Coluna do Paulo Martins: “Andar com Fé”

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Andar com Fé

Não tem sido fácil.

Um flagelo em campo, sob as três listras, que corre, luta, que se esvai. Outro flagelo fora, de terno e gravata, que age (?) nos bastidores e que se não fosse o imponderável parte integrante do esporte, selaria por completo o destino tricolor. E há ainda um terceiro flagelo, o que parece se regozijar com o momento, que faz uso do espaço que tem para escrever sobre o tricolor “com um sorriso no canto do teclado”. Deixemos este terceiro para escanteio, por enquanto, até porque não vale muito a pena… E falemos do imponderável.

Sim, há o imponderável no esporte. No futebol especificamente, ele interfere mais. Uns chamam de fé. Outros, de sorte. E há aqueles que até o chamam com nome e sobrenome, tal qual Nelson Rodrigues, o pai da crônica esportiva, o chamava: “Sobrenatural de Almeida”, que em 1981, ano do nascimento do escriba, se tornou personagem. Há também aqueles  que chamam de “fase”. O pai do escriba costuma chama-lo de “gol espírita”, aquele gol feito com a ajuda do sobrenatural, do improvável. Foi um termo bastante usado por radialistas e locutores esportivos nos anos 70 e 80. Hoje não mais, creio que por conotações religiosas. Outra bobeira, coisas de um mundo que anda chato demais!

O fato é que, independentemente da maneira que seja chamado, poucos duvidam de sua existência.

Como venho dizendo há algum tempo, embora haja o peso de um planejamento bem feito, boas contratações, bom treinador, boa comissão técnica, tudo ajustado e afinado, o futebol é um esporte deveras circunstancial.  O peso das circunstâncias do momento é brutal sobre o andamento de uma partida ou até de um campeonato. E é aí que o imponderável age!

Alguns jogos do SÃO PAULO são bons exemplos: o time joga bem, tem volume, cria. Mas a bola não entra, o gol não sai. Lembro-me que em algumas partidas (como contra o Cruzeiro, recentemente) os chutes a gol do SÃO PAULO paravam nos bloqueios da defesa, a bola sequer entrava na área para chegar até o gol. E quando passava, como recentemente contra o Milan, o goleiro adversário estava em tarde inspiradíssima, sendo um dos melhores da partida. Contra a Portuguesa, penúltimo jogo, foi assim no segundo tempo: o SÃO PAULO pressionando e de repente a bola fica quicando, viva, na entrada da área e cai nos pés de Diogo, que fuzila ROGÉRIO CENI e coloca ponto final na partida. Ontem, em alguns momentos, também tive essa sensação. Um maldito dejavu!

A bola não tem entrado. E isso a meu ver tem gerado grande instabilidade ao time. Destaco duas situações em especial: a) quando o time está perdendo e a bola não entra, causando certo esmorecimento. A intensidade cai, o time passa a sofrer pressão e a derrota é consequência; e b) quando alcança a vantagem,  inconscientemente até, recua por medo de não ser capaz de aumenta-la. Vem a pressão e o empate, quando não a derrota. Um círculo vicioso, pois.

Mas, não nos esqueçamos de que não há “script” no futebol, há o imponderável.

Trata-se da fé! Gosto de chamar assim: fé. Porque somos o time da fé. E porque, em síntese, sou adepto do “Porque com fé em vou, que a fé não costuma faiá”, como diz o verso de “Andar com Fé”, de Gilberto Gil. Mas agora a fé não está na maré, nem na lâmina de um punhal e tampouco no calor do verão, como diz a canção. A fé está dentro do insondável manancial de pensamentos do solitário que escolhe os protagonistas. Está sobre a grama. Está dentro e fora da baliza do gol, na bola que deve entrar e na que não. Está sobre as travas das chuteiras dos escolhidos. Está nas internas de concreto que sustentam o grito de uma nação que sofre. Que sofre, hoje, as demoras do imponderável. Está no próprio grito desta!

O curso dos acontecimentos poderá manter-se na mesma direção? Sim, poderá. Aliás, muitos já não  se contêm e declaram seus veredictos. Uns com mais coragem, outros com ressalvas, até sob os subterfúgios da escrita no futuro do pretérito ou na condicional. Talvez sejam herdeiros da obra e legado de Emmett Brown ou possuidores de poderes mediúnicos de pitonisa. Mas quem pode garantir que tudo não mude de uma hora para a outra? As vezes tenho a impressão de que certas opiniões carregam subliminarmente a intenção de cercear o torcedor do seu direito inalienável de acreditar na reviravolta, no renascimento, por mais imponderável que seja.

Mantenhamos o foco!

O que realmente importa meus iguais, – me perdoem por escrever em letras garrafais – é que O OFÍCIO DO IMPONDERÁVEL É SER, APENAS E TÃO SOMENTE, IMPREVISÍVEL! Ou seja, de nada valem os prognósticos. De nada vale o escárnio. De nada vale o desdém. De nada vale o desejo de desconstrução de tudo, do clube, do time, da história. Vale, sim, a torcida! Valem as boas vibrações, vale o espírito, vale o coração, vale a garra. Valem os onze. Valem a obstinação e a abnegação daqueles que podem fazer algo. Vale seguirem trabalhando, como vêm fazendo. Isso sim vale! Isso é uma injeção cavalar de ânimo, um sopro de vida. Porque nada resiste ao trabalho duro. Nem má fase, nem má-fé. Nada!

