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CARTA ABERTA AO TORCEDOR DO SÃO PAULO

Caro(a) torcedor(a) do SÃO PAULO,

Escrevi esta coluna três vezes. Em cada uma delas, tratei de um assunto diferente. Histórias, estórias… Mas estava estranho: olhava para elas e meu “feeling” apontava que nenhuma servia. Não que fossem de todo imprestáveis. Mas não era para ser. O dia de hoje demandava algo diferente.

Então apaguei sumariamente tudo. Porque eu só acredito nas coisas que faço pela necessidade, porque é preciso. Do contrário, para mim perde o sentido. Já desconfiava que tinha que escrever outro texto. E tive a confirmação maior ontem (01/08), depois de um telefonema a tarde, em que tratei deste assunto com uma amiga. That´s it! Era para me dirigir a vocês, meus iguais de três cores.

Os tempos atuais são difíceis, sem sombra de dúvidas. Talvez seja um dos piores – senão o pior – momento da história do clube: jejum de vitórias, o risco de rebaixamento, um horizonte de nebuloso panorama, piadas dos torcedores adversários (e se já bastam as deles, cessemos com as nossas. Fogo amigo, embora amigo, é fogo também), etc. Tudo isso é verdade!

Também é verdade que o SÃO PAULO de hoje está bastante distante do SÃO PAULO de outrora, o de vanguarda, altivo, auspicioso, organizado e vencedor. Está. Porque por natureza não é afeito a este tipo de situação e não ficará assim por muito tempo. É verdade também que o clube virou refém dos acertos, do êxito de quem o dirige. Estes, os diretores, foram contaminados pelo diabo do continuísmo construtor das mais pérfidas ditaduras, e mexeram céus e terras para se manterem no poder. O clube, num ambiente dinâmico e competitivo como o futebol, estagnou. A velha empáfia, que muitos dizem ser a síndrome do “eu sei, você não sabe”.  “Parou no tempo”, foi o diagnóstico de um dos maiores jogadores da história do SÃO PAULO. Opinião de quem vive a realidade do clube há décadas. Deveras relevante!

Do lado de cá, eu, vocês, nós todos. Uma torcida descontente, com a frustração elevada à décima potência, que acompanha quase impotente a derrocada – ainda que momentânea – do clube mais vencedor da história do futebol brasileiro.

Uma torcida que protesta! Oportuno citar a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1793, que em seu artigo 35 diz: “Quando o governo viola os direitos do povo, a insurreição é, para o povo e para cada parcela do povo, o mais sagrado dos direitos e o mais indispensável dos deveres”. Trazendo o texto para o contexto tricolor, resta incontroverso que protestar, demonstrar indignação, insurgir é legítimo, salutar, desde que com o devido respeito à instituição  e, principalmente, com lealdade aos fatos e à história. E é um dever, para que haja mudança, frutos.

Porém, como tudo na vida, há limites. Baderna, achincalhamento, falta de educação, desordem, ofensas pessoais, violência, tudo isso não cabe em lugar algum, é um meio para qual fim algum justifica. E é nosso dever também discernir o joio do trigo, a liberdade da libertinagem, o que constrói e o que destrói.

Não há contentamento ou felicidade alguma para com o momento, seja dentro ou fora de campo, atrás da mesa que decide, na arquibancada ou na poltrona que sofre. Nem resignação. Há, sim, um grupo de jogadores que vem lutando para sair do buraco. Há, sim, uma comissão técnica trabalhando, “queimando fosfato” para encontrar uma forma de montar o quebra-cabeça de modo que as peças se soldem umas às outras com perfeição e se sedimentem.

E esses sujeitos que vestem o nosso manto, que ostentam as três cores mais lindas do mundo são tudo o que temos neste momento, além da inabalável fé em dias melhores. Portanto, merecem o nosso respeito e, acima de tudo, o nosso apoio.  Hoje, meus iguais tricolores, o SÃO PAULO precisa de todos nós muito mais do que nós já precisamos dele um dia. Os tempos atuais exigem uma mudança de postura de nossa parte, como torcida. Exige que estejamos presentes! Exige que tenhamos sabedoria, discernimento, serenidade. Urge que saiamos do casulo do conformismo na negatividade, do “já caiu”, do “eu não disse que é ruim?!”, da crítica destrutiva; e que abracemos o time como nunca fizemos, como se não houvesse amanhã.

Urge que compreendamos que há um trabalho em curso e que, diferentemente do que boa parte da imprensa teima em afirmar (ultimamente, a isenção tem sido confundida com o apostolado do apocalipse!), há uma evolução acontecendo sim, degrau por degrau, tijolo por tijolo e que isso não é, em hipótese alguma, uma análise tendenciosa de torcedores. Que ao contrário do que digam,  o SÃO PAULO não é terra arrasada e que não adianta tentar plantar na grama fértil do Morumbi o que foi colhido nas searas dos outros clubes.

Protestemos contra o que está errado de fato, não daquilo que achamos estar, afinal de contas poucos sabem com precisão e detalhes o que acontece de verdade no dia-a-dia dos clubes.

A imprensa, por mais respeitável que seja — e em alguns casos não é! –, por motivos de proteção a integridade de suas fontes, conforme reza o código de ética pertinente em seu capítulo II, artigo 6º item VII, não possui obrigatoriedade de divulgar suas fontes, de modo que, felizmente ou infelizmente, a credibilidade do que é noticiado pode ser posto em xeque e portanto não deva ser encarado como dogma. Ainda mais quando, aparentemente por cegueira nostálgica, alguns críticos pareçam viver nos tempos de Pelé ou no fim da década de 90, quando alguns times brasileiros eram equivalentes, quando não superiores, aos europeus. Os tempos são outros, a nossa realidade, como SÃO PAULO, é outra. Cobrar uma vitória do SÃO PAULO contra o Bayern ou cobrar que faça um jogo equilibrado contra o time alemão é, hoje, uma prova cabal do disparate. Por isso a parcimônia com tudo o que se escuta e se lê. Discernimento!

Mas, acima de tudo, que abracemos aqueles que realmente podem fazer a diferença hoje. Que os 11 sejam cem, sejam mil… Que sejam milhões! Que joguemos junto com eles e eles por nós. Que soframos as demoras do imponderável juntos, mas não os abandonemos. Porque eles são, hoje, o SÃO PAULO. Eles, os 11, são todos nós.

Idis. Redibis. Non morieris in bello. Pro SÃO PAULO, fiant eximia ad aeternum.

Força, SÃO PAULO!

Por: Paulo Martins