Coluna do Paulo Martins: Que pai…

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Que pai não…

…Sonhou com um domingo daqueles? Daqueles que defenestram pela janela toda e qualquer possibilidade da melancolia do dia que antecede a segunda-feira.

Os domingos da bola… Aqueles onde o pai, na noite de sábado para domingo, acorda de duas em duas horas escravo da simulação mental involuntária que faz e refaz mil vezes o roteiro sacrossanto que colocará em prática meticulosamente no dia seguinte.

Que pai não deixou pendurado na porta do guarda-roupas, de sábado para domingo, dois exemplares – um maior e outro menor – do manto mais lindo do mundo, para que o cheiro da glória (licença poética à parte, às vezes o nome disso é mofo mesmo!) chegue a impregnar as paredes do quarto, atiçando os sentidos e evocando para o presente as mais belas lembranças do passado, tentando criar um delicioso ar de “dejavu” para quem ali repousava?

Que pai não acordou todo atabalhoado naquele domingo da bola, “vestiu sua armadura tricolor” e antes de ir ao banheiro fazer a higiene diária na lataria já castigada pelos anos, passou nos aposentos do rebento, abriu a porta com a delicadeza mastodontal peculiar a qualquer “futebosapiens do sexo masculino” e exclamou: “Acorda! Hoje é dia de ver o maior do mundo!”?

Que pai não teve o prazer de vestir a cria com o traje mais lindo do mundo, como se aquela vestimenta fosse o passaporte para algo tão único, talvez capaz de ser classificado como uma das mais marcantes alegrias que pai e filho, pai e filha podem compartilhar entre si e com estranhos, nos degraus de um estádio?

Que pai não estampou um sorriso bobo no rosto por sair de casa de mãos dadas com a felicidade – leia-se: com a cria – num orgulho capaz de fazer inveja a Napoleão, próprio de quem está prestes a proporcionar a prole o desfrute de uma das maiores invenções da humanidade?

Que pai não quis apresentar à cria o famoso “sanduba de pernil”, iguaria servida nas imediações do templo, que inexplicavelmente  mesmo feito respeitando os modos, trejeitos e ingredientes contidos no “arcabouço de papiros milenares” escritos há cerca de 40 ou 50 anos em terras paulistanas, não tem – ever! – o mesmo sabor se não for produzido na proximidade fraterna do estádio?

Que pai não quis sentir a satisfação especial de entrar na casa sacrossanta com o filho ou filha, de mãos dadas, admirando cada detalhe das entranhas daquele que é palco de tudo aquilo que o SÃO PAULO é para todos nós, capaz até do impossível: materializar a fé de uma nação?

Que pai não quis, abraçado ao filho ou filha, que o tempo parasse em todo grito de gol que ecoasse nas arquibancadas do “mais lindo do mundo”?

Que pai não sonhou compartilhar o choro com o filho ou a filha, pela emoção de uma conquista deflagrada pelo agudo som do apito do fim, e junto com ele ou ela, abrir os braços como se quisesse abraçar o mundo e se perder naquela imensidão sublime de concreto armado, vermelhidão, alma e sonho?

Poucos, muito poucos. Raríssimos!

E…

…Sob o mesmo contexto da  bola, que filho ou filha não desejou que a semana passasse voando para o domingo chegar logo?

Que filho ou filha não se apaixonou pela rabujice aguda do seu velhinho que solta os mais impublicáveis impropérios de encontro ao apitador ou ao DOUGLAS por cada passe errado; e segundos depois pelo “ataque de felicidade” quando no lance seguinte o jogador faz um belo lance de gol, e o pai explode em palavras de incentivo ao lateral?

Que filho ou filha não quis a eternidade para si e para ele, o pai, para viverem tudo isso de sete em sete dias? Ou, ao menos, que os anos ao lado do pai fossem multiplicados em setenta vezes sete? Ou que ele voltasse por pelo menos mais um dia, uma hora, um abraço, um gol?

É… Pois é.

Por isso, aproveitemos o domingo, seja ele “da bola” ou não e fiquemos juntos deles, dos nossos “velhinhos”, estejam eles do nosso lado ou do outro.

Portanto, se me permitem uma última extravagância, segue um conselho do escriba:

VITA BREVIS – TEMPUS FUGIT – CARPE DIEM

Feliz Dia dos Pais a todos os pais, tricolores ou não, do presente, do passado e do futuro!

Feliz Dia dos Pais, Sr. João Vieira, pai do escriba!

Por: Paulo Martins

37 comentários

  1. Nossa… chorei aqui… principalmente pelas lembranças que vieram dos velhos tempos de Templo com meu Pai, e pelo seu atual estado de saúde, impossibilitado de praticamente tudo já há mais de 3 anos…
    Parabéns Paulo, para mim, “deja vu”, alegria e tristeza ao mesmo tempo… rs

  2. Espetacular.

    Por respeito a esse post, acho que nem cabem outras discussões de assuntos menos interessantes. Arrepiante!

    Isso é material de primeiríssima qualidade.

    PS: Meu pai é Ponte Pretano. Já fui muito ao Majestoso com ele. Mas, não teve jeito, quando comecei a perceber o futebol como uma maravilha, era 92 e 93. Aí, já sabem.

  3. Sensacional Escriba!

    Simplesmente perfeito, e imaginei levando a minha pequena a casa sacrossanta, imaginei eu e a minha pequena comendo um belo “sanduba” de pernil.
    Imaginei eu e a minha pequena comemorando um título do Tricolor juntos, abraçados!

    Sentimento Ímpar.

