim, há o imponderável no esporte. No futebol especificamente, ele interfere mais. Uns chamam de fé. Outros, de sorte. E há aqueles que até o chamam com nome e sobrenome, tal qual Nelson Rodrigues, o pai da crônica esportiva, o chamava: “Sobrenatural de Almeida”, que em 1981, ano do nascimento do escriba, se tornou personagem. Há também aqueles  que chamam de “fase”. O pai do escriba costuma chama-lo de “gol espírita”, aquele gol feito com a ajuda do sobrenatural, do improvável. Foi um termo bastante usado por radialistas e locutores esportivos nos anos 70 e 80. Hoje não mais, creio que por conotações religiosas. Outra bobeira, coisas de um mundo que anda chato demais!

O fato é que, independentemente da maneira que seja chamado, poucos duvidam de sua existência.

Como venho dizendo há algum tempo, embora haja o peso de um planejamento bem feito, boas contratações, bom treinador, boa comissão técnica, tudo ajustado e afinado, o futebol é um esporte deveras circunstancial.  O peso das circunstâncias do momento é brutal sobre o andamento de uma partida ou até de um campeonato. E é aí que o imponderável age!

Alguns jogos do SÃO PAULO são bons exemplos: o time joga bem, tem volume, cria. Mas a bola não entra, o gol não sai. Lembro-me que em algumas partidas (como contra o Cruzeiro, recentemente) os chutes a gol do SÃO PAULO paravam nos bloqueios da defesa, a bola sequer entrava na área para chegar até o gol. E quando passava, como recentemente contra o Milan, o goleiro adversário estava em tarde inspiradíssima, sendo um dos melhores da partida. Contra a Portuguesa, penúltimo jogo, foi assim no segundo tempo: o SÃO PAULO pressionando e de repente a bola fica quicando, viva, na entrada da área e cai nos pés de Diogo, que fuzila ROGÉRIO CENI e coloca ponto final na partida. Ontem, em alguns momentos, também tive essa sensação. Um maldito dejavu!

A bola não tem entrado. E isso a meu ver tem gerado grande instabilidade ao time. Destaco duas situações em especial: a) quando o time está perdendo e a bola não entra, causando certo esmorecimento. A intensidade cai, o time passa a sofrer pressão e a derrota é consequência; e b) quando alcança a vantagem,  inconscientemente até, recua por medo de não ser capaz de aumenta-la. Vem a pressão e o empate, quando não a derrota. Um círculo vicioso, pois.

Mas, não nos esqueçamos de que não há “script” no futebol, há o imponderável.

Trata-se da fé! Gosto de chamar assim: fé. Porque somos o time da fé. E porque, em síntese, sou adepto do “Porque com fé em vou, que a fé não costuma faiá”, como diz o verso de “Andar com Fé”, de Gilberto Gil. Mas agora a fé não está na maré, nem na lâmina de um punhal e tampouco no calor do verão, como diz a canção. A fé está dentro do insondável manancial de pensamentos do solitário que escolhe os protagonistas. Está sobre a grama. Está dentro e fora da baliza do gol, na bola que deve entrar e na que não. Está sobre as travas das chuteiras dos escolhidos. Está nas internas de concreto que sustentam o grito de uma nação que sofre. Que sofre, hoje, as demoras do imponderável. Está no próprio grito desta!

O curso dos acontecimentos poderá manter-se na mesma direção? Sim, poderá. Aliás, muitos já não  se contêm e declaram seus veredictos. Uns com mais coragem, outros com ressalvas, até sob os subterfúgios da escrita no futuro do pretérito ou na condicional. Talvez sejam herdeiros da obra e legado de Emmett Brown ou possuidores de poderes mediúnicos de pitonisa. Mas quem pode garantir que tudo não mude de uma hora para a outra? As vezes tenho a impressão de que certas opiniões carregam subliminarmente a intenção de cercear o torcedor do seu direito inalienável de acreditar na reviravolta, no renascimento, por mais imponderável que seja.

Mantenhamos o foco!

O que realmente importa meus iguais, – me perdoem por escrever em letras garrafais – é que O OFÍCIO DO IMPONDERÁVEL É SER, APENAS E TÃO SOMENTE, IMPREVISÍVEL! Ou seja, de nada valem os prognósticos. De nada vale o escárnio. De nada vale o desdém. De nada vale o desejo de desconstrução de tudo, do clube, do time, da história. Vale, sim, a torcida! Valem as boas vibrações, vale o espírito, vale o coração, vale a garra. Valem os onze. Valem a obstinação e a abnegação daqueles que podem fazer algo. Vale seguirem trabalhando, como vêm fazendo. Isso sim vale! Isso é uma injeção cavalar de ânimo, um sopro de vida. Porque nada resiste ao trabalho duro. Nem má fase, nem má-fé. Nada!

Valem os mais de 25 mil no estádio ontem, sob a garoa gélida e frio congelante. Vale combater o bom combate e guardar a fé. Vale, acima de tudo, o amor incondicional pelo tricolor.

A moeda cairá em pé. E, quando isso acontecer, que legado, como torcedores, iremos apresentar?

Eu, Paulo Martins, sou SÃO PAULO, ad aeternum.

Valei-me, SÃO PAULO!

Por: Paulo Martins