Valem os mais de 25 mil no estádio ontem, sob a garoa gélida e frio congelante. Vale combater o bom combate e guardar a fé. Vale, acima de tudo, o amor incondicional pelo tricolor.

A moeda cairá em pé. E, quando isso acontecer, que legado, como torcedores, iremos apresentar?

Eu, Paulo Martins, sou SÃO PAULO, ad aeternum.

Valei-me, SÃO PAULO!

Por: Paulo Martins

32 comentários

    • É isso mesmo, amigo Jonas!

      É disso que se trata: de apoio incondicional! Eu admiro muito vocês todos que vão ao estádio. Eu estou a 180km de SÃO PAULO e as vezes me acho um fracassado por nunca ter ido ao Morumbi em jogos do SÃO PAULO!

      Novamente, parabéns. Torcer é isso! 🙂

  1. Sensacional a coluna Paulo
    eu vejo na torcida a principal arma, tanto para nos levantar, tanto para cair
    o SPFC nunca precisou tanto de sua torcida como agora.
    ta na hora da torcida retribuir todas as alegrias que o Tricolor nos proporcionou.

  2. O cara é bom demais na escrita! Paulo, o Zanca que me perdoe, mas a sua coluna passou a ser a mais esperada da semana. Seus textos são excelente! O da semana passada me fez ir as lágrimas. Grande Abraço!!!

  3. Corrigindo:
    Excelentes.

    O cara é bom demais na escrita! Paulo, o Zanca que me perdoe, mas a sua coluna passou a ser a mais esperada da semana. Seus textos são excelentes! O da semana passada me fez ir as lágrimas. Grande Abraço!!!

    • Anderson, meu brother… Eu fico lisonjeado com os elogios, mas me comparar com o Zanca é a mesma coisa de afirmar que o Paulão Desmaio (eu) jogou mais que o Dario Pereyra (ele). rsrsrs.

      Aqui, só aprendo com todos, mestre Zanca incluso! 🙂

      Por isso digo que são os olhos de vocês que me veem assim. Fico feliz por agradar. De coração, agradeço as palavras e o prestígio. Quem escreve, tem a intenção de tocar o leitor. Quando percebe que conseguiu, o escriba dorme tranquilo, com a sensação de dever cumprido.

      Valeu mesmo! Abração!

  4. Todos os elogios ao autor são merecidos, fiquei me imaginando o Morumbi lotado cantando o trecho: ” Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiar”. Nada mais apropriado para o clube da fé, parabéns Paulo! Se possível, sugerir ao blog um horário ainda mais nobre para nosso querido escriba.

    • Obrigado pelas palavras, Johnny!

      Gilberto Gil foi profético nessa canção: “a fé não faia!”

      Obrigado pelo prestígio! Eu me sinto lisonjeado pelo espaço que o BLOG DO SÃO PAULO me concede para que eu escreva as minhas bobagens!

      Abraços!

  5. Coluna maravilhosa. Até repassei por email pro Zanca para que ele não perca de vista e leia.

    Um ânimo a mais ler palavras tão fortes, de conteúdo , em meio a tudo isso que estamos vivendo.

    Valei-me São Paulo!

    • Valeu Katia!!!

      Ter a audiência do chefe é uma satisfação imensa, obrigado por lembrá-lo.

      Nunca é demais lembrar a todos — todos mesmo! — que o imponderável tem um carinho especial pelo futebol, modos que a reviravolta é sempre uma das características do esporte.

      Valei-me SÃO PAULO!

  6. Verdade. Muito boa observação… Naquela ocasião o Fernandão foi uma injeção de ânimo ao tricolor. O Cruzeiro era o clube favorito e fizemos duas belíssimas partidas contra o time mineiro.

    Torçamos para que ocorra o mesmo.

    E, francamente, estou com um bom pressentimento quanto a estreia de Negueba… Pode ser um pouco do “algo que está faltando”, que os jogadores têm falado.

    Oremos… rsrsrs

  7. Paulo, sua coluna e simplesmente contagiante, com o preço de 2 reais para o sócio torcedor, e de 10 para os demais, temos que “Combater o bom combate e guardar nossa fe” Paulo seu xará já disse isso uma vez, e este sabia o que falava.
    Continue escrevendo desta maneira, porque nos precisamos sim sempre estar lendo este tipo de ensinamento, parabéns.

    • Cape3, obrigado por prestigiar o BLOG DO SÃO PAULO e a coluna. Agradeço também as suas gentis palavras.

      Pois é, o meu xará sabia das coisas…

      Aqui todos nós aprendemos juntos! Abraços! 🙂

  8. Boa noite galera! Me tirem uma dúvida. A situação pode ter quantos candidatos? Pq o leco diz que sera candidato do juju e vi um jornalista falando que o casares tb será! ?!?!

    • Na verdade, o segundo candidato é a situação camuflada.
      Pega a situação e divide em 2, vence um suposto candidato de “oposição” sendo que veio da antiga situação.

  9. Pessoal se o JJ tivesse Juizo ele teria vendido o Osvaldo no meio do ano, e junto com ele venderia o Luis Fabiano e o Ademilson, iria trazer alguem que jogue e mostre ao time adversário que tem um artilheiro do outro lado.

O São Paulo precisa de nós! Vamos apoiar!