  4. Hoje meu pai já é um senhor de uma idade avançada, sérios problemas de locomoção, já não tem mais disposição para enfrentar a batalha que é ir ao estádio de futebol assistir um jogo.
    Fomos muito junto aos estádios, dezenas e mais dezenas de jogos, talvez mais de 100, e um foi especial.
    Me lembro como se fosse hoje o maior presente de aniversário que meu pai me deu: ver ao vivo o tricolor ser Campeão Paulista em 1975, no dia do meu aniversário, meu primeiro título comemorado no Morumbi.
    Sinto muito a falta dele ao meu lado quando vou ao estádio…não é a mesma coisa…
    Valeu paizão.

  5. Boa tarde!

    Lindíssimo texto, eu aprendi o caminho do Cicero Pompeu de Toledo com meu pai. Nos ônibus da CMTC que saiam do Anhangabaú.

    Quando em 86, eu no alto dos meus 17 anos estava saindo de casa em um domingo cedinho meu pai perguntou:

    – Aonde o senhor pensa que vai?

    -Ué, vou pra Campinas.

    -Vc ta louco???

    -Sim! Uma loucura que aprendi de vc.

    -Precisa de dinheiro…

    kkkkkkkkkkkkkkkkkk

    eh Seu Percio…

  6. Ixi…e eu que tenho pai santista…como eu faço pra me identificar com o texto? kkk

    To brincando…não vou nem dar mais os parabéns ao Paulo pelos textos dele…vou ler e apreciar…fica aqui os parabéns para os próximos!

      • Aí lascou….ainda sou capaz de escutar o pessoal me amaldiçoando nos idos de 79 quando eu ainda tinha um pouco mais de um ano que eu seria ou gamba ou santista….vizinhos gambas na infância e parentes próximos santistas….bom, ai eu cresci e com ele uma paixão cresceu junto comigo desde que ouvi a primeira vez o hino do São Paulo.

        Não da pra explicar com palavras..não da sinceramente.

  7. PB – Aqui jaz um clube modelo. disse:

     9 de agosto de 2013 às 14:11

    Esse também estávamos.
    Gol no final da prorrogação né?

    ………………………………..

    É vc lembra do silencio do Morumba na prorrogação?

    E como estava lotado????

    • Vou confessar uma coisa…estava saindo do estádio quando saiu o gol…não ví o gol.
      Só escutamos o barulho e voltamos correndo para comemorar.
      Quando voltamos estava um baita quebra pau nas cativas, porrada pra tudo quanto era lado, pois nas cativas e numeradas as torcidas se misturavam.

      • Na arquibancada entre os degraus tinha gente sentada, quando marcamos o gol na comemoração fui parar longe do coroa.
        Um senhor me viu meio perdido e disse, quando todo mundo sentar, seu pai vai estar de pé, e foi assim mesmo.
        O povo na bancada me passava de degrau em degrau, épico!
        Mitico!

  8. Eder – Fernandópolis disse:

     9 de agosto de 2013 às 14:18

    Aí lascou….ainda sou capaz de escutar o pessoal me amaldiçoando nos idos de 79 quando eu ainda tinha um pouco mais de um ano que eu seria ou gamba ou santista….vizinhos gambas na infância e parentes próximos santistas….bom, ai eu cresci e com ele uma paixão cresceu junto comigo desde que ouvi a primeira vez o hino do São Paulo.

    Não da pra explicar com palavras..não da sinceramente

    !¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡!¡

    Ta perdoado.

  9. Texto maravilhoso, embora eu me encaixe no grupo de torcedores que tem seus pais torcendo por rivais! Rsrsrs. Meu pai, e minha familia inteira é Palmeirense, e só eu e dois primos somos São Paulinos! Kkkkkk
    Mas espero que eu consiga fazer a mesma coisa que no texto diz, com um futuro filho(a). =D

    Ah! Tem uma materia interessante no Lance! sobre jogadores que estão se destacando na serie B. Nossos diretores bem que poderiam “garimpar” um volante e um lateral direito…

  10. Boa tarde!

    Coisa mais linda esse texto. Merece ser publicado todo ano, em todos os dias dos pais.

    ALiás, publicaremos novamente no domingo.

    E deu saudade do meu véinho. Que bom que o encontrarei logo mais a noite. O tempo vai passando e a gente sente que cada dia a gente tem um pouco menos nossos pais. Por isso, para quem os tem como eu, aproveitem.

    É…me emocionei!

  11. Deixa eu tirar uma dúvida…
    Postei o link de um vídeo, e ví que foi retirado.
    Como acredito que o vídeo não tinha nada que justificasse a retirada (tinha alguns palavrões, mas no contexto em que foi falado era algo mais engraçado do que ofensivo), imagino que seja pelo peso que ele trás para a página.
    E aí eu pergunto: como se faz para postar somente o link, sem que o vídeo inteiro seja carregado?
    Independente do vídeo ter ou não ferido as regras do blog, e se o fez peço desculpas, gostaria que me tirassem essa dúvida.

  12. Boa tarde, pessoal!

    Eu realmente fico feliz pela acolhida do texto que escrevi ontem a noite para a coluna. Claro, seguindo o protocolo, tinha de estar dentro do contexto do pai tricolor que leva o filho ou a filha, também tricolor, ao estádio.

    Mas entendo que sirva para todo pai que fez/faz/fará algo com os filhos, por toda a magia que há em torno desses momentos.

    Agradeço demais as palavras de todos. Eu me sinto muito, muito honrado mesmo por ler as palavras de vocês todos!

    Abraços! 🙂